Nas relações humanas, as polaridades do “dar” e do “receber” podem ser expressas como “direitos” e “deveres”. Meus direitos são os seus deveres. Direitos e deveres estão engrenados; nenhum faz sentido sem o outro. Assim como não pode haver um ato de receber sem um ato de dar, não pode haver direitos sem obrigações.
Direitos e deveres formam um conjunto de regras que definem as relações entre indivíduos no seio da sociedade. No mundo animal, essas relações são necessariamente de força física ou capacidade de intimidação. Na sociedade humana, substitui-se a força por obrigações discutidas e aceitas em comum e às quais cada um se submete de bom grado porque compreende que elas constituem a armadura de sua liberdade. Sem a interação entre direitos e deveres pode existir uma multidão de pessoas lutando por suas necessidades biológicas, mas não um povo.
Direitos são a mim devidos, eu posso reivindicá-los se necessário. Deveres devem ser respeitados. Eles limitam minha liberdade e meus anseios de forma a acomodar os seus direitos.
Ambos, direitos e deveres, são necessários. Cada pessoa tem o direito de esperar por aquilo que lhe é devido e o dever de proporcionar a outra tudo o que lhe é devido. Mas a pergunta essencial é: “o que o preocupa mais: seus direitos ou seus deveres?”.
Ao zelar pelos meus direitos, estou envolvido num ato de receber; ao honrar minhas obrigações e deveres, estou envolvido num ato de dar.
Receber está relacionado ao presente – quando eu recebo ou tomo, eu tenho aquilo que quero agora. A necessidade da gratificação instantânea é um sintoma de imaturidade, um traço infantil e no fundo origina-se do enfoque em “si próprio”.
Dar é um investimento no futuro – quando dou, eu talvez não veja os efeitos por um longo tempo; de fato, tudo o que posso experimentar agora é o sacrifício daquilo que estou dando. O enfoque no “dar” e no “dever” é um enfoque em outra hora.
A vontade de receber, por si, não é má. É preciso receber para poder dar. É preciso, também, saber quando receber. Às vezes, recebendo e aceitando um convite, se proporciona a quem o faz, o prazer de dar também.
O trabalho do Homem é justamente criar o elo entre o querer receber e o querer dar. Dar para receber está em nível mais alto do que receber para dar. A ação de dar vem primeiro e o compartilhar verdadeiro ocorre quando colocamos a necessidade de outra pessoa à frente da nossa própria.
Desgraçadamente toda a nossa sociedade está fundamentada na idéia de que a base da felicidade é receber. Captamos esta mensagem centenas de vezes todos os dias: receber uma boa educação, receber a melhor taxa de juros, receber o sentimento de ser amado, valorizado, apreciado em casa e no trabalho.
O desejo de receber “somente para si” é como uma droga altamente viciadora. Ficamos apegados à euforia que ela proporciona. Como outras drogas, o desejo egoísta tem diversos nomes de guerra. Dinheiro, fama e poder são alguns dos mais conhecidos. Mas, como qualquer substância que vicia, os efeitos prazerosos do desejo de receber são transitórios e têm duração progressivamente mais curta.
Uma sociedade que enfoca direitos é uma sociedade que desenvolve receptores. Uma sociedade que se concentra nos deveres e nas obrigações desenvolve pessoas preocupadas com o ato de compartilhar. Os detalhes específicos de um sistema político são muito menos importantes do que esta idéia básica. Nenhum sistema político funcionará quando os indivíduos abrangidos por este sistema são, inerentemente, receptores. Eles estarão sempre tentando tomar o que puderem do sistema e sempre sentem que não estão recebendo o suficiente. Ao contrário, qualquer sistema político funcionará admiravelmente quando seus membros contribuem, ao menos, com o tanto que recebem.
O autor, Paulo Cezar Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica - FEB - Unesp-Bauru