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Metamorfose ambulante


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Tardia, mas ainda em boa hora a decisão do Conselho Monetário Nacional e disciplinar a cobrança de tarifas bancárias. O filão que os banqueiros descobriram no Brasil é inédito no mundo, graças a um governo condescendente e as autoridades financeiras lenientes. A receita dos bancos com cobranças de tarifas cresceu mais de 17% de janeiro a setembro deste ano, em relação ao mesmo período de 2006. As instituições financeiras faturaram a assombrosa quantia de R$ 40,8 bilhões em apenas nove meses. Deu para pagar a folha de funcionários, com todos os encargos, e ainda sobrou quase um terço para engordar os extraordinários lucros de balanço.

O Banco Central demorou a ouvir as reclamações dos clientes. Os abusos são tantos que o usuário sequer pode optar por um banco com tarifas mais camaradas. Cada estabelecimento adota uma nomenclatura diferente a ponto de dificultar o cotejo. De propósito. A multiplicidade de serviços oferecidos atualmente, com nomes diversos, favorece o descontrole e a fiscalização, com prejuízos óbvios para o consumidor. As novas regras começam a valer a partir de abril. Até lá é provável que os banqueiros aprontem alguma em cima do consumidor, para se compensarem.

Infelizmente o pacote “moralizador” não inclui a proibição de se cobrar do trabalhador para que ele receba o minguado salário depositado em banco. Uma injustiça flagrante. Quem tem que cobrir as despesas é o patrão ou então do governo que “vendeu” a folha de pagamento dos seus funcionários.

Depois vem o Lula e se arvora em “metamorfose ambulante”. Coitado do autor original, o saudoso Raulzinho Seixas. Ele jamais quis dizer que governante precisa ser mimético para pagar mensalões e depois dizer que não sabia de nada. Ou para liberar bilhões de reais em emendas orçamentárias para aprovar alguma coisa no Congresso e não ver resultados. Para esse tipo de problemas seria mais adequado usar o título de outra balada de sucesso do Raul Seixas: “Ouro de Tolo”. Lula pagou, pagou e está numa situação difícil para conseguir aprovar a CPMF. Pelas contas, tanto do governo como da oposição, são mínimas ou nulas as chances de a prorrogação do imposto do cheque ser aprovada. A partir do ano que vem - se a “menas” chance do governo se confirmar - o brasileiro deixará de guardar dinheiro sob o colchão. Por enquanto é o único jeito de não submeter o salarinho suado às mordidas do banco e do fisco.

Lula xinga os que são contra, com seu linguajar canhestro: “Só que é contra a CPMF é quem adoraria de continuar sonegando imposto”. Os ataques de Lula são quase diários. Quarta-feira o presidente bateu duro ao dizer que a oposição não aprova a prorrogação porque ela, na verdade (segundo ele) beneficia o pobres e não as elites. Faltou dizer que sem os 40 bilhões de reais desse imposto o Brasil cairá para a segunda divisão, como o Corinthians, e a culpa não será dele. Qualquer coisa não soaria mais falso. Não é a opinião pública que vai votar a CPMF. Esta, em grande parte, realmente ainda chora o insucesso do Corinthians. São cerca de 30 milhões de torcedores do alvinegro do Parque São Jorge.

O trágico é que os torcedores se mobilizam, torcem, choram, rasgam a camisa e brigam pelo time do coração. Infelizmente não fazem o mesmo para que o país não tenha o mesmo destino corinthiano. O aprendizado escolar das crianças brasileiras não caiu para a segunda-divisão... Nunca saiu da última, em conhecimentos de matemática, ciências e leitura. Só ganhamos do Quirquistão. Ninguém sequer sabe onde fica esse país. Também é culpa do ensino. Nós, assim como esse time de medíocres, somos apensas a conseqüência de má administração.

Está na hora de chorar de raiva diante do noticiário que mostra, diariamente, as mazelas sociais. Bom seria se cada um de nós sentisse um nó na garganta ao saber dos resultados das provas de avaliação de nosso ensino público (o privado também não é muito melhor). Se soubessem quantas crianças concluem o ensino médio sem ao menos saberem ler e escrever...

Poucos se emocionam com a maneira como os seres humanos são tratados nos hospitais do SUS. Com a violência nas ruas; com as estradas esburacadas que a cada dia matam mais. Tantos recursos arrecadados, tantos impostos, para nada.

É melhor parar por aqui e não perder as esperanças. O Corinthians vai, mas volta. Quem sabe um dia o Brasil, numa grande “metamorfose” se transforme numa nação onde o único motivo para chorar será a derrota de nosso time do coração.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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