Tribuna do Leitor

Concerto do pianista Rogério L. dos Santos


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Dia dez de maio de 2008 é um dia histórico para aqueles que apreciam a música erudita em Bauru. Aconteceu o muito esperado concerto do pianista bauruense que se projetou no cenário musical dos Estados Unidos com a sua magnífica interpretação do Concerto n.º 1 de Tchaikovsky para piano e orquestra. Após diversas apresentações em São Paulo, agora foi a oportunidade de Bauru para ouvir esse grande talento musical.

“Tutti”, como o Rogério é carinhosamente conhecido entre nós, apresentou um programa muito eclético e inspirador incluindo Chopin, Beethoven e Liszt. A primeira peça musical foi a maravilhosa Primeira Ballada de Chopin, música que tem uma introdução modesta indicando um guerreiro que explica “assim foi a batalha”. Então o drama começa a se desenrolar e a complexidade técnica, interpretativa e de pura força física vai se apresentando exigindo do artista muita virtuosidade e sentimento.

Tutti provou ser um guerreiro e o piano foi se integrando inteiramente, fundindo-se a ele e juntos transmitiram a profunda mensagem do drama em todas as suas nuances e desafios, no final brilhante e aterrador a mensagem nos chega aos ouvidos através cadências cheias de puro lirismo e extrema dificuldade pianística, acordes vibrantes e poderosos que indicam “o inimigo caiu como uma estrela cadente sob o poderoso punho do herói transcendental”.

Os dois noturnos foram interpretados com grande precisão e finésse, Tutti deslizou tranqüilamente em perfeita harmonia entre a mão esquerda que desenvolve um ritmo próprio diferente da mão direita que produz um efeito de pura magia como o próprio Tutti expressou na sua fala “os noturnos de Chopin representam música espacial fazendo que a nossa imaginação alce vôo”. A Valsa Brilhante realmente cintilou e o público delirou. Finalmente, com a Polonaise Heróica Tutti atingiu o pináculo do seu maravilhoso virtuosismo, as oitavas brilhantes da mão esquerda pulsaram como o coração de polonês apaixonado por sua terra, como Chopin devia estar se sentindo quando a compôs.

A segunda parte, depois de o piano ter sido afinado novamente, começou com uma das obras-primas de Beethoven, a sonata Waldestein, também conhecida como Aurora. Uma peça difícil, que exige muito do intérprete, e mais uma vez Tutti demonstrou seu talento sendo capaz de desenhar através de sons ricos em harmonia a paisagem descrita pelo gênio incomparável de Beethoven. As notas repetidas inicialmente indicam a ascensão da alma num vôo a procura da Aurora Transcendental ou visão beatífica como descrita pelo místico cristão São João da Cruz. A alma voa às vezes calmamente e às vezes encontrando turbulências, Tutti, com pinceladas mágicas, reproduziu toda essa energia cósmica contida nessa harmonia que Beethoven, como ele próprio dizia, “a inspiração vem de Deus e o compositor a devolve a Ele através de notas musicais”, e como um intérprete virtuoso. Tutti não perdeu nem um único detalhe. As cores dos primeiros raios de uma aurora fulgurante brilharam docemente nas notas suaves do segundo movimento, que em seguida num crescendo brando e delicado explode em cores brilhantes da Aurora mágica do terceiro movimento.

Na última peça, a Rapsódia Húngara, número dois de Liszt, Tutti explorou todos os recursos que o piano podia oferecer, foi uma jornada de um titã, os trinados estavam “crisp”, ou seja, claros virtuosos e duma sonoridade impecável, os grandes saltos foram precisos demonstrando firmeza e virtuosismo, as oitavas em todas as direções foram extraídas como jóias brilhantes arrebatadas dum tesouro onde somente os poucos escolhidos têm acesso. Parabéns Tutti, parabéns Bauru e obrigado Senhor por este talento em nossa terra.

M.A. Benedito S. Guedes de Azevedo - professor

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