Regional

Poluição da Capital chega a Bauru, mas não é a pior

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 4 min

A poluição da Capital, que tanto prejudica o dia-a-dia e a saúde do paulistano, também atormenta o Interior. Todos os dias, a poluição do ar de São Paulo “viaja” para dentro do Estado. E, durante as noites, ela se dirige para o litoral. No entanto, especialistas avaliam que, ao atingir Bauru, os poluentes já estão diluídos e, por isso, não causam grandes problemas à saúde. O bauruense sofre mesmo com as partículas da palha de cana queimada, de mato dos terrenos baldios e as emitidas pelos escapamentos dos veículos.

De acordo com o pesquisador Saulo Freitas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a poluição segue a movimentação da brisa marítima. Durante o dia, a temperatura do solo é mais elevada que a da superfície do mar. “Isso gera pressão, que sopra o ar do oceano para o continente. Assim, tem o carregamento desta mancha de poluição da Capital para o Interior”, explica. À noite, o movimento é inverso. “A placa terrestre esfria mais rapidamente que o oceano, e acontece o contrário”, observa o pesquisador.

Por isso, durante o dia, o ar carregado de partículas e gases poluentes das indústrias e dos seis milhões de veículos da Capital é deslocado pela corrente que sopra do oceano em direção ao continente, pelo corredor formado pelo vale do rio Tietê.

Porém, o pesquisador ressalta que essa poluição do ar chega “diluída” a Bauru. “Quando o material sai da indústria para a atmosfera, ele começa a se diluir. A atmosfera é turbulenta e esse movimento vai misturando os poluentes no ar”, explica Freitas. As condições climáticas do Interior também contribuem para amenizar ou agravar os efeitos da poluição metropolitana. De acordo com o pesquisador, céu claro, sem nuvens, vento em descendência e o inverno podem potencializar o efeito nocivo.

Mas em locais distantes como Bauru, que está a 283 quilômetros da Capital, em linha reta, o que pode acontecer é a formação de ozônio, que em baixas altitudes é prejudicial à saúde. “Na atmosfera, o ozônio forma uma proteção à radiação. Se respirado, é tóxico”, explica Freitas.

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Água e ar

Não é só a poluição do ar emitida pelas indústrias da região metropolitana que atinge Bauru. A região também sofre com a presença de metais pesados no rio Tietê. Para o pesquisador Saulo Freitas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a poluição da água é mais severa, pois não há uma dispersão tão grande quanto à poluição atmosférica.

“No leito do rio, não tem como o material poluente se dispersar tanto quanto na vastidão atmosférica”, avalia.

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Queimada é o maior mal

De acordo com o secretário municipal do Meio Ambiente, Rodrigo Agostinho, o que polui o ar de Bauru são outras fontes, não as indústrias e carros da Capital. Há dez anos ele coordenou o estudo “Respira Bauru”, que avaliou a qualidade do ar respirado pelo bauruense.

“A alta incidência de doenças respiratórias em Bauru é causada principalmente pela baixa umidade no inverno. A queimada em terrenos urbanos e a fuligem provocada pela queima da palha da cana-de-açúcar são os principais poluentes verificados nas regiões periféricas da cidade. Já no Centro, é a emissão de gases de veículos”, pontua Agostinho.

Há 13 anos morando num apartamento no cruzamento da avenida Rodrigues Alves com a rua Antônio Alves, Flávio Reis conta que não vence limpar a residência. “Se você andar descalço, pode ficar com a sola do pé preta”, diz. No local, fica um dos pontos de ônibus mais movimentados do Centro e a fumaça invade seu apartamento, que fica no segundo andar do prédio. “Bem na altura das chaminés”, como define.

Por conta da poluição, estender lençóis para secar no apartamento, nem pensar. Reis explica que as peças ficam sujas pela fumaça. Além da poluição do ar, ele também sofre com o barulho, já que a movimentação dos ônibus é constante. Porém, Reis garante que nem ele nem a esposa possuem problemas respiratórios. “Acho que a gente se acostumou com a poeira e também com o barulho”, diz.

Agostinho explica que a frota que circula pela área central é grande. “E cada veículo é uma fogueira. Está queimando combustível ali”, explica. O secretário observa que o aumento de motocicletas circulando por Bauru só agrava o problema. “Muitas ainda não possuem partidas elétricas e as motos não fazem parte do programa de controle de emissão de poluição. Os carros, por exemplo, há alguns anos já vêm com catalisador de fábrica”, observa.

Sobre a movimentação de poluentes da Capital, o secretário avalia que o vale do rio Tietê serve como um canal para que o ar poluído se desloque da Capital em direção ao Interior. Mas ele avalia que a poluição da região metropolitana é composta principalmente por gases que rapidamente reagem com a atmosfera, por isso, a mancha não chega tão concentrada a Bauru.

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Concentração

O Inpe monitora diariamente o deslocamento do ar no Estado de São Paulo desde 2003. De acordo com Saulo Freitas, desde então houve uma piora em 50% das condições na região metropolitana. O instituto verifica a saturação de monóxido de carbono na atmosfera.

Pelas aferições feitas pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), o ar considerado limpo apresenta no máximo 100 partes por bilhão da substância. Em alguns locais da Capital, chega-se a registrar concentração de 3 mil partes por bilhão de monóxido de carbono.

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