Polícia

Crianças e adolescentes atacam policiais e tumultuam delegacia

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Crianças e adolescentes, com idades entre 10 e 15 anos, tumultuaram ontem o plantão da Polícia Civil de Bauru. Numa das três ocorrências houve até desacato e depredação do patrimônio público. Num acesso de fúria, um dos garotos quebrou um biombo da delegacia, após desferir chutes e socos contra policiais.

O último caso registrado, no entanto, envolve uma tentativa de furto no Jardim Europa. Segundo a vítima, que teve a casa invadida outras quatro vezes, sua empregada lhe telefonou para informar sobre um grupo de adolescentes que estaria tentando danificar a cerca elétrica do imóvel. Fariam isso com o auxílio de um pedaço de madeira. Ela conta ter se deslocado imediatamente para a residência e, nas proximidades, encontrou um dos meninos.

Com 11 anos, ele foi apreendido por uma equipe da Polícia Militar (PM) num matagal próximo. Inicialmente, o garoto disse ter 8 anos e informou que tentava retirar a cerca com o auxílio de outros dois. O trio, segundo a vítima, seria responsável pelos furtos em sua casa, sendo o mais recente praticado anteontem, quando um fogão de quatro bocas foi levado numa carroça.

De acordo com ela, vizinhos os teriam flagrado, mas não estiveram ontem no Plantão Policial para reconhecê-los. A empresária, que teve nome e endereço preservados por questão de segurança, conta ter ficado sem TV, DVD, vídeo, home theater e calçados após tantas ocorrências. Policiais tentaram localizar os objetos, assim como os colegas do menino de 11 anos. Porém, num primeiro momento, o garoto forneceu endereços e nomes errados.

Negativa

Por fim, apontou seus acompanhantes, um de 12 e outro de 14 anos, além de onde encontrá-los. Foram localizados na região onde todos vivem, uma favela situada ao lado do bairro onde mora a vítima. Os três negaram os furtos e os objetos não foram encontrados. Todos eles, porém, já passaram pela Delegacia da Infância e Juventude (Diju) por conta de outras ocorrências da mesma natureza, confirma o delegado de plantão ontem Fábio Mariotto.

A família dos três foi acionada, compareceu à delegacia. Ao final, todos foram liberados. “O problema é que não tem lei para eles. A culpa é do pai e da mãe. Dois deles não dormiram em casa nesta noite. Não dá para largar, deixar solto. Educar é difícil. Pobre ou rico pode ser honesto”, comenta a empresária.

Para ela, os meninos são usuários de droga, conforme reiterou Mariotto. Portanto, na opinião da vítima, eles furtam para manter o vício, além de trabalharem para outras pessoas. Os nomes dos meninos foram preservados em respeito ao Estatuto da Criança e Adolescente (ECA).

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‘Amizades’

As más amizades foram apontadas pelas mães de dois dos garotos envolvidos na ocorrência do Jardim Europa como responsáveis pelo comportamento dos filhos. Uma delas, empregada doméstica, conta que na própria casa o filho de 11 anos nunca mexeu em nada. Nem na carteira do pai em dia posterior ao pagamento, quando está com dinheiro.

Ela também afirma nunca visto qualquer objeto diferente em ambiente familiar que pudesse levantar suspeitas contra o filho, que tem outros cinco irmãos. Já a catadora de reciclável, mãe do garoto de 12 anos, questionou em vários momentos qual procedimento deveria adotar para interná-lo. Ela tem outros filhos e conta que os três envolvidos no ato infracional de ontem são vizinhos.

Já o pai do garoto de 14 anos o deixou sozinho na delegacia para pegar a esposa, que acabara de receber alta na maternidade, onde teria dado à luz ao sexto filho.

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Ameaça

O primeiro ato infracional de ontem foi o mais simples. Foi registrado por volta das 10h, depois de policiais militares comparecerem a uma loja situada no Calçadão da Batista de Carvalho. No local, um adolescente de 15 anos entrou com uma faca, que teria sido utilizada para ameaçar um funcionário do estabelecimento. O garoto foi conduzido ao plantão da Polícia Civil e, depois, liberado.

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Discussão instalada

As ocorrências envolvendo crianças e adolescentes registradas no Plantão Policial de ontem vem ao encontro da discussão instalada na Tribuna do Leitor, que continua hoje. Ela foi iniciada com a carta de Aelton Aquino, estudante de jornalismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ele considerou que a PM exagerou na abordagem de três crianças acusadas de furtarem uma loja no Calçadão da Batista de Carvalho. Segundo ele, por conta da ocorrência, organizou-se uma operação de guerra. A opinião dele mobilizou a Associação das Empresas do Calçadão (AEC) e o comando da Polícia Militar, além de provocar a manifestação de outros bauruenses.

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