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A família trapo


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Fazer rir é uma dos ramos mais difíceis e complexos da arte dramática! É fácil encontrar atores que nos façam rir de raiva ou do ridículo de suas atuações, mas um verdadeiro comediante, daqueles que é capaz de desarmar qualquer espírito carrancudo com um simples olhar: esses são muito raros. Piadas e esquetes rápidos têm sido uma fórmula eficiente e repetida em vários programas televisivos. Heranças dos tempos do teatro de revista, ainda usam e abusam de malícia, sensualidade, tipos esdrúxulos e comentários preconceituosos para fazer rir. Mas são raros os programas que se aventuram a contar uma história contínua, com os mesmos personagens, num mesmo cenário e, sobretudo, ao vivo! Por tudo isso, existe um programa inesquecível que, ao menos em minha opinião, nunca foi sobrepujado: “A Família Trapo”. Exibido entre o final da década de 1960 e o início da de 1970, o programa reunia um elenco estelar: Otelo Zeloni, o pai (Pepino); Renata Fronzi, a mãe (Hélena); Jô Soares, o mordomo (Gordon - o noe já era um achado! -, invariavelmente surrado nas nádegas, por Pepino); Cidinha Campos, a filha; Ricardo Côrte Real, o filho; Sônia Ribeiro, a criada; e o fantástico Ronald Golias, como o cunhado (Carlo Bronco Dinossauro). Zeloni, Renata, Jô e Golias já eram comediantes consagrados, todos em excelente forma; mas a presença de Sônia Ribeiro - apresentadora sofisticada, culta e de voz perfeita - como serviçal submissa já era impagável, pelo simples fato do papel nada ter a ver com ela! Jô e Carlos Alberto de Nóbrega escreviam os roteiros, e Golias tinha total liberdade para “pintar e bordar”.

Para melhorar, a Record vivia seu apogeu, com os festivais e programas como: “Jovem Guarda”, “O Fino da Bossa”, “Hebe” e muitos outros, o que garantia participações especiais de artistas em quase todos os episódios da comédia. Se, hoje, os erros de gravação tendem a ser mais engraçados que a intenção original, na época os “cacos” corriam soltos, responsáveis por momentos memoráveis, como no dia em que Pelé apareceu para reforçar o time no qual Gordon era goleiro, e Bronco, centro-avante. Bronco não havia sido consultado e, enciumado, resolveu testar as habilidades do novo jogador na cobrança de pênaltis: Quando Pelé, na primeira cobrança, deu a tradicional “paradinha”, Bronco gritou, em tom de desfeita: “Assim você cai!”. Na segunda cobrança, Gordon praticou uma sensacional e imprevisível defesa, sob os aplausos e risos da platéia... Infelizmente, esse foi um dos poucos episódios da série salvos dos incêndios nos teatros da Record. Bons tempos! Que também foram únicos! Talvez porque eu fosse criança; talvez porque rir faz bem; talvez porque o programa era, simplesmente, danado de bom! Com certeza, por tudo isso!

O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é escritor, engenheiro e professor universitário e compositor...

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