Em seu livro “Walden ou A Vida nos Bosques”, Henry D. Thoreau escreve que “quer se trate de vida ou morte, almejamos somente a realidade. Se realmente estamos morrendo, ouçamos o estertor em nossas gargantas e sintamos o frio nas extremidades; se estamos vivos, vamos tratar da vida”.
A morte é única certeza de nosso futuro. Ela é um fato inevitável e que nos toca profundamente. Talvez pior que a nossa própria morte seja a morte daqueles que amamos; afinal, aquela que vivenciamos concretamente nesta existência é a morte dos outros. De qualquer forma, não importando se é a nossa morte ou a daqueles que amamos, muitos vivem da esperança que existe uma vida além da morte. As religiões são as primeiras a se manifestar sobre a existência de uma vida eterna. Nelas encontramos uma enorme diversidade de respostas.
Duas correntes, porém, parecem prevalecer na maioria das religiões ocidentais e orientais: a ressurreição e a reencarnação. Por sua vez, tanto do lado da reencarnação como do lado da ressurreição, não existe uma clara unanimidade. Do hinduísmo ao espiritismo ocidental, até chegar à umbanda brasileira, encontramos um leque enorme de variações sobre o fenômeno da reencarnação. Entre as teologias judaicas e cristãs, encontramos também uma grande variedade de visões sobre como e quando acontecerá a ressurreição.
Porém, se somos religiosos, podemos fazer um exercício livre (e acredito que Deus não irá ficar bravo conosco) sobre as duas visões deixando um pouco de lado as revelações de cada religião. Sobre a ressurreição, poderíamos nos perguntar: o que concretamente significa esta palavra? Ela significa uma Vida Nova? Como seria a chamada ressurreição da carne? Para esta vida nova, nós levamos nossa história terrena, como os erros, os pecados, as boas ações? Se não levamos, por que passamos por aqui? A ressurreição está condicionada a um julgamento? Este é feito por Deus ou pelo próprio homem que atingiu a consciência total através da ressurreição? Se o julgamento é feito por Deus, onde fica a liberdade humana?
Com a morte, o homem se torna um objeto nas mãos de Deus, perdendo também a sua dignidade? Na vida depois da morte existe céu, purgatório e inferno? Mas como combinar a idéia de purgatório com a idéia de eternidade? A ressurreição acontece no momento da morte ou no chamado “final dos tempos”? Se ser bom é condição para ir para o céu, isso não geraria uma ética infantil e contestável: sou bom para alcançar um bem pessoal e não porque é bom ser bom? Mas o que é ser bom? Matar é um mal. Mas se Hitler tivesse sido morto, milhões de pessoas não teriam morrido de forma terrível nos campos de concentração e extermínio ou na Segunda Guerra Mundial.
Como questionamos a ressurreição, podemos nos questionar sobre a reencarnação: se eu reencarno várias vezes, ou seja, em uma sou Maria, em outra José e dessa vez o Beto, quem sou eu exatamente? Qual a minha identidade? Com a reencarnação, Deus nos oferece uma chance, ou chances para evoluirmos, mas mesmo assim nós não estaríamos presos a uma estrutura? Por que nos esquecemos das outras vidas quando encarnamos em uma nova? Se as pessoas que vivem conosco são somente espíritos em evolução, qual a razão dos vínculos familiares?
Toda nossa vida terrena é apenas um teatro? E os espíritos puros, por que não aparecem em praça pública para que todos possam ver e perceber o que realmente existe? Se cada um possui seu carma, o carma de Hitler estava entrelaçado ao carma de milhões de pessoas? Hitler proporcionou a purificação de milhões de pessoas através do sofrimento? Portanto, o carma de Hitler seria bom? E as crianças que morrem ao nascer, seu carma é só nascer para morrer? Acredito que tanto aqueles que defendem a ressurreição como aqueles que defendem a reencarnação, ao lerem estas linhas, já foram dando suas respostas com mais ou menos convicção.
Aliás, como padre católico eu possuo as minhas. Acredito que todas estas questões possam ser discutidas por cada religião dentro de sua linha. Mas a grande questão sobre a morte não é o que vem depois dela. A grande questão é o que está antes dela. Justamente o “aqui” é o plano que une todos os religiosos. Parece-me mais lúcido compreender que a salvação deve ser vivida no aqui e agora. Esta é a grande mensagem de Jesus Cristo: a cada instante fazemos a opção de viver como salvos ou como condenados. Através de minhas ações, sou um sinal de salvação ou de danação para o mundo. Quando paro de buscar a “grande resposta” e me concentro em preencher meus dias com momentos significativos encontro o sentido da vida. Por conseqüência, perco o medo da morte.
Afinal, o pior inferno, a verdadeira condenação, é o desperdício da vida. O dia em que os religiosos deixarem de se dividir por questões sobre a vida além da morte e se unirem para que o Estado e toda a sociedade concretizem, por exemplo, os direitos fundamentais que possuímos em nossa Constituição, como direito à saúde, educação, moradia, trabalho, lazer, respeito à dignidade e a individualidade, entre outros, nós estaremos cultivando uma vida verdadeiramente salvífica. E tenho a intuição que, neste dia, Deus irá sorrir.
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