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Machismo afasta os homens do médico

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Ir à Unidade Básica de Saúde do Centro em um dia de semana qualquer é o mesmo que visitar o chamado “Clube da Luluzinha”. As mulheres predominam, estão por todo lado que se olha, seja para realizar um exame preventivo, seja para uma consulta de rotina. Homens, ao contrário, são figuras raras de se encontrar.

Na última terça-feira, meia dúzia - literalmente - de “gatos pingados” (ou escaldados) podiam ser vistos no local, boa parte deles acompanhados da mulher ou da mãe. Caso, por exemplo, do aposentado Édison Luiz Toledo, 79 anos, que, junto da esposa, Sagramor, 67 anos, aguardava para realizar uma consulta de rotina. “Sinto-me mais seguro tendo ela do meu lado”, disse ele, que foi chefe da seção de Bauru do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Toledo não é o único homem que recorre à companhia da mulher para ir ao médico. Pesquisa realizada entre 2006 e 2007, com 330 pacientes do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e de consultórios particulares, constatou que aproximadamente 50% dos homens que compareciam pela primeira vez na vida ao urologista precisaram ser convencidos por uma terceira pessoa, do contrário não teriam procurado o especialista.

Em 20% dos casos, a esposa teve papel preponderante no decisão da pessoa em procurar o profissional de saúde. “Em geral, elas são responsáveis, inclusive, pela marcação da consulta. Percebemos ainda que, na maioria das vezes em que o homem vai ao médico acompanhado da mulher, é ela quem descreve os sintomas para o médico”, afirma o urologista Ubirajara Ferreira, responsável pela pesquisa.

Toledo conhece bem essa situação. “Ela (Sagramor) costuma conversar mais com o médico do que eu”, garante o aposentado.

O quadro descrito pela pesquisa de Ferreira já era, de alguma forma, conhecido pelas autoridades de saúde há um certo tempo. “Embora não disponhamos de dados estatísticos, é possível afirmar que a cada dez mulheres que procuram serviços de saúde preventiva, encontraremos um homem que tome iniciativa semelhante”, arrisca Ricardo Cavalcanti, coordenador da área de saúde do homem do Ministério da Saúde.

“A grande pergunta que temos tentado responder aqui na coordenação é a seguinte: por que o homem se preocupa tão pouco com a própria saúde?”, diz Cavalcanti. Tentando solucionar a questão, ele arrisca: “Talvez, pelo fato de estar associada à figura da ‘mãe’, a mulher recebeu uma maior atenção por parte da sociedade, e o homem acabou sendo relegado a um segundo plano.”

O urologista bauruense Aguinaldo Nardi tem uma explicação diferente para o problema. “O homem é muito mais desleixado com relação à própria saúde do que a mulher, e isso não é algo atual, mas histórico”, acredita.

“O homem sempre teve uma postura mais reticente com relação aos cuidados com a própria saúde. A mulher, ao contrário, por ser mais organizada e não contar com espaço na sociedade, passou a se mobilizar para alcançar direitos que lhe eram negados, e isso inclui avanços nas políticas públicas de saúde”, salienta Nardi.

Para a historiadora e professora Lidia Maria Vianna Possas, dos cursos de ciências sociais e de relações internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília, a luta do movimento feminista realmente foi um fator que influenciou no surgimento das políticas públicas voltadas para a mulher.

“Foi graças ao movimento feminista, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, que questões como o uso de métodos contraceptivos e o planejamento familiar passaram ser tratadas com maior relevância pela sociedade”, afirma Possas.

Por outro lado, lembra ela, outros fatores ajudam a explicar o problema. “A ciência, como um todo, tem um caráter bastante antropecêntrico, ou seja, tem o homem como centro. Os homens, durante muito tempo, não aceitaram ter seus corpos vistos como objetos de pesquisa, pois acreditavam que isso representava o mesmo que expor ao mundo suas vulnerabilidades”, sustenta.

Ainda de acordo com Possas, “as ciências médicas ‘pouparam’ o corpo masculino, suas funções e deficiências de estudos mais aprofundados que viessem, inclusive, a rever certos estereótipos, como por exemplo, o da questão hormonal ser uma problema exclusivamente feminino. Hoje sabemos o quanto essa ‘verdade’ era falsa”.

Talvez pela situação de submissão em que se encontravam, as mulheres teriam se tornado “objetos” de pesquisa por excelência das ciências médicas. “Isso não deixou de representar um salto de qualidade na saúde das mulheres. Hoje, a longevidade feminina é um dado estatístico evidente”, lembra a historiadora.

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‘Quase não vou ao médico’

O motorista José Carlos Santos tem 60 anos e, como todo bom homem adulto, é avesso ao consultórios. “Quase não vou ao médico”, afirma. Ele é casado, mas não estava acompanhado da esposa à Unidade Básica de Saúde do Centro. “É que ela trabalha, senão teria vindo comigo”, garante.

Ver mulheres pajeadas por filhos ou maridos é uma cena para lá de rara nas clínicas e postos de saúde. Casos da vendedora Janice Almeida de Menezes, 41 anos. “Costumo vir sozinha ao médico. Nunca precisei que ninguém me acompanhasse”, afirma ela, que faz consultas de rotina a cada seis meses.

Divorciada, ela costumava acompanhar o marido ao médico quando estava casada. “Pelo menos meu filho já consegue ir sozinho ao médico”, afirma Janice, que é mãe de um rapaz de 26 anos.

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