Esportes

Homenagem: Goleiros contam suas histórias e curiosidades

Rodrigo Allegro
| Tempo de leitura: 7 min

Pelo menos uma vez no ano ele merece uma homenagem. Hoje, 26 de abril, é o Dia do Goleiro. Amado ou odiado, o camisa 1 é considerado por muitos uma persona “non grata” dentro das quatro linhas, pois evita o que todo mundo quer ver: o gol. Geralmente é lembrado quando falha, além de ter alguns ditados que o acompanham ao longo do tempo. “No lugar onde ele fica não nasce grama”. “Se goleiro fosse bom, jogaria na linha.”

O Brasil, ao longo do tempo teve grandes goleiros: Barbosa, Gilmar, Leão, Carlos, Zetti, Marcos, Rogério Ceni e Dida. Porém, o goleiro brasileiro tinha reconhecimento apenas em solo tupiniquim. Esse rótulo foi quebrado por Cláudio Taffarel, quando foi atuar no Parma anos depois. Dida e Júlio César, atuando no Milan e Inter respectivamente, ajudaram a consolidar a força do goleiro nacional no cenário internacional.

Outro grande mérito conquistado pelo goleiro brasileiro veio através de Rogério Ceni. O goleiro-artilheiro, que se tornou o arqueiro com mais gols marcados na história, movimentou o cenário recente e ainda, de quebra, deixou o arrogante Chilavert para trás no quesito gols marcados.

No exterior, grandes goleiros também marcaram história tanto pelo lado positivo como pelo negativo. Quem não se lembra do russo Yashin, conhecido pelo apelido “Aranha Negra” em razão de sua elasticidade embaixo das traves. E no italiano Dino Zoff, responsável por evitar um gol do zagueiro Oscar no fatídico jogo entre Brasil e Itália, na Copa da Espanha, em 82.

Teve também o colombiano Rene Higuita, que registra dois lances marcantes na carreira. O primeiro, quando quis driblar o camaronês Roger Milla, acabou se enrolando com a bola e viu sua seleção ser eliminada da Copa de 90, na Itália. Porém, o goleiro foi protagonista de um dos lances mais clássicos. Em pleno Estádio de Wembley, Higuita teve sangue frio para tirar a bola com a parte de trás da perna.

Porém, nem tudo são flores. Injustiças também fazem parte da vida do goleiro brasileiro. Será que alguém se lembra de alguma defesa do Barbosa? Dificilmente, mas o gol fatal, sofrido na final da Copa de 50 para o Uruguai, todos lembram. Barbosa ainda foi autor da célebre frase: “No Brasil a pena máxima é de 30 anos, mas já carrego a minha há muito mais de 30.”

Alvirrubros

Histórias à parte, e remetendo para o Noroeste, também conhecido por ao longo dos anos contar com grandes goleiros, entre eles João Marcos, Navarro, Sílvio Luís, Everton, Maurício e Mauro, atualmente conta com outro excelente goleiro. Indicado por diversas vezes na seleção da rodada do Paulistão, Fabiano se tornou ídolo da torcida noroestina após salvar, literalmente, a equipe de derrotas em várias ocasiões.

A relação do goleiro do Norusca com o gol vem de longe. “Minha mãe conta que quando eu tinha três anos ficava pedindo para ela chutar a bola para poder defender. Não tem jeito, só pode estar no sangue a vontade de querer se tornar goleiro”, relembra Fabiano, que disse que atua no gol desde os oito anos - hoje ele tem 30.

“Nunca pretendi jogar em nenhuma outra posição e, graças a Deus, dei seqüência à minha carreira e estou há dez anos atuando como goleiro profissional”, revela.

Já o companheiro de Fabiano e grande amigo, o goleiro noroestino Fernando Vizzoto, também, como muitos, assume o seu lado perna-de-pau como grande motivo para começar a jogar no gol. “Era ruim mesmo na linha e o pessoal acabava me colocando para jogar na linha”, explica o goleiro, que começou a defender as primeiras bola em Sorriso, no Mato Grosso do Sul, sua terra natal.

Com passagens pelo extinto Lousano/Paulista, Vizzoto teve como principal influência o goleiro Zetti, do Palmeiras, São Paulo, Santos e seleção brasileira. “O Zetti era o grande goleiro da época que estava começando a jogar no profissional. O Taffarel também marcou muito, principalmente pelas suas atuações pela Seleção.”

