Bairros

Famílias e amigos tentam resgatar tradição

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 6 min

Ações isoladas de famílias e amigos têm mantido acesas as tradicionais festas de quarteirão em Bauru. Entre elas está a que reúne as famílias moradoras da rua Miguel Gimenes Filho, no Jardim Bom Samaritano. O evento é realizado há 31 anos (a deste ano, foi promovida ontem). Outra, mais recente, começou há três anos e reúne todos os moradores da rua Osvaldo Alvarenga Tavano, no Jardim Colonial.

As duas festas seguem à risca a tradição de que cada participante deve levar um prato de doce ou salgado para colaborar. Nelas, nada é cobrado dos visitantes; da mesma forma, a reza do terço sagrado marca o início das comemorações.

A tradição de organizar a festa junina na própria casa passou de pai para filha e agora chega aos netos na casa de Olinda Maria Zanferrari, 68 anos, que depois da morte do pai decidiu tocar a festa para não deixar a tradição morrer.

A primeira festa foi realizada em 1977, quando João Máximo da Silva, pai da dona Olinda, resolveu homenagear São João com uma festa caipira. “Não era uma promessa, mas é que ele fazia aniversário no dia 24 de junho, dia do santo, por isso a festa em homenagem a São João”, conta a filha.

Até o último ano, a família Zanferrari bancava toda a festa, que era realizada em no quintal da casa onde eles moram, no Jardim Bom Samaritano, e se estendia para a rua em frente a residência. A família conta que apenas em um ano a festa deixou de ser realizada. “Quando minha mãe morreu, a gente não tinha clima para isso”, conta Zanferrari.

No ano passado, a festa da “Dona Olinda”, como é conhecida, recebeu mais de 300 pessoas. Este ano a família esperava mais de 600 pessoas, já que outra festa junina tradicional do bairro, o “arraiar do Miguer”, organizada pelos moradores do quarteirão, se uniu à festa da família.

“Como a festa ganhou uma dimensão muito grande, hoje em dia é muito difícil encontrar quem faz tudo sozinho, agora a gente pede para as pessoas que vêm à festa que tragam um prato de doce ou salgado para ajudar na mesa”, conta dona Olinda.

Para conseguir o dinheiro e organizar a festa, a família Zanferrari começa a se movimentar bem antes da época junina. “A gente vende rifas para conseguir o dinheiro necessário para organizar a festa”, conta Felipe Zanferrari, um dos netos de dona Olinda.

Quem vai à festa encontra tudo o que uma verdadeira festividade junina precisa ter: bolo, quentão, vinho quente, pipoca, amendoim e diversos doces. Além dos pratos tradicionais, também é servido aos visitantes batida de coco, caldinho de feijão, cachorro quente e vaca atolada. Em 2007, foram mais de 30 quilos servidos aos visitantes.

“A gente controla na hora de servir a comida, porque se não quem chega mais tarde pode ficar sem nada”, explica o neto. A família, que tem todas as edições realizadas até agora registradas em fitas de vídeo e DVDs, explica que a festa só começa com a reza do terço em homenagem ao santo.

Na festa realizada pelos moradores da rua Osvaldo Alvarenga Tavano, no Jardim Colonial, a alegria também é completa. De acordo com um dos organizadores, Sylvio Garcia Júnior, a festa é realmente realizada ao modo antigo, onde os moradores da rua colaboram com doces, salgados, refrigerantes e ajudam com os enfeites da rua.

“Eu tenho notado que festas como a nossa estão desaparecendo a cada ano, talvez pela violência ou mesmo pelo grande número de pessoas quem aparecem de fora”, opina Garcia.

A festa reúne cerca de 30 a 40 pessoas moradoras do bairro, que, além de colaborar com a mesa, também vão até a festa com trajes típicos. “É uma confraternização simples, o bairro é pequeno é mesmo para manter aquela tradição caipira das festas que a gente participava quando criança”, conta Garcia.

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Tradição e inovação

Talvez o auge dos festejos juninos seja a apresentação das quadrilhas e do casamento caipira. Mas é