De tempos em tempos, crimes envolvendo crianças deixam a sociedade chocada e causam uma intensa comoção popular. O mais recente aconteceu em 29 de março último com a morte da menina Isabella Nardoni, 5 anos. Desde então, é quase impossível ligar a TV, o rádio, acessar a Internet ou abrir o jornal sem ser atingido por uma avalanche de informações sobre o caso. Na próxima terça-feira, faz um mês que a garota morreu, após cair do sexto andar de um edifício em São Paulo.
O acontecimento ganhou contornos novelescos e agora todo mundo quer saber: quem matou a menina e por quê? Quem a atirou pela janela? Ela foi espancada ou asfixiada antes de morrer?
Detalhes da autópsia e depoimentos dos envolvidos batem recordes de audiência. Multidões fazem plantão em frente à delegacia e no prédio onde estão os acusados para, supostamente, protestar. Muitos chegam de outras cidades e Estados movidos pela curiosidade ou desejo de justiça. Outros faltam ao emprego para demonstrar sua revolta ou simplesmente ficar observando a movimentação em frente ao prédio.
Mas, afinal, por que as tragédias atraem tanto a atenção da população? Para o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, 52 anos, historicamente, o ser humano sempre demonstrou mais interesse em ouvir histórias tristes do que alegres. A notícia sobre um assassinato dá mais audiência e leitura do que outra sobre nascimento.
Ele cita quando trabalhava em São Paulo e todo dia passava em frente a uma banca de jornais e revistas. Do lado de fora da banca, ficavam abertas as capas dos principais jornais do País. Ele lembra que a aglomeração sempre era maior ao redor do jornal “Notícias Populares”, famoso pelas matérias sensacionalistas e trágicas. “Vivemos em uma sociedade que exalta muito mais os obstáculos e o sofrimento. É da cultura cristã encarar o padecimento como forma de purificação”, sustenta Bertolli, que é professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Bauru.
Revolta
Na opinião do sociólogo Murilo Cesar Soares, também da Unesp, as agressões contra as crianças são, naturalmente, chocantes. Mas quando elas representam uma violação dos direitos civis, políticos ou sociais, o fato é encarado como uma ameaça a toda a sociedade.
De acordo com a psicóloga Vera da Rocha Resende, 59 anos, a violência contra a infância sempre existiu, mas ela ganha mais visibilidade quando envolve as classes sociais financeiramente mais favorecidas. “Supõe-se que, nessas camadas da sociedade, a criança está cercada de todos os cuidados e condições para se desenvolver como um ser humano digno e produtivo. Ninguém espera que isso aconteça em um ambiente assim. Por isso, desperta tanto interesse”, opina.
O fato desses crimes envolverem crianças também atrai a curiosidade e a revolta porque a sociedade acredita que os pequeninos precisam ser protegidos. E quando isso não acontece, alguém errou e precisa ser punido.
“O filho do homem é o mais frágil dos animais”, afirma Bertolli Filho. Segundo ele, o filhote de qualquer outra espécie normalmente sabe se defender em algumas situações, o que não ocorre com uma criança. “A política não mobiliza tanta gente, nem mesmo o futebol. Sabendo disso, os meios de comunicação se apoderam do assunto e o exploram até a exaustão. Isso mexe com a sensibilidade da população e provoca sentimentos extremados”, diz o antropólogo.
Segundo Vera, as crianças mexem com o que há de mais humano nas pessoas. E nada é mais humano do que criar, educar e proteger uma criança. “Se conquistamos algo na vida é porque fomos amparados na infância”, diz a psicóloga.
Na opinião dela, a comoção popular e o estardalhaço que os meios de comunicação fazem em torno disso, mostra que a vida humana virou um grande espetáculo. Com o tempo, as pessoas se cansam e esquecem, até aparecer o próximo.
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Caso põe em xeque figura do pai protetor
O recente assassinato da menina Isabella Nardoni, 5 anos, ganhou proporções gigantescas na sociedade e deixou pais preocupados. Como tratar o assunto quando questionados pelos filhos pequenos? O que falar para não deixá-los alarmados com a possibilidade de um pai ter matado a própria filha? Acostumadas com a figura do pai protetor, as crianças podem ficar assustadas diante de uma realidade tão cruel.
A recomendação do psicólogo Ulisses Herrera Chaves, terapeuta de famílias, é tocar no assunto apenas quando os filhos perguntarem e de forma bem simplificada. Segundo ele, por mais que os adultos tentem explicar, as crianças não possuem uma compreensão clara das coisas.
“Às vezes, os pais podem confundir mais do que explicar. Então, o ideal é simplificar ao máximo. É bom deixar que eles perguntem primeiro para depois responder”, orienta o psicólogo, que assumiu o papel de pai recentemente, com o nascimento do filho Guilhermo. No entanto, ele pondera que não existe resposta simples para algo tão complicado.
Especialista em terapia de casal, Ulisses conta que a violência familiar é muito mais comum do que se imagina. Segundo ele, mais de 90% das agressões e abusos cometidos contra as crianças começam dentro da própria casa. A também psicóloga Vera da Rocha Resende, diretora da Casa da Criança de Barueri, onde trabalha diretamente com crianças vítimas de agressão e maus-tratos, diz que a violência contra a infância sempre existiu e ela atinge tanto famílias pobres quanto ricas. Mas sempre ganha mais visibilidade quando envolve as classes média e alta.
De acordo com estatísticas da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), em 2000, o número de crianças mortas dentro de casa chegou a 135, enquanto o número de registros de violência nas famílias chegou a 4.330. Em 2001, foram 257 mortes e 6.675 registros de violência. Em 2002, 42 mortes e 5.721. Para 2003, último ano com dados disponíveis, os dados são 22 e 6.497.