Saúde

Toques e retoques

Daniela Hueb*
| Tempo de leitura: 5 min

A chave do emagrecimento não está nas calorias

Prezado leitor,

Hoje você acordou cedo, pegou o jornal na porta de casa ou comprou na banca e, ao abrir nesta página, neste exato momento deve estar pensando: “Isso é algum tipo de piada?”. Por incrível que pareça a resposta é “NÃO!”. Por muito tempo se pensou que para emagrecer bastava prestar atenção no fator calorias. E para isso, bastava cortar alimentos, passar fome, pular refeições e, como mágica, aqueles indesejáveis quilinhos iriam desaparecer.

Na prática, sabe-se que isso funciona apenas por um tempo. Há quem busque milagres em medicamentos ou nas dietas da moda vendidas por celebridades. Outros preferem se entupir de alimentos diet, light ou nas versões 0% de gordura na ilusão de que irão emagrecer em poucos dias. Mas há também quem coma uma feijoada bem farta e depois beba litros de chá verde ou coma diversas fatias de abacaxi porque realmente acreditam que eles têm o poder de diminuir os ponteiros da balança ou de forma inexplicável abduzirem as calorias ingeridas. Não quero acabar com os sonhos alheios, porém isso tudo ainda é uma “doce” ilusão.

A resposta, ou melhor, a chave para o sucesso do seu tratamento é simples: conscientização. Para emagrecer é preciso entender, antes de tudo, qual a importância de uma reeducação alimentar, da mudança de estilo de vida, da importância da adoção de atividades físicas e do controle do estresse.

E as calorias

Sim, elas sempre foram vistas como as vilãs. Porém, você sabe realmente o que é uma caloria? Apesar de o conceito ser puramente física e um pouquinho complicado, trata-se da relação da quantidade de calor necessária para elevar em 1ºC a temperatura de 1 litro de água. Em outras palavras, o organismo precisa produzir calor para digerir os alimentos. Aqueles números de calorias que vemos estampados nos rótulos dos produtos e que fazemos questão de bisbilhotar antes de efetuar a compra, nada mais é do que a indicação da quantidade de calor que o organismo precisará produzir para digerir aquele alimento.

Embora muitas pessoas desconheçam, a gordura funciona como um isolante térmico. No verão, por exemplo, o organismo trabalha mais para manter o corpo resfriado e numa temperatura normal, conseqüentemente, queima gordura mais facilmente. Já no inverno, com o frio, o organismo tende a acumular a gordura para manter o corpo aquecido. Portanto, quando não consumimos calorias, o organismo irá ter a mesma reação de quando submetido ao inverno e passa a “estocar” energia e a gastar menos. Está vendo como a chave para emagrecer não está em passar fome? Calma, isso não significa que você pode e deve ir se empanturrando de doces e besteiras. É importante consumir alimentos que contenham calorias, mas, sobretudo, que contenham nutrientes.

Quais alimentos?

Vamos fazer um teste bem simples. De um lado você tem um punhado de castanha do Pará, que contém 150 calorias. Do outro, temos três biscoitos cream cracker light, com apenas 60 calorias. No caso de uma pessoa estar de dieta, qual alimento seria o ideal? É claro que a resposta seria unânime: os biscoitos, pois são menos calóricos.

Agora, vamos mudar um pouco o foco calorias e pensar um pouco nos nutrientes: para começar, a castanha do Pará é natural e contém vitaminas do complexo B (coadjuvantes da digestão), magnésio (coadjuvante na saciedade e na digestão), selênio (antioxidante) e cálcio (fortalece os ossos e o músculo cardíaco, ajuda na contração muscular e na coagulação do sangue). Além disso, possui fibras (funcionamento intestinal), gorduras insaturadas (as saudáveis que auxiliam na redução do vilão colesterol LDL e a construir hormônios) e uma dose não muito exagerada de proteína e pouco carboidrato, o que é excelente, mas ainda assim são calóricas.

Por outro lado, temos os biscoitos cream cracker, mas o que eles contêm? Além de serem industrializados e possuírem gordura trans (as grandes vilãs), eles têm pouquíssima quantidade de vitaminas do complexo B (quase zero), sódio (que previne a desidratação), um pouco de cálcio e farinha. E claro, não vamos esquecer que eles são menos calóricos.

E agora, diante de todas as características dos alimentos, qual você atacaria? Ainda aposto que a resposta correta é: comeria os biscoitos por conterem menos calorias e, caso devorasse as castanhas, seria com peso na consciência por serem mais calóricos. O fato é que as pessoas se preocupam demais com o número de calorias de cada alimento quando, na verdade, o que importa é a sua composição total e o conjunto de nutrientes consumidos ao longo do dia. Até mesmo porque esses nutrientes trarão diversos benefícios para o nosso corpo.

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Escolha correta

Então, na hora de escolher entre dois alimentos, lembre-se: as calorias de qualidade irão estimular o organismo a queimar mais gordura e aproveitar melhor os nutrientes. Já aqueles com menos calorias e também sem qualidade nutricional tendem a fazer exatamente o inverso.

Portanto, caro leitor, agora já sabemos que para emagrecer não basta simplesmente fechar a boca e passar fome. É claro que o exemplo comparativo citado acima funciona apenas com o consumo freqüente de alimentos de qualidade, prática regular de atividade física (para aumentar as reações no corpo, ou gerar calor e queimar gordura) e mudança de estilo de vida. E também de nada adianta selecionar bem os alimentos durante as refeições e depois devorar uma caixa inteira de chocolate. Se você pretende emagrecer, está na hora de parar e pensar nisso tudo. E digo mais: se você realmente se ama (porque só quem ama faz sacrifícios), então merece desfrutar desses cinco minutos de reflexão.

Um grande abraço e até o próximo domingo.

Daniela Hueb

Médica nutróloga e pós-graduada em dermatologia estética - CRM-SP 96.027.

Envie suas dúvidas para e-mail:danielahueb@jcnet.com.br

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