Mesmo após tantos dias, o assassinato da menina Isabella Nardoni ainda tem repercussão na mídia brasileira. Alguns atribuem o fato aos meios de comunicação sensacionalistas, que abordam cada episódio chocante à exaustão. Porém, apontar a mídia como única culpada pela abordagem incessante do caso pode ser uma visão simplista. Afinal, é a população que parece cada vez mais interessada no desfecho da investigação do assassinato de Isabella. Segundo o Jornal Folha de São Paulo, de 18 de abril, a cobertura do caso fez com que a audiência dos telejornais crescesse em até 46% na primeira quinzena de abril, comparando-se ao mesmo período de março.
Mas, por que todo esse interesse em um assassinato? Além do crime abalar os espectadores por envolver uma criança e atingir uma família tipicamente brasileira, esse caso parece ir além do mero desejo de justiça da população.
As pessoas anseiam por saber as novidades do caso e até os detalhes do crime, divulgados dia-a-dia, como em capítulos de uma minissérie de vidas reais. É sabido que o ser humano tem a necessidade de ouvir e contar histórias, seja por apreciá-las ou para esquecer a insatisfação pela sua realidade. No “Caso Isabella”, especificamente, muitos aspectos da ficção encaixaram-se em uma situação real, com personagens e representações, dando ao caso um caráter de história.
O interesse da população evidencia a vontade de ver os “personagens” maus pagarem pelo que fizeram, como que para estabelecer algum fim justo diante da desordem do mundo real. Julgar e repudiar os criminosos faz parecer que, por meio da demonização deles, fosse possível se convencer da boa índole do homem “normal”. Apontar o outro como ruim é afirmar “eu não sou assim, eu jamais faria isso, eu sou humano”.
Mas, para Umberto Eco, todo homem tem uma tendência natural à crueldade. Howard Becker também afirmou que não há razão para supor que somente aqueles que acabam por cometer um ato desviante realmente tenham impulso para fazê-lo. Portanto, pode soar estranho, mas é provável que todos tenham nuances de maldade escondidos no fundo da existência, ainda que (e ainda bem) se reprima ou se ignore o fato.
Obviamente, parece mais fácil e mais delicado apontar como desumanos apenas os criminosos e homicidas de sangue frio. Mas será que todo ser humano não tem pensamentos ou atitudes que parecem negar a própria raça? Ora, assusta a dúvida sobre o que um homem seria capaz de fazer, já que não se sabe ao certo o que esse ser pode guardar em suas profundezas. O caso Isabella traz essa questão e talvez seja isso o que realmente assusta.
Ao que tudo indica, os avanços sociais, tecnológicos e as transformações nos direitos humanos e nas instituições disciplinadoras, tais como as prisões ultra-modernas, não trouxeram progresso em alguns aspectos da natureza humana. Tal como um mero primata, o homem ainda pratica atos violentos bárbaros e tem a necessidade de desenhar monstros como que para comprovar (ou procurar) a essência de sua própria humanidade.
Gabrielle Vivian Bittelbrun é estudante do quarto ano de jornalismo da Unesp