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Entrevista da semana: Lélia, a defensora do meio ambiente

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 9 min

Ela enfrentou, por sonho e paixão, ambientes insalubres e essencialmentes masculinos, ameaças de morte e muitos mosquitos. Lélia Lourenço Pinto tem o estigma da braveza, mas apesar do pulso firme, a analista ambiental chefe do escritório regional do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) de Bauru é, na verdade, um doce de pessoa.

No currículo, pesquisas e trabalhos importantes na área ambiental como o levantamento da produção pesqueira das bacias hidrográficas da região e estudos sobre espécies invasoras, tido como referência nacional. A fazer, ainda, muito pela preservação da fauna e flora de Bauru e região. A idealista Lélia torce para que o escritório do Ibama se mantenha e que ela possa participar, assim, da criação de corredores de fauna. “Eu encaro o que faço como uma missão, tenho paixão pelo meu trabalho”, diz.

Ligada à família, amante da leitura e do cinema, como na música preferida, segue devagar porque já teve a pressa de São Paulo nas veias e conhece as manhãs em cavalgadas no Interior. Venha para o cotidiano dessa mulher que, como um “karma”, carrega o nome de uma série de orquídeas ameaçadas de extinção, escolhido pela mãe professora de línguas neo-latinas.

Jornal da Cidade – Como foi que o Ibama entrou na sua vida? Você chegou a trabalhar em outros órgão ambientais antes?

Lélia Lourenço Pinto – Eu pertencia a um dos órgão que virou Ibama, a Sudepe (Superintendência do Desenvolvimento da Pesca), hoje extinto. Trabalhei em Iguape, no litoral sul de São Paulo, a partir de 1983. Era recém-formada e encarei um trabalho que ninguém queria. Eu fazia estágio na Sudepe e ofereceram a vaga. Lá fiquei três meses e, nesse tempo, socorri flagelados. Foi uma catástrofe, talvez a maior chuva que aconteceu em Iguape A cidade ficou ilhada e nós, que fazíamos parte de um órgão público, fomos responsáveis por abrigar a população em escolas e oferecer alimentos. Depois desses três meses abriram as vagas de Barra Bonita e Presidente Epitácio e eu escolhi a Barra. Lá fiquei nove anos na Sudepe que, depois, em 1989, se transformou em Ibama. Foi uma grande mudança porque as competências passaram da pesca e da piscicultura ao meio ambiente como um todo. Para Bauru eu vim em 1991, quando a unidade da Barra foi extinta. Foi em 1º de fevereiro debaixo da maior chuva.

JC - Você é de onde, Lélia? É bióloga?

Lélia - Sou de São Paulo, Capital. Paulistana, mas do Interior de coração. Estudei na Esalq (Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo (USP)), em Piracicaba, engenharia agronômica.

JC - E como surgiu essa paixão pela terra? De onde vem esse pezinho no campo?

Lélia - Sou nascida e criada no bairro do Campo Belo/Aeroporto em São Paulo, mas minhas raízes são do Interior. Minha mãe é de Matão e meu pai, de Brotas. Ele sempre foi muito ligado à terra. Meu pai trabalhou por muitos anos na Light/ Eletropaulo (companhia de energia elétrica da Capital). Começou a ficar um pouco “doente” na metrópole e enfiou na cabeça que precisava comprar um sítio. Eu tinha 12 anos, mais ou menos, e era a companhia dele. Vinha com meu pai para o Interior, dormia dentro do carro, tomava banho em rio. Na verdade, comecei a gostar, montava no cavalo pela manhã e só parava de cavalgar à noitinha. Todo esse fundão de Pederneiras eu conheço a cavalo, passava aqui as férias inteiras sem ir à cidade. Nunca tive muita afinidade com São Paulo, por isso decidi vim para o Interior. Ainda temos o sítio, meu pai está com 81anos e ainda cuida de tudo.

