Pesca & Lazer

História de pescador: Tralha paraguaya


| Tempo de leitura: 4 min

Toda história de pescador é sempre mentirosa, seja porque a própria é uma grande aventura ou porque é cabeluda mesmo! Mas vamos lá!

Fui convidado para uma pescaria junto a uma turma de ‘pescadores’ da cidade de Franca, onde, na época (início dos anos 90), eu desenvolvia um trabalho como consultor de modelagem em novas coleções de calçados para algumas fábricas daquela cidade.

Entre o pessoal que iria nesta pescaria, que eram uns 15 mais ou menos, eu conhecia bem uns dois ou três, o que já configurou meu primeiro erro, pois pescar com uma turma que você não conhece a maioria é realmente um grande erro.

O destino era a cidade de Cáceres (MT), isso mesmo, tínhamos que encarar uma viagem de mais de 1.500 km para chegar até Cáceres, e depois ir até o rancho que alugamos, que ficava na ponte do rio Jauru, a mais 70 km de terra para frente da cidade de Cáceres, na direção de Porto Velho.

O segundo erro foi eu ter deixado o turma alugar um caminhão mercedinho, tipo 608, para levar a tralha, isso incluindo o meu bote, um Levefort 6 metros, borda alta, que era novinho em folha, mais o meu motor Suzuki 15, também novinho.

O caminhão seguiu dois dias na frente, para quando da nossa chegada a tralha já estivesse desembarcada, os barcos no rio, as iscas separadas e o rancho limpo, somente esperando pela turma de ‘pescadores’.

O motorista (não muito experiente em pescarias), amarrou o barco de lado e ainda fez aqueles nós de caminhoneiros, apertando bem a carga, o que fez que soltasse a maioria dos rebites do fundo do bote, tendo eu que ir de volta para Cáceres, comprar uma caixa de Durepóx, para tampar os vazamentos, que quase afundaram o barco quando comecei a navegar.

Ainda em Franca, reunimos os cinco carros que faziam parte da caravana e saímos em direção a Cáceres e, como não podia deixar de ser, toda viagem de ida foi uma maravilha, todos se conhecendo melhor, até parecia que éramos amigos desde criancinhas.

Chegamos ao rancho depois de dois dias de viagem pelas excelentes estradas de MT. À noite, quando de pronto já preparamos um bom churrasco, devidamente acompanhado pelas primeiras caixas de latinhas que já estavam bem geladas. Realmente foi uma grande chegada, com um churrasco memorável, pois além da fome da viagem a sede era muita!

No amanhecer do dia seguinte, levantei bem cedo, com aquela vontade de cair no rio e começar a pescaria. Foi quando olhei para o rio Jauru, bem em frente ao nosso rancho e vi um cardume de dourados batendo na nossa porta, fazendo a maior farra, atrás de algum cardume de pequenos peixes que por ali estava passando.

Acordei de pronto o piloteiro, pedi para que colocasse o motor no barco, separasse as tuviras, que eu já estava pronto para ir garantir o almoço, na esperança de fisgar um daqueles dourados que já estavam me insultando.

Na hora em que estava entrando no meu barco, lá veio o Marquinhos, pescador convidado de última hora, cunhado do Fernandinho, um grande amigo de Franca, mas que tinha como trabalho ser ‘executivo de fronteira’, sacoleiro del Paraguay, para ser mais claro!

Lá veio ele, com sua vara telescópica, de ponta fina, com um molinete que mal daria para pegar a isca para o dourado, muito menos o dourado.

De cara tentei falar ao exímio pescador que eu estava indo tentar fisgar um daqueles dourados que estavam batendo ali no rio e que a tralha que ele estava levando não era a apropriada para aquela pescaria.

Mas adiantou eu falar? Ele retrucou na hora, alegando que a tralha que ele estava levando era comprada no Paraguai, da melhor qualidade, e que não tinha peixe naquele rio que ele não tirava com aquele equipamento. Fiquei calado, só esperando para ver o que iria acontecer!

E como toda história de pescador tem sempre um final duvidoso, não deu outra, o monstro bateu na vara dele, que, para piorar a situação, tinha molinete com a fricção travada.

A varinha, telescópica, começou a quebrar de cima para baixo, gomo a gomo, em câmera lenta, e quando ficou somente o toco da vara, com o molinete preso nela, a tampa do molinete também foi arrancada pelo douradão.

Ele, com a cara mais espantada do mundo, olhou para mim, para o piloteiro e perguntou: “- O que aconteceu?”. De pronto, respondi: “- Nada amigo, acho que foi aquele peixe que você falou que seu equipamento dava conta!!!”.

Por isso, quando você for pescar, procure conhecer seus parceiros, pois, com certeza, se você não conhecê-los direito, ou vai rir muito ou vai ter problemas demais ou, pior ainda, os dois!!!

Marco V. Machado é pescador e contador de histórias

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