Vizzoto também tem passagens curiosas na carreira. “Tinha uns 12 anos e atuava no futebol de salão. O cara chutou uma bola do meio da quadra e, quando fui encaixar a bola, caí para trás e a bola escapou da minha mão e quase entrou. Foi uma vergonha, já que era jogo decisivo e a quadra estava lotada. Mas a vida de goleiro é assim mesmo, você passa por muitos momentos difíceis, mas tem de ter personalidade e superar tudo isso”, complementa o goleiro, que afirma nunca ter tido qualquer tipo de pedido ou suborno para tomar um gol. “Jamais. O cara teria de ser muito corajoso para me fazer um convite deste”, conclui.

____________________

Arqueiros do Amador

Dinheiro, viagens, carros e tudo que os grandes goleiros adquirem ao longo da carreira como profissionais. No futebol amador de Bauru, a realidade é bem diferente. Mesmo sendo referência de seus respectivos times, dois goleiros de equipes do Campeonato da Liga Bauruense de Futebol Amador (LBFA), Milan e Expressinho, literalmente precisam suar a camisa durante a semana e defender com unhas e dentes seus empregos, já que não ganham dinheiro algum atuando na posição.

Roberval Garcia, 35 anos, mais conhecido como Val e há 15 anos como goleiro no amador bauruense, revela que teve chance de se tornar um goleiro profissional, porém a juventude atrapalhou o sonho de se profissionalizar. “Fiz testes no Araxá, de Minas Gerais, e passei. Porém, era muito jovem e não tive cabeça para suportar a dura rotina e acabei largando o time”, conta Val, que, assim como seu grande ídolo Rogério Ceni, também bate pênaltis. “No Expressinho, sou o batedor oficial do time. Ao longo da minha carreira, já marquei oito gols”, conta.

Val, que trabalha como representante de uma empresa, revela que não ganha nada para defender os times do amador. “Somente os jogadores com maior destaque ganham certo dinheiro. Como a maioria, recebo material esportivo e uma ajuda com o combustível nos dias dos jogos.”

Numa de suas histórias pela mundo da bola bauruense, Val relembra uma. “Em 2007, quando defendia o Milan, um jogador chutou a bola para cima e o sol me atrapalhou. A bola escapou das minhas mãos, passou pelo meio da perna e entrou no gol. Estávamos ganhado o jogo de 1 a 0 e acabei sendo o responsável pelo empate do adversário”, revela.

Já seu companheiro de Liga Bauruense, e que hoje ocupa o lugar de Val no gol do Milan, Elizier Pereira, de 26 anos, é um dos únicos goleiros que foi para o gol de forma forçada. “Atuava como lateral-direito e jogava bem. Mas machuquei o joelho e parei de atuar na linha. Mesmo com uma perna engessada, estava assistindo um jogo na quadra da minha Vila e fui chamado para atuar no gol. Mesmo sem mexer muito, acabei defendendo bolas decisivas e acabei gostando da idéia”, conta o goleiro, que a exemplo de Val, também trabalha durante a semana numa indústria de Bauru.

Corintiano de coração, Elizier, que teve no Ferradura Mirim seu primeiro time, foi protagonista de duas histórias como goleiro que beiram o surreal. “Era um amistoso entre o Ferradura e o Ouro Verde. Após a cobrança de escanteio, a bola saiu e fui cobrar o tiro de meta. Só que no lance anterior, minha chuteira havia saído do meu pé e eu, na correria para repor a bola, coloquei a chuteira ao invés da bola para bater o tiro de meta. Meus companheiros de defesa gritaram e consegui evitar esse vexame. Num outro episódio, não tive tanta culpa. Numa decisão de pênaltis, entre o Ferradura e o Jardim Europa, defendi três pênaltis, mas o impossível aconteceu e os jogadores do meu time erraram as quatro cobranças e acabamos sendo eliminados”, recorda.

Val e Elizier têm em comum o fato de nunca terem apanhado dos torcedores. “Graças a Deus, nunca precisei sair de camburão ou fui alvo da raiva dos torcedores. A vida de goleiro já e dura e ainda ter de passar por situações como esta seria o fim”, brinca Elizier.

Comentários

Comentários