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Agressão contra criança e o adolescente


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A violência é desumanizadora por si só. A linguagem tem a função de regular as ações e de propiciar a conduta intencional humana. Por meio da linguagem, o indivíduo prepara um ato a ser consumado - Góes (2000). O 4 de junho foi instituído como dia mundial contra a agressão à criança e ao adolescente, para que a sociedade reflita sobre as formas violentas que têm sido utilizadas no processo de dis-ciplinamento destes. Gostaria de contribuir nesta reflexão trazendo discussões do campo psicossocial sobre a questão da violência.

Os comportamentos violentos são tidos como condição humana inata não passível de modificação, o que, em última instância, cul-pabiliza apenas o indivíduo agente da violência. Nossos estudos apontam uma tendência em buscar as causas/motivos da violência na relação agressor-vítima, na ausência de religiosidade, na família desorganizada e no sistema, sem contextualizá-los como um fenômeno construído social e historicamente.

De acordo com Vásquez (1978), o ser humano possui uma abertura para agir por meio da violência e esta é, portanto, uma ação exclusiva do homem. Ele nos diz que o homem é o único ser que para existir como humano precisou modificar a natureza para satisfazer suas necessidades de sobrevivência utilizando a força e nesse processo generalizou-se o uso da violência (do latim vis = força).

A violência precisa ser reconhecida na sua complexidade e diferente formas: física, verbal, sexual, psicológica e a negligência. Devemos refletir para além dos fatores de riscos comumente apontados: alcoolismo, uso de drogas ilícitas, pouca escolaridade, pobreza, desemprego, pais sem habilidades para tarefa de educação dos filhos, frustrações etc. Esses elementos não são em si mesmos automaticamente determinantes de ocorrências de violência.

Martin-Baró (1997) nos lembra alguns fatores importantes para ampliar a análise da violência: o fundo ideológico, o contexto possibilitador, o agente da ação violenta, a vítima, o grau de dano, a situação em que se produz o ato de violência. O fundo ideológico precisa ser analisado nas relações sociais permeadas pela violência, o que nos remete a uma realidade social configurada pelos interesses de classe, na qual existem valores, regras, rotinas institucionalizadas. No contexto possibilitador temos que distinguir entre dois tipos: o social (já citado acima) e um mais imediato, situacional, no qual ocorre as situações de violência.

O agente da ação violenta tem que ser considerado como um agente legítimo, visto que o poder estabelecido lhe dá esse poder. Para diversos agentes sociais em nossa sociedade é outorgado o direito ao uso da violência nas relações sociais, por exemplo, os pais. Nas instituições escolares, até bem pouco tempo os castigos físicos eram aceitos como forma de disciplinamento.

No processo de construção social da violência percebe-se que quanto mais baixo o status social da vítima ou do grupo ao qual pertence, mais facilmente se aceita a violência contra elas. O grau de dano produzido na vítima é um outro fator a ser considerado, pois quanto maior o dano causado, mais justificado terá que aparecer o uso da violência. Na situação em que se produz o ato de violência, observa-se que quando uma pessoa se defende de uma violência cometendo outra, resulta mais justificável que um ato violento buscado por si mesmo. Toda essa complexidade precisa ser analisada nas situações de violência.

Concluindo, apontamos a educação como uma via potencial para o desenvolvimento de formas de sociabilidade não violentas, visto que os indivíduos buscam o projeto coletivo de uma sociedade melhor. Os homens não nascem prontos, mas tornam-se humanos nas relações sociais que estabelecem no decorrer de sua existência e, desta forma, é possível construir relações familiares, educativas e sociais que prescindam do uso da violência.

A autora, doutora Nilma Renildes da Silva,é professora da Unesp/Bauru

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