“O importante são os fatos políticos”, “para sermos seguros e livres precisamos de um país”. Estas são as duas verdades que orientam o caráter do general revolucionário e abolicionista Antônio de Souza Netto. A belíssima produção cinematográfica dos diretores Beto Souza e Tabajara Ruas tem seu início quando Netto se encontra ferido, durante a Guerra do Paraguai, em um Hospital Militar de Corrientes, na Argentina. Neste, Netto presencia a amputação das pernas de um capitão brasileiro, realizada por um cínico médico inglês. Simbolicamente, este é um ato político.
Através das lembranças de Netto, o filme traça um paralelo entre a Guerra dos Farrapos, realizada por idealistas em busca da construção de uma República e da abolição dos escravos, e a Guerra do Paraguai, uma guerra de mercenários a serviço da Inglaterra para a destruição total do Paraguai. Alternando cenas intimistas com grandiosas imagens, o filme nos leva a refletir sobre homens e mulheres que fazem a necessária ligação entre realização pessoal e o ideal coletivo. São pessoas que possuem a consciência de que seus atos são essencialmente políticos e que a segurança e a liberdade individuais são construídas na igualdade coletiva. Hoje parece que a alma de Netto continua ainda perdida.
Todo mundo pensa no sucesso. Melhor dizendo, a sociedade de consumo nos convence a todo custo que temos que ter sucesso (e este é sinônimo de dinheiro), o que deve nos trazer a felicidade tão sonhada por todos. Porém, ninguém pensa que o sucesso, em primeiro lugar, precisa ser autêntico. Em outras palavras, ele precisa ser o meu sucesso, a minha realização pessoal. E muitos se iludem não querendo enxergar que a abdicação de tempo de lazer e de outras coisas no momento prazerosas é pré-requisito para se alcançar aquilo que realmente se deseja e que dá satisfação de viver. O sucesso autêntico necessita de suor e tempo de dedicação. Este esforço e sacrifício são extremamente amenizados quando realizamos ou almejamos algo que nos dá realmente prazer. Este é o real segredo para nos sacrificarmos por uma atividade pessoal ou profissional: o prazer de fazer e realizar. Quem tem o privilégio de se dedicar ao que gosta, sacrifica seu tempo sem grandes dificuldades. O trabalho é trabalho, mas esta palavra ganha outra conotação. Ele nos deixa a sós, nos faz transpirar, nos traz noites em claro, mas nos dá dignidade e nos oferece uma grande sensação de satisfação.
Sem dúvida alguma vivemos em um país no qual a maioria não possui o privilégio de escolher a atividade na qual realmente se realiza como pessoa, ou seja, o fazer que verdadeiramente goste. Para estas pessoas a saída realista é tentar encontrar um objetivo maior naquilo que realiza cotidianamente. Se meu trabalho em si não é aquilo que desejo fazer, e se o sistema social e econômico não pode ser mudado da noite para o dia, devo encontrar neste trabalho rotineiro um motivo que possa me trazer de alguma forma prazer. Este motivo sempre existe. Ele pode ser de qualquer natureza, como por exemplo, a melhoria de vida de outras pessoas, o alívio do sofrimento alheio, o apoio ao companheiro que está no mesmo barco, etc. Ao encontramos algum aspecto em nossa atividade que nos traz um mínimo de satisfação descobrimos um significado para ela. E esta é a palavra chave para tudo que fazemos na vida. O significado do trabalho faz com que permaneçamos talvez não tão empolgados, mas persistentes, na sua boa realização e nos traz um sentido para tantas horas dedicadas a ele.
Mesmo que o significado para o trabalho esteja claro, o esforço não desaparecerá. Pelo contrário, quanto mais significado encontramos em nossa atividade, mais mergulhamos em nosso trabalho e a habilidade, a qual advém da rotina e da prática diária, torna-se domínio. É falso pensar que a rotina nos cansa e é maçante. Ela nos desgasta quando não nos encontramos naquilo que fazemos. Sem dúvida, ao lado da rotina que nos oferece domínio do que realizamos e do esforço que nos leva a concretizar bem a nossa atividade, o afastamento regular (que não deixa de ser rotina), ou seja, os momentos de relaxamento, descanso ou as tão desejadas férias são fundamentais para arejar a mente. Mas este afastamento não pode ser muito longo. Todos já devem ter tido a experiência de que quanto mais tempo temos menos tempo encontramos para realizar o que devemos ou desejamos fazer. O descanso é um preparo para fazermos o que dá sentido à nossa vida. Os jovens devem buscar atividades profissionais que os realizem realmente como pessoa e aqueles que já chegaram à chamada terceira idade podem encontrar atividades voluntárias que revitalizem seu ser e melhorem a vida de outras pessoas e do nosso universo social. De qualquer forma, o significado daquilo que fazemos deve estar intimamente ligado à consciência de que todo ser humano deve possuir a liberdade de escolher uma atividade que o realize. Em outras palavras, não devemos ser um conglomerado de indivíduos tentando atingir um sucesso individual, mas pessoas humanas que constroem uma sociedade de sucesso coletivo. Se me movimento nesta direção, encontro a verdadeira satisfação de viver.
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