Cultura

Artigo: Qual é o seu segredo?


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Dia destes de calor, que nos aponta para as dificuldades que nos espera o verão, estava descansando no sofá e mergulhei no enredo do filme brasileiro “Do Outro Lado da Rua”, cujos atores principais são, Fernanda Montenegro e Raul Cortez. Não sei bem se inicialmente a história me interessou ou se fui convocada a assistir o filme pela atuação brilhante dos atores. O fato é que assisti do começo ao fim, regando meu calor com água gelada. Valeu a pena.

A história trata de solidão, de vazio e de como pessoas que vivem na condição solitária se ocupam em invadir a vida do outro, sem que o outro perceba e permita. O filme relata o drama de uma mulher que da janela de sua casa “fiscaliza” com binóculo o que acontece nos prédios do outro lado da rua, e acaba presenciando o que lhe parece ser um terrível segredo: um homem matando sua mulher com uma injeção letal. Chama a polícia, mas o óbito é dado como morte natural.

Na tentativa de provar que estava certa, acaba se envolvendo com o suposto assassino. Desta investigação, cria-se um cenário que propicia a um encontro tardio, cheio de contradições, em que os dois irão reavaliar suas vidas de um modo que nunca poderiam imaginar.

O que me chamou a atenção, além de cenas poéticas, foi como as pessoas se enterram no vazio de buscar segredos que não existem. Sob este ângulo, o enredo mostra o outro lado de nossa condição humana em que somos convocados a guardar segredos dos outros e de nós mesmos, que sem perceber aos poucos vamos revelando (e inventando), pois viver com eles é atestar cada vez mais a nossa própria solidão.

Quando o filme terminou, fiquei pensando nos segredos que guardei - e esqueci -, nos segredos que revelei e também nos meus segredos que ao longo do tempo foram se enredando com outras histórias, e o começo deles já esqueci. Gosto de segredos que são contados e inventados, aliás, eles são combustíveis importantes para a criação do universo feminino.

Nós mulheres somos feitas de segredos. Alguns que partilhamos, e nesta partilha criamos um pouco de cumplicidade e abrimos espaço para o convívio tão necessário para vivermos a nossa condição humana, tão poética, tão caótica.

Agora que já estou chegando aos 40, gosto de guardar segredos que são meus, e já aprendi a acolher o segredo das pessoas que me confidenciam. Este parece ser o ingrediente indispensável para escrever, contar histórias e perguntar sem medo: Qual é o seu segredo?

Flaviana Tannus - Psicóloga, mestranda da Unesp – Bauru e colaboradora de Ju Machado escritório de arte

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