Um garoto brincava de escorregar do alto de um pequeno morro com um saco de estopa. O menino demorava uns cinco ou seis minutos para subir até o topo do morro e de lá escorregava através da grama e a decida não durava mais que alguns segundos. O garoto passou a tarde inteira brincando de escorregar tendo de subir o não tão pequeno morro com certo sacrifício todas as vezes. Mesmo assim, ao voltar para casa no final do dia, o menino só se recordava da deliciosa decida, mas não da dificuldade e duração da subida.
Apesar de estarmos em nosso processo histórico de consolidação de uma democracia temos que admitir que não vivemos como homens e mulheres livres. A liberdade que temos é ilusória, pois a nossa sociedade capitalista é marcada por uma grande desigualdade social, pela forte influência do consumo e a inevitável necessidade de sobrevivência da maioria. Em nosso universo social absorvemos lentamente uma ideologia individualista do progresso. “Eu” preciso progredir! Não é a sociedade que necessita se desenvolver para que todos possam ter uma qualidade de vida, mas cada indivíduo deve buscar o seu “lugar ao sol”. Faz-se necessário o sucesso e destaque pessoal para se ter uma sensação de realização humana. A regra sutilmente imposta se resume na busca de uma acumulação material-intelectiva, ou seja, para sobreviver ou manter-se em uma condição desejável é necessário o acúmulo de capital e de informações. O acúmulo intelectivo aqui não se refere à reflexão, ao uso de nossa inteligência para o pensamento sobre o sentido profundo da vida, mas informações técnicas que me mantenham no mercado de trabalho. Este ambiente social, no qual todos tentam sobreviver, nos enclausura em um monismo ético. O monismo ético se caracteriza em uma atmosfera social que leva as pessoas a não pensar, a não refletir sobre suas atitudes, sobre seus comportamentos ou estilos de vida. A sociedade de consumo, a concorrência e a necessidade de sobrevivência impõem comportamentos às pessoas que automaticamente os reproduzem tornando-os normais. A conseqüência deste monismo ético é a legitimação da falsidade, da hipocrisia, da corrupção e, principalmente, do individualismo reforçado pela máxima popular brasileira “tem que levar vantagem em tudo”. A legitimação aqui é pior do que a própria falsidade, hipocrisia, corrupção e o individualismo, pois ao legitimarmos tais atitudes estamos tornando-as regras aceitas como oficiais nas relações sociais.
Em uma sociedade na qual o monismo ético predomina, se faz necessário com urgência o desenvolvimento de uma mentalidade na qual a reflexão ética seja um hábito permanente. Lembrando que ética é uma reflexão sobre comportamentos humanos, na perspectiva do bem e do mal, em busca de qualidade de vida. Refletir eticamente é buscar analisar nossas atitudes procurando discernir racionalmente e, através de nossa prática de vida, decidir quais delas podemos classificar como construtivas à vida e, portanto, desejamos adotar como hábito, e quais são destrutivas à vida e desejamos eliminá-las de nossas relações humanas.
O exercício da ética é a constante avaliação do comportamento humano procurando transformar nossos pensamentos em atitudes concretas para a nossa cada vez melhor qualidade de vida. O grande e final objetivo da ética é, portanto, a qualidade de vida do ser humano. Porém, se desejamos construir uma ética que podemos chamar de saudável é necessário não perdermos de vista que esta qualidade de vida deve atingir a todos. Em outras palavras, ao analisarmos nossos comportamentos devemos ter em mente que não estamos buscando uma qualidade de vida individualista, mas principalmente coletiva.
Portanto, a primeira atitude a ser eliminada de nossa postura ética é a ideologia individualista do progresso, através da qual devemos atingir o sucesso a todo e qualquer custo. A lei do “levar vantagem em tudo” deve ser abolida e eliminada de nosso comportamento, se desejamos construir um espaço social no qual todos possam alcançar a felicidade individual. A ética não é simplesmente a imposição de normas, mas a compreensão do que deve ser protegido e respeitado para que a vida de todos se desenvolva.
Em outras palavras, nós discernimos o que é um comportamento bom ou ruim a partir do momento que temos claro quais são os valores que desejamos ter e proteger. Uma ética saudável é aquela que, em primeiro lugar, procura definir os valores que são indispensáveis para que a vida de todos possa se desenvolver. Valores são aspectos da vida que sem eles a saúde, física e mental, ou a dignidade da pessoa humana é prejudicada.
A discussão ética sobre estes valores é o primeiro passo para o amadurecimento social e de uma construção de uma sociedade, na qual possamos nos respeitar e livremente buscar a felicidade. Sem a reflexão ética nos contentaremos sempre com prazeres de pouca duração sem percebermos realmente o desgaste que a maioria possui para sobreviver.
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