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O que a morte de Isabella nos ensina


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Espelha as muitas faces da morte infanto-juvenil enquanto modalidade fatal de violência doméstica ou a violência familiar em seu grau máximo, decorrente de ações ou omissões que se, corretamente identificadas ou antecipadas, constituir-se- iam em outras tantas modalidades de violência doméstica contra crianças e adolescentes: física, sexual, psicológica e negligência. - uma cadeia interativa de violências domésticas, todas elas violentadoras do dever de proteção dos pais para com os filhos na infância e adolescência. Dever, cujas origens remontam a Mesopotâmia, mas que somente a partir do século XX é consagrado pela civilização ocidental - pelas Declarações da Criança (1923)/1959), pela Convenção dos Direitos da Criança (1989), pela Segunda Declaração do México sobre os Maus Tratos à Criança (1992) e, no caso específico do Brasil, pela Constituição Federal (1988) e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (1990). - Isabella é, na verdade, uma pequena vítima da violência maior: a violência da ignorância do que significa um ser em condição peculiar de desenvolvimento; ignorância fundamentada na falsa superioridade dos adultos sobre os mais jovens; ignorância que não é indicador de desamor e sim de um amor descuidado... - Isabella também chama a atenção para uma modalidade inadmissível do que é ser pai e ser mãe, embora perfeitamente compreensível se levarmos em consideração o que os pais conhecem, acreditam e valorizam sobre o que é ser criança e ser pai e ser mãe; da história pessoal de cada um deles e da vida familiar, enquanto tramas de amor e ódio, e vivências de inúmeros conflitos; do peso das normas, tradições culturais, histórica e socialmente construídas acerca da casa, da família e das práticas de educação familiar. - Isabella, deve ser considerada uma pequena vítima pequena, detentora de uma cidadania apequenada, cimentada na mentira ideológica do pequeno - inferior - Isabella, jovem vítima de um amor descuidado (e como tal não protetivo) dispensado pela família. Esperamos que também não seja vítima pequena de um amor desvalorizado pela sociedade, de mais um inquérito policial arquivado, que a balança da justiça penda contra os adultos. Que suas dores e o seu sangue derramado não seja merecedor de um amor também desvalorizado pelas instituições criminais, próprio para seres pequenos - sem proteção ampla em vida, sem justiça justa depois da morte! - Também nos faz refletir que a qualidade de vida de nossas crianças passa pelo conhecimento crítico de suas necessidades e de seus direitos, e também de como promovê-los e defendê-los da forma mais radical possível, para todos. Passa também pelo conhecimento crítico das violações e violências que cotidiamente ameaçam os jovens, inclusive dentro de suas próprias casas. - Conhecimentos que deve ser compartilhado por toda família. Os direitos das crianças e dos adolescentes só deixarão de ser letra fria de lei se a luta por prevenir as muitas violências, inclusive no âmbito doméstico, for um desafio permanentemente compartilhado por pais e filhos. - Desafio que exige mais que o mero senso comum - ingênio e ideológico: exige um saber crítico e competente que não se inventa, aprende-se. - Este parece ser o melhor requiem para a pequena Isabella: mostrar que não morreu em vão e que a vida que não viveu serviu para evitar outras muitas mortes desnecessárias, à medida que se impeça a (re) produção da trágica violência doméstica contra crianças e adolescentes. Talvez a forma mais digna de respeitar a memória de quem não teve direito ao respeito em vida, seja testemunhando com práticas e políticas públicas que não esqueçam de esquecê-las... Tristes lições de Vida e Morte Severina!

A autora, Rosângela Maria Lenharo, é assistente social, especialista em Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes e Gestão de Políticas Públicas e do Terceiro Setor

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