Quando o contador e filho de japoneses Luiz Marono, hoje com 85 anos, passou no concorrido concurso público para uma vaga no Banco do Brasil (BB), ele tinha duas certezas. A primeira, que teria um futuro promissor pela frente. Afinal de contas, um emprego no principal banco brasileiro na época era o sonho de quase todo trabalhador. Além do bom salário, havia também a estabilidade. A segunda certeza era que a partir daquele momento ele poderia realizar um outro sonho, o de casar com a bela Reny de Almeida Barros, na época com 15 anos. Marono tinha 18.
No entanto, o filho do carpinteiro Toyti Maruno e de Emy Fusano não sabia que estava entrando para a história do Banco do Brasil como o primeiro descendente japonês a ingressar na instituição. Segundo o próprio Marono (por um erro de cartório, o sobrenome foi grafado diferente do pai), ele ficou sabendo desse fato por meio de uma matéria publicada no jornal “Bancorbrás”, de Brasília.
Na entrevista que concedeu ao Jornal da Cidade, Marono conta os momentos difíceis que passou no início da carreira de bancário, como quando teve de tomar banho em bacia na época que morou em Cáceres, no Mato Grosso - a cidade não tinha energia elétrica.
Quando conseguiu a transferência para uma agência em Bauru, a alegria foi tanta que a esposa Reny chorou. De volta à casa, Marono foi eleito presidente do Clube dos Bancários, posto que ocupou por 14 anos. Além dos carnavais memoráveis e dos bailes com gente famosa, como Os Incríveis, Francisco Petrônio, Cassino de Sevilha (orquestra espanhola) e muitos outros, outra grande realização, enquanto presidente, foi a construção da sede própria do clube.
Hoje, Marono tem problemas de audição, conseqüência direta dos 686 bailes que promoveu para os mais de 3 mil associados. Marono se aposentou em 1975, como chefe de seção do Banco do Brasil. Leia a seguir um pouco sobre a história desse descendente de japoneses em suas próprias palavras.
JC – O pai do senhor foi um dos primeiros imigrantes japoneses a desembarcar no Brasil. Quando, exatamente, ele chegou e o que veio fazer?
Marono – Ele desembarcou no Porto de Santos, em 25 de abril de 1910. Na chegada, um intérprete perguntou a ele o que pretendia fazer no Brasil. Meu pai disse que tinha vindo para trabalhar. Então, perguntaram o que ele sabia fazer. Ele falou que era marceneiro, entalhador (que faz desenho ou escreve em madeira) e carpinteiro. E que havia construído muitas casas de madeira no Japão. Então, o intérprete lhe aconselhou que viesse para Bauru para trabalhar na estrada de ferro Noroeste do Brasil (NOB), que estava em expansão e onde faltava marceneiro e carpinteiro. Foi assim que ele veio parar em Bauru.
JC – E como ele conheceu sua mãe?
Marono – Meu pai morava em um hotel no Centro da cidade, onde também fazia as refeições. E ele se apaixonou pela cozinheira japonesa, que foi minha mãe. Eles se casaram em 1921. Mas, antes disso, ele usou as economias que ele tinha e comprou um terreno grande que havia na rua Gerson França. Lá, ele construiu dez casas, sendo cinco de madeira e cinco de alvenaria. A idéia era alugar essas casas e com isso ter um rendimento mensal maior para poder enfrentar a vida de casado. Com isso, ele conseguiu formar os quatro filhos. Eu me formei contador, assim como os meus irmãos José e Togo. Já o caçula, Geraldo, formou-se em medicina. Ele é médico em Araçatuba.
JC – Então, o senhor é nascido em Bauru?
Marono – Não. Eu nasci em Avanhandava, perto de Lins. Meu pai foi incumbido de fazer um serviço na estação ferroviária de Avanhandava e minha mãe estava grávida de mim. Eles permaneceram lá uns quatro meses. Foi quando eu nasci, mas nem conheço a cidade, fui criado em Bauru.
JC – Os japoneses têm o costume de casarem-se entre si, mas o senhor não seguiu a regra. Como conheceu a esposa e o que os pais acharam da escolha de uma brasileira para se casar?
Marono – Eu me apaixonei em 1942. Era uma época que havia muito jogo do bicho e na esquina de casa (cruzamento da rua Monsenhor Claro com a avenida Rodrigues Alves) havia uma sala em que funcionava uma agência lotérica. Como eu tinha uma boa caligrafia, o dono da agência me pediu para ajudar a fazer os jogos nos horários de pico. Até hoje eu consigo falar em quatro segundos o nome de todos os 25 bichos que fazem parte do jogo. E todo dia eu saía da agência e ia tomar café perto da estação ferroviária. Minha esposa era prima do proprietário desse lugar. Quando eu vi a menina, eu fiquei louco. E ela olhava para mim também. Acho que ela se simpatizou comigo. Até porque eu não era assim tão feio. E nós começamos a namorar.
