Cultura

Performer Val Rai morre aos 52 anos

Diego Molina e Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 3 min

A comunidade artística de Bauru perdeu um de seus nomes mais respeitados e polêmicos: o ator, performer e diretor Valdir Aparecido Raimundo, mais conhecido como Val Rai. Ele faleceu ontem, aos 52 anos, vítima de complicações de uma pneumonia, depois de sete dias internado no hospital Manoel de Abreu. Seu corpo será sepultado no Cemitério do Redentor na manhã de hoje, às 9h.

Um dos últimos trabalhos de Val Rai foi o espetáculo “Lá Vem o Trem da Terezinha, o Trem que Parado Causa Dor”, apresentado em agosto do ano passado. Na performance de butoh – arte de grande improvisação que mistura elementos do teatro tradicional japonês com mímica e dança -, ele respondia a seus próprios sentimentos ao lembrar da morte de sua irmã, Terezinha, aos 3 anos, em um acidente de trem.

Foi justamente em razão do butoh que Val Rai foi alvo de polêmica no início do ano passado. Durante uma sessão na Câmara Municipal, em que artistas discutiam o Programa Municipal de Estímulo à Cultura, Val Rai iniciou uma performance no plenário, como manifestação. Na ocasião, o vereador João Parreira demonstrou seu “conhecimento artístico” ao afirmar que via “um cidadão deitado e babando ali na galeria e, para mim, é um verdadeiro desrespeito com essa Casa”.

Em artigo publicado pelo JC dias depois do ocorrido, Val Rai explicou os motivos de ter “se atirado” em performance em frente e dentro da Câmara Municipal. “Dancei butoh e vou continuar dançando butoh todas as vezes que causas que me afligem e atingem a minha categoria vierem à tona no plenário da Câmara. Todas as vezes que causas tocarem em meu coração com justificativas racionais e coerentes. É meu mundo, senhor leitor, minha vida. Tenho fé de que as coisas vão melhorar, mas acredito também que temos que arregaçar as mangas e continuar na trajetória”, afirmou.

“Dancei butoh porque quero solução por parte de nossos representantes no Legislativo. Quero o apoio deles para com nossa causa e nossa categoria. Nos anos 70, dei apoio à regulamentação de minha categoria e dancei; nos anos 80, dei apoio na criação de centros culturais e dancei novamente; nos anos 90, apoiei a criação de mais leis de incentivo e dancei; e continuo hoje no aqui e agora, nos anos 2000, dançando por causas que julgo necessárias ao espírito humano. Essa espécie em extinção”, seguiu o artista, em seu texto.

Filho de uma família bauruense, Val Rai mudou-se para a Capital paulista no final da adolescência para estudar teatro. No início da década de 1980, ele participou de um dos primeiros núcleos do Centro de Pesquisa Teatral (CPT), com o diretor Antunes Filho. Nessa época, o grupo todo nutria paixão pelo butoh e Val Rai percebeu que conhecia intimamente alguns elementos dessa arte desde sua infância. “Com 13 anos, eu sabia os movimentos da dança do ventre. Sempre criei e analisei tudo com o corpo e com a alma. Mas, imagina o quanto fui ridicularizado pelos outros? É por isso que todo o trágico que coloco na minha dança não é tirado de fora, é de mim mesmo”, analisou, em entrevista ao JC Cultura no ano passado.

Em sua trajetória, ele estudou e trabalhou como ator e diretor, passou uma temporada na Europa e outro período no Japão, já na década de 1990, quando se aperfeiçoou com mestres do butoh. Val Rai atuava ativamente com a comunidade artística de Bauru e região desde seu retorno à cidade, no final da década de 1990.

Projeto

Val Rai morreu sem concluir seu último projeto, “Memórias do Subsolo”, de Dostoiévski. A verba para a adaptação, que estava sendo trabalhada pelo artista há três anos, foi aprovada no ano passado. Porém, o dinheiro ainda foi liberado.

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