Geral

Cadeirante se arrisca para reforçar a aposentadoria

Gabriel Ottoboni
| Tempo de leitura: 4 min

Se você é uma pessoa que nunca está satisfeita e sempre reclama da vida, leia com atenção a história a seguir. O personagem principal se chama Luís Antônio Barreto, 29 anos, e o cenário é o cruzamento das avenidas Nações Unidas com a Rodrigues Alves, um dos mais movimentados de Bauru. É lá que Barreto exerce sua “profissão” de vendedor de goma para reforçar a aposentadoria por invalidez e sustentar a família, composta por cinco filhos e a esposa, atualmente grávida de gêmeos.

Tudo isso seria normal se não fosse pelo fato de sua principal companheira ser uma cadeira de rodas. Há um ano, é nela que ele se locomove para vender guloseimas no cruzamento das avenidas e aumentar a renda familiar, atualmente em um salário mínimo (R$ 380,00) da aposentadoria após ter perdido as pernas num acidente com trem em Bauru.

Vendedor de bacias na época, o carrinho que transportava os produtos enroscou na linha férrea, fazendo com que ele se desesperasse ao ouvir barulho da locomotiva. Ficou com o pé preso e caiu. Por causa do acidente, suas duas pernas foram amputadas.

O dia-a-dia de Barreto não é fácil. Há sete meses, das 9h às 18h, ele arrisca sua vida oferecendo balas, gomas e chicletes a R$ 1,00 aos motoristas que esperam a luz verde do semáforo. Nem todos compram seus doces. São as colaborações dos motoristas, geralmente em, que ajudam o cadeirante a completar sua renda mensal.

Tudo o que consegue em um dia de trabalho é dividido com a cunhada, que o auxilia no transporte de ônibus de sua casa até o Centro da cidade e de volta ao Jardim Eldorado 2, onde mora com a família. “Ninguém desfaz de mim. Alguns (motoristas) dão R$ 0,10, outros R$ 0,20 e aí vou juntando um dinheiro”. Não há um valor fixo de arrecadação mensal. Em dias de alta produtividade, chega a ganhar R$ 40,00.

Se já sofreu acidentes no meio de tantos carros? Sim, o mais recente na semana passada. “Uma caminhonete me atropelou e o motorista não me ajudou a pagar minha cadeira”, diz, mostrando as marcas do acidente em seu cotovelo. “Mas aqui é o único meio que encontrei para ganhar a vida”, justifica.

Para adquirir outra cadeira, contou com a sorte. “Bati na casa errada e uma mulher disse que tinha uma cadeira e me deu”. Enquanto atendia a reportagem ontem à tarde debaixo de sol, ele se emocionou. “Não deixo faltar nada para meus filhos”, orgulha-se. E a vida de Barreto segue. “Vai uma chiclete aí?”

De acordo com a diretora do Departamento de Proteção Social Especial da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), Maria Cristina de Souza, apesar do risco não há como impedir Barreto de transitar em via pública, mesmo em uma cadeira de rodas, interferiria diretamente no direito de ir e vir do cidadão. “É diferente de uma criança, onde temos a ação do Conselho Tutelar”, explica.

Ela garantiu que uma equipe do órgão irá até o local hoje onde técnicos farão levantamento das condições de Barreto para analisar o que a entidade pode oferecer. “Vamos analisar o caso e ver o que podemos oferecer no sentido dele aumentar a renda, através de cursos profissionalizantes, por exemplo, ou até mesmo verificar se ele recebe o Bolsa-Família”.

____________________

Preocupação

A situação de Luís Antônio Barreto, no entanto, preocupa o bacharel em direito Renato Fernandes Mauad, que transita diariamente pelo cruzamento da Nações Unidas com a Rodrigues Alves. Ele explica que o cadeirante não possui a mesma agilidade dos panfleteiros para andar entre os carros no semáforo.

“Na terça-feira passada, estava na Nações sentido bairro-Centro quando esse cadeirante estava no meio dos veículos tentando arrecadar uns trocados. Mas o semáforo abriu e o fluxo de veículos começou a andar. Foi um desespero do cadeirante, pois do lado esquerdo estava o fluxo contínuo dos veículos, do lado direito um ônibus, e o cadeirante não tinha para onde ir”, relata Mauad.

Ele conta que precisou parar o carro, esperar que o cadeirante voltasse para o meio-fio para seguir seu caminho. Mauad conta que entrou em contato com a Secretaria do Bem Estar Social (Sebes) para relatar o risco que o cadeirante corre.

“E se eu o atropelo? Serei processado por homicídio, tentativa de homicídio ou lesão corporal. Ou irei responsabilizar a prefeitura e a polícia?”, indaga.

Comentários

Comentários