JC – Vocês tinham quantos anos naquela época?
Marono - Eu tinha 18 anos e ela, 15. Na ocasião, eu era um simples contador desempregado. Eu ficava pensando: ‘- Como faço para casar com essa menina?’. Sem emprego ia ser muito difícil. Então, me aconselharam a tentar entrar no Banco do Brasil que, na época, era o melhor emprego que existia, mas o concurso era muito difícil. Além do mais, para mim iria ser ainda mais difícil porque eu era descendente de japonês. Embora eu fosse brasileiro, meus pais eram japoneses. E o Brasil estava em guerra contra o Japão (na Segunda Guerra Mundial). Meu pai quase foi preso, porque falaram que ele era espião. A polícia foi na minha casa e confiscou um rádio em que meu pai ouvia notícia do Japão. Naquele tempo, era editado em São Paulo um noticiário em japonês, em ondas curtas, e meu pai acompanhava.
JC – O senhor seguiu o conselho e prestou o concurso?
Marono - Prestei concurso em agosto de 1943, aqui mesmo em Bauru, e fui muito bem. Quando cheguei em casa, meu pai perguntou como eu tinha me saído na prova. E eu respondi que se fosse feita justiça eu passaria. Ele perguntou que justiça eu estava me referindo e eu disse: ‘Olha para nossa cara. Nós somos japoneses. O Brasil está em guerra contra o Japão. O senhor quase foi preso. Quando a direção do banco vir a minha ficha de inscrição com a foto, vão me deixar de lado’. Quando chegou em dezembro, um contínuo do Banco do Brasil bateu palma na porta de casa e disse que o gerente queria falar comigo com urgência. Me deu até uma tremedeira. Eu fiquei pensando: ‘Será que eu passei?’ Eu fui correndo no banco. Quando cheguei, o gerente olhou para mim meio assustado. Acho que ele pensou que eu fosse italiano, por causa do nome Marono. Até que ele me deu os parabéns e disse que eu havia sido aprovado no concurso. Nossa, quase desmaiei.
JC – E a vaga era para trabalhar onde?
Marono – Esse é que foi o problema. O gerente falou que a vaga era para Corumbá. Eu perguntei: ‘Onde é isso?’ E ele falou que ficava em Mato Grosso do Sul. A primeira coisa que me veio à mente foi ‘vou perder minha namorada’ (risos). Fui conversar com ela e disse que eu iria para Corumbá com uma condição: antes, ficaríamos noivos. E ela topou. A mãe dela não se opôs, mesmo ela sendo menor de idade. Como eu iria trabalhar no Banco do Brasil, ela sabia que eu tinha um futuro garantido.
JC – E qual foi a reação do seu pai?
Marono – Ele queria que eu largasse da minha namorada. Não aceitava muito bem que um japonês casasse com uma brasileira, porque estávamos sendo perseguidos pelos brasileiros. Mas eu expliquei que ela não tinha nada a ver com aquilo. Acho que ele entendeu. E o noivado aconteceu.
JC – E como foi sua passagem por Corumbá?
Marono – Quando eu cheguei na cidade, não tinha nenhum descendente de japonês. Meu sobrenome enganou todo mundo. Eles estavam esperando a chegada de mais um descendente de italiano. Quando eu entrei na agência, os funcionários perguntaram se eu era cliente. Eu disse que havia passado no concurso e iria trabalhar lá. Eles ficaram olhando. Eram todos brancos e eu, da raça amarela. De cara, percebi uma antipatia. Já fiquei preocupado. Quando cheguei até o gerente foi a mesma coisa. Ele olhou para mim e perguntou se eu queria algum empréstimo. Eu disse que estava lá para trabalhar. Ele perguntou onde eu iria trabalhar. Eu falei que era lá, no Banco do Brasil. Entreguei para ele a carta de apresentação. Ele não sabia o que dizer, até que perguntou o que eu sabia fazer. Eu disse que tinha uma certa habilidade com a máquina de escrever, que escrevia com os dez dedos sem olhar na máquina. Ele me levou até uma mesa, me deu um folha e disse para copiar o conteúdo em outra folha. Ele ficou feliz da vida com a agilidade, me deu os parabéns e disse que o diário da agência estava atrasado havia 30 anos e eu iria colocá-lo em dia. Aí todo mundo me deu valor.
JC – E o que achou da cidade?
