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‘As maluquices do imperador’


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A série de publicações e documentários produzidos para comemorar os duzentos anos do desembarque de D. João VI no Brasil, em 1808, escancarou detalhes da nossa história que nunca nos ensinaram, desde o curso primário. O garoto ingênuo do grupo escolar só agora, adulto, ficou sabendo que D. Pedro I teve 28 filhos: 10 de matrimônios e 18 fora deles. Os filhos foram produzidos veladamente. Ao fascínio do imperador não escapou uma doceira negra do Palácio de São Cristóvão, tampouco uma freira da Ilha Terceira. Todas lhe deram herdeiros, mas não tiveram heranças.

O jovem filho de D. João foi um ardoroso amante. Sobre suas aventuras muitos autores escreveram, entre os quais Viriato Corrêa, da Academia Brasileira de Letras, em “As maluquices do imperador”. Algumas das suas páginas mais amenas faziam parte das antologias escolares. Mas, nunca se soube que o homem era tão fogoso assim. O caso mais famoso, que a gente ouvia falar, foi o da Marquesa de Santos. Esse título de nobreza o próprio imperador lhe concedeu pelos préstimos à Coroa - na cama, evidentemente. Para aqueles que se escandalizaram com o reitor que utilizou verbas de pesquisas científicas para equipar o apartamento, saiba que essa prática vem de longe. Decorar a casa que Pedro deu à Marquesa de Santos foi um dos desafios que o Chalaça - espécie de faz-tudo do imperador - teve que enfrentar. A história que agora emerge não menciona lixeira de ouro no valor de mil patacas, mas a contabilidade real teve que criar vários subitens e rubricas para encaixar as despesas. Naquela época ainda não havia sido criado o cartão corporativo e as despesas do supremo mandatário nada tinham de secretas, como hoje.

Um caso também rumoroso foi com madame Clemência Saiset, francesa, modista de fina casa na Rua do Ouvidor. Pedro de Alcântara encomendou os papéis de parede que ela vendia. Redecorou o Palácio São Cristóvão e as alcovas de outras duas amantes menos cotadas. O marido de madame, coincidentemente, foi contratado sem concorrência, para executar o serviço. Enquanto o gajo trabalhava sem “Clemência”, Pedrinho brincava de “papai-e-mamãe” com a mulher do profissional. O esposo ainda agradeceu, porque pôde afixar à porta do seu comércio a placa: “Fornecedor Real” – Decoração, Cama e Mesa.

Bem que eu desconfiava. No livro de História do Brasil, da 1ª Série, havia uma estampa de D. Pedro I, guapo, montado num cavalo branco como imaginou Pedro Américo, o autor do quadro. Minha cabeça de criança concebia, de fato, um herói de atitudes destemidas. De plácido, esse nosso imperador só teve as margens do Ipiranga no momento de berrar “Independência ou Morte”. Pedro era epilético. Ou teria sido mal interpretado? Seriam as suas convulsões provocadas por desejos sexuais incontidos? Quem sabe, numa versão mais científica e crível, fossem problemas ligados à consangüinidade. Os casamentos buscavam a consolidação do poder das casas coroadas da Europa. Os nobres europeus eram parentes entre si. Todos malucos da pistola.

O romancista Joaquim Manuel de Macedo considerava Pedro I inteligente, de viva imaginação e de gênio ardente, mas que recebera muito limitada e superficial instrução. Segundo Macedo, “não teve mentor que lhe mostrasse a vida real e prática e o aconselhasse a conter a impetuosidade de ânimo”. Ainda bem...

Pelo que se depreende, por onde andava o jovem imperador deixou marcas instigantes de sua passagem. Jamais se fará um rol completo e seguro das suas aventuras romanescas. Que estão a merecer um compêndio, alentado é certo. Em 1828, como registra Hermes de Paula, vivia na corte uma mucama, cuja filhinha de olhos azuis era muito mimada pelo imperador. A imperatriz Leopoldina descobriu a paternidade da criança e mandou deportá-la. Pedro, em tempo avisado, deu destino à mucama e à filhinha, encarregando o sargento-mor de Tejuco de cuidar de ambas. A menina foi encaminhada a Formigas, para evitar a epidemia de varíola, que grassava em Tejuco. Nada adiantou. A doença já estava incubada e, dias depois, faleceu. O Padre Feliciano providenciou seu sepultamento junto ao altar-mor da primitiva capela, hoje Matriz de Nossa Senhora e São José. Assim perdemos uma princesa de olhos azuis.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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