JC - Como é possível ser vaidosa em uma profissão que exige longos trabalhos de campo e “pouco luxo”?

Lélia - Eu sempre dava um jeitinho de me arrumar. É difícil, porque muitas vezes ficávamos alojados em casas de pescadores, escolas, muitas vezes passávamos noites inteiras no entreposto de pesca em Santos para ver a conservação do pescado e disseminar informação entre os pescadores. Nessas oportunidades as mulheres eram poucas. Sempre foi um ambiente essencialmente masculino, mas havia muito respeito, amizade. Era tranqüilo, por uma questão de confiança. Você acaba criando vínculos muito próximos com as pessoas que estão trabalhando ou são assistidas pelos programas de extensão agrícola e educação ambiental.

JC - Você é casada? Como conciliar o trabalho no Ibama e a vida familiar?

Lélia - Sou casada há 22 anos com o Beto (José Roberto Gerin), mas não temos filhos por opção. Eu adoro crianças, mas acredito que educar os filhos requer muita atenção e presença. É complicado para mim porque, dependendo da época, eu viajo muito. O Beto acostumou com a minha vida, mas não gosta. É difícil, então minha mãe dá uma força, um colo para ele.

JC - Como foi essa mudança do trato com os rios e a pesca para o trabalho com o meio ambiente de uma forma geral?

Lélia - Não foi fácil. Fiquei quase dez anos só trabalhando com águas continentais e, de repente, precisei assimilar toda a legislação e procedimentos do ponto de vista florestal e da fauna. Eu não tinha experiência e precisava dar respostas rápidas, foi complicado. E essa mudança toda veio com a transferência para Bauru, minha vida virou de cabeça para baixo. Nós todos do Ibama de Bauru aprendemos com a equipe do Zoológico e colegas do IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal). A fauna e a mineração talvez sejam as duas áreas mais difíceis de fiscalizar e gerir.

JC - Você já chegou a receber propostas de suborno ou ameaças?

Lélia - Já, me ofereceram até apartamento! As pessoas tentam agilizar as coisas, mas não dá. É uma questão ética, eu agradeço, mas nunca aceito. É uma característica da minha personalidade, não gosto de troca de favores, corrupção. Hoje, a maior parte das pessoas nem me faz esse tipo de proposta. Quanto às ameaças, já sofri muitas por conta da fiscalização de fauna. Eu viajava muito sozinha antigamente, hoje me preocupo com isso. Pessoas me ligavam e diziam: “sabemos os caminhos que você faz, sabemos que você vai sozinha e sabe o que vamos fazer com você?”. Aconteceu muito, precisei colocar binas no Ibama, na minha casa. A época que mais sofri foi a de um mapeamento do tráfico de animais porque você fere os interesses das pessoas, especialmente financeiros.

JC - Você leva a preocupação ambiental para outras áreas da sua vida, como o lazer?

Lélia - Vou sempre de férias para Ubatuba, gosto de caminhar, fazer trilhas, conhecer as populações nativas. Mesmo de férias - e o Beto até briga comigo - se vejo algo errado, como animais silvestres sendo vendidos nas estradas ou pontos de desmatamento, eu denuncio, vou para a delegacia. Fico desesperada, carrego essa preocupação comigo.

JC - Como você vê essa divisão do Ibama que aconteceu no ano passado?

Lélia - Me preocupa essa divisão porque a característica do escritório de Bauru, por ter ficado tanto tempo com poucos fiscais, se volta à conservação de ambientes, além de carregarmos a responsabilidade por trabalhos que são referências nacionais. O que me aflige é a possibilidade dessas competências passarem ao Instituto Chico Mendes e não continuarem sendo seguidas. Por exemplo, em Bauru, a partir da Secretaria de Meio Ambiente, houve um mapeamento das área prioritárias para conservação que abrigam exemplares de fauna e flora nativas e em extinção. Esse trabalho também é levado adiante pelo Instituto Vidágua, mas me preocupo com os remanescentes florestais da região que são identificados, mas requerem cuidados para que haja uma conectividade entre essas áreas, como os corredores de fauna. Não adianta você ter remanescentes isolados porque, com o tempo, há a degeneração genética dos animais. Antes dessa secção, o Ibama em Bauru havia sido fechado, isso em 2000. Na verdade, até hoje não temos uma definição de quais serão os escritórios que permanecerão de portas abertas e quais vão ser fechados. É uma situação difícil, é que a “coisa” sossegou um pouco atualmente. Dizem que Bauru não fecha, mas enquanto não for publicado, não há segurança.

JC - Sobre idealismos, como você vê a forma que o governo vem encarando a preservação ambiental e essa reestruturação dos órgãos?

Lélia - Com muita preocupação, apesar de ser otimista. Eu sou ansiosa e os processos demoram a ser definidos e, enquanto isso não acontece, as mãos ficam atadas para diversos trabalhos. Aqui, no Estado de São Paulo, a Polícia Ambiental, a Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) e o DEPRN (Departamento Estadual de Proteção dos Recursos Naturais) vêm fazendo todo o trabalho necessário, mas há uma reestruturação grande além do Ibama, são mudanças legais e de descentralização das gestões, como da fauna.

JC - E de maneira mais geral, qual a sua opinião sobre esse grande movimento para o cuidado com o ambiente? Isso é bom, exagerado...

Lélia - Eu acho bom, mesmo que possa ser exagerado, às vezes. Sabemos, por exemplo, que há crianças com medo do futuro. Essa busca pela preservação é vendida para os pequenos, pela mídia e escolas, de uma forma apocalíptica, o que pode ser preocupante. Mas em relação aos adultos, não é exagerado. Eu aposto na nova geração porque é difícil mudar costumes que em muitos casos é cultural. Por exemplo, as pessoas no Brasil acham normal ter animais silvestres em casa. Também acho que essa coisa do aquecimento global ser divulgado incessantemente pela mídia é boa porque é preciso assustar para mudar paradigmas. Veja a questão das sacolas plásticas de supermercado. Pô vai dar uma volta num aterro sanitário, aquilo é uma aula sobre descarte. Tudo o que for falado e feito para conscientizar, é válido. Há muito a ser feito no quesito “cada um faça a sua parte”. Hoje, se você vê alguém jogando um papel no chão ou usando a “vassoura hidráulica” para lavar a calçada e vai conversar, é agredido. Estamos longe de uma consciência ecológica plena.

JC - Dá para contar algum fato curioso ou situação difícil desses tantos anos de profissão?

Lélia - Uma coisa que me marcou muito foi uma autuação em que eu encontrei, no forro de uma casa de pessoas de idade em São Manuel, cerca de 600 aves, em 2000. A denúncia era tão firme que chegamos na casa de classe média com um mandado de busca e passamos a procurar. Não havíamos achado nada e, ao voltar para o carro da Polícia Ambiental, encontramos um bilhete: “Procuraram no forro?”. Eu voltei babando!! Encontrei uma escada e eu mesma subi até o forro movida por minha ansiedade peculiar. Nós conseguimos transferir os animais para o zoológico e de lá para a região de Castro, no Paraná, onde as aves haviam sido caçadas.

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Perfil

Nome - Lélia Lourenço Pinto

Nascimento - 31/ 07/ 1961 em São Paulo

Time do coração - Corinthians

Música - MPB e rock, em especial “Tocando em frente” de Almir Sater e Renato Teixeira.

Livro - A Bíblia e “A fazenda africana”, de Karen Blixen

Filme - “Out of Africa”, de Sidney Pollack

Nota 10 - Para meus pais Eduardo Lourenço Pinto e Onélia Ângela Bottura Lourenço Pinto.

Nota zero - Para aqueles que disseminam a violência.

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