Marono – Me diverti bastante lá. Quando morava em Bauru, eu aprendi a dançar tango. Em Corumbá, os clubes tocavam quase que só ritmo argentino, como tango, além de bolero, mambo e outros. Eu era louco para dançar, mas ficava com medo da reação das pessoas. Tinha receio de atravessar o salão, chegar perto da menina e ela se negar a dançar comigo. Era um clube de gente rica, cheio de fazendeiros, de descendentes de libaneses e eu era o único filho de japonês. Eu preferia ficar sentado tomando meu guaraná.
JC – E o casamento, quando veio?
Marono – Em 1945, quando consegui minhas primeiras férias, vim para Bauru e me casei com Reny no dia 22 de julho. Ela foi embora comigo para Corumbá e no ano seguinte nasceu nosso primeiro filho. Quando meus amigos viram minha esposa ficaram admirados. Eles não entendiam como eu consegui casar com uma mulher tão bonita (risos).
JC – Vocês permaneceram em Corumbá até quando?
Marono – Em 1947, eu recebi uma carta do presidente do Banco do Brasil dizendo que uma agência de Cáceres, no Mato Grosso, mais longe ainda do que Corumbá, precisava de um contador formado para assinar os balancetes e, ao mesmo tempo, eu iria trabalhar como caixa, o que significava um salário melhor. Conversei com minha esposa e ela topou a mudança.
JC – E o que vocês acharam de Cáceres?
Marono – Quando nós chegamos, vimos que a cidade não tinha nem energia elétrica. Os moradores viviam na escuridão. Todo mundo ainda usava lamparina. Eu tinha de tomar banho de bacia. À noite, tinha de sair de lanterna na mão. Lá fiquei até 1949. Mas um ano antes nasceu minha filha.
JC – Ela nasceu onde, já que a cidade não tinha energia elétrica? Imagino que não havia hospital.
Marono – Não tinha hospital na cidade. Minha filha nasceu em casa mesmo. Eu tive de ajudar no parto. A parteira era uma preta velha gorda e banguela. Ela mandou eu ferver 20 litros de água. Como não tinha gás, tive que ferver no fogão a lenha. Quando minha filha nasceu, a parteira colocou nas minhas mãos a placenta e eu fui correndo enterrar aquilo no fundo do quintal. Nem gosto de lembrar daquela época.
JC – E como conseguiram vir para Bauru?
Marono – Em março de 1949, eu escrevi um memorando para a direção geral do banco dizendo que, depois de seis anos trabalhando em condições difíceis de vida, eu solicitava minha transferência para alguma agência de Bauru ou qualquer outra no Estado de São Paulo. Disse que meu pai estava idoso e prestes a falecer, mas a resposta não foi nada animadora. Eles disseram que não havia nenhuma vaga disponível e eu teria de permanecer em Cáceres, até que meu pedido pudesse ser atendido. Foi uma decepção muito grande. Eu respondi que não me restava outra alternativa a não ser esperar. Mas não demorou um mês, chegou uma outra carta do banco dizendo que eu havia sido transferido para uma agência de Bauru. Eu quase desmaiei de alegria. Quando falei para minha esposa, ela chorou de emoção. Depois de tanto tempo separados da família, nós finalmente ficaríamos juntos de novo.
JC – Em Bauru, o senhor teve grande destaque como presidente do Clube dos Bancários. Como foi que essa história começou?
Marono – Eu assumi a presidência em 1961. O clube funcionava no segundo piso de um prédio no Centro da cidade e estava prestes a encerrar suas atividades. No mesmo ano, organizei meu primeiro Carnaval. Foi um sucesso. Eu estava feliz da vida. Desci para tomar um guaraná e percebi que as colunas de sustentação do salão de baile balançavam com o pessoal pulando lá em cima. Aí me deu uma tremedeira. Eu olhava para o relógio e não via a hora que o baile terminasse. Chegou 4h, eu mandei parar o baile. O pessoal queria continuar, mas eu não deixei. Decidi não fazer mais Carnaval lá.
JC – O senhor foi presidente do clube por quanto tempo?
Marono – Por 14 anos. Deixei o clube em janeiro de 1975. Ele começou a decair e hoje o prédio está alugado para uma igreja protestante.
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Perfil
• Nome: Luiz Marono
• Idade: 85 anos
• Local de nascimento: Avanhandava
• Mulher: Reny de Almeida Barros Marono
• Filhos: Walter (61), Maria Augusta (60) e Marisa (45)
• Hobby: Jardinagem, fotografia e assistir ao Programa Raul Gil
• Livro de cabeceira: “Prefiro assistir à TV”
• Filme preferido: Os de faroeste e Charles Chaplin
• Estilo musical predileto: Ritmos espanhol e italiano e forró
• Time: Corinthians
• Para quem daria nota 10: Zarcillo Barbosa, Luciano Dias Pires, Luiz Carlos Cordeiro e Roberto Rufino
• Para quem daria nota 0: Para os motociclistas irresponsáveis