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Empobrecimento da classe média


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Há tempos escrevi uma matéria sobre o assunto. Para ser mais exata, foi em julho de 2007. Afirmei que a classe média estava com raiva e prestes a explodir. Acertei 50%: a classe média estava e está com raiva, só que não explodiu e creio que não explodirá jamais. Por quê? Porque o brasileiro continua frouxo, acomodado, cordato, pacífico como um cordeirinho. Só falta mesmo aquele Panurgo da historieta incitá-lo a afogar-se no mar... A quem interessa o encolhimento e o empobrecimento da classe média?

A título de esclarecimento, retomemos algumas posições que, naquele longínquo julho do ano passado, tentávamos levar ao conhecimento do leitor. Afirmávamos, baseados em dados estatísticos divulgados em artigos de jornais de grande circulação, que, enquanto o rendimento das camadas mais pobres da população, isto é, das pessoas que ganham até três salários mínimos, subira mais de 45% acima da inflação, o da classe média, isto é, das pessoas que ganham entre R$ 3 mil e R$ 10 mil, sofrera uma queda de 46%.

É preciso lembrar que, no Brasil, de cada três famílias, duas são de classe média. Em virtude desse aperto financeiro, tais famílias não estão conseguindo manter o mesmo padrão de vida de alguns anos atrás. Está mais difícil fazer a reforma da casa, viajar durante as férias ou manter a lista de compras no supermercado. As contas de casa, como luz, telefone, estão caras, por isso o dinheiro tem que ser regrado. Esperávamos, então, que a chamada classe média tomasse uma posição.

Quando se tem determinação, a vontade dos cidadãos prevalece, haja vista a pressão sobre a Justiça, feita nos últimos dias, em favor da pequena Isabella, covardemente assassinada. Mas, não... Como dissemos, a classe média continua em profundo estado letárgico, agüentando pancada de todo lado. É Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), é Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), é Imposto de Renda (IR), é imposto sobre alimentação, energia elétrica, telefônica...

No princípio de cada ano, se o pobre do trabalhador da classe média não guardar o 13° salário, ele está ferrado, como se costuma dizer na gíria, porque os impostos que têm de pagar amontoam-se como as folhinhas de outono no jardim.

Você sabia que a classe média brasileira necessita mourejar 153 dias para quitar tributos? De 1 de janeiro até 5 de junho, essa faixa da população trabalha só para pagar impostos. Já pensou? Atualmente, trabalha-se o dobro que se trabalhava há 30 anos para pagar a tributação. Ah! poderão dizer alguns incautos, na França a classe média precisa trabalhar 149 dias ... Leia, então, o livro de Reali Jr., "Às margens do Sena", e você irá comprovar a qualidade dos serviços públicos franceses, especialmente os de saúde, o que não ocorre no Brasil.

Por que essa voracidade tributária? Ainda não entendeu? Como esse governo petista não tem limites e gasta desenfreadamente, em contrapartida é preciso arrecadar muito. Como garantir grana para financiar o Bolsa- Família, as montanhas de cargos públicos recém-criados, os inexplicáveis gastos com os cartões corporativos, as inúmeras e pomposas viagens ao Exterior, além, é claro, da corrupção, que leva de roldão uma monstruosa quantidade de reais... Está faltando juízo, minha gente!

Pela sua importância no mercado interno, é preciso estancar o desmoronamento da classe média sob pena de comprometer até mesmo a governabilidade.

A autora, Maria da Glória De Rosa, é professora- doutora e colaboradora de Opinião, mgderosa@uol.com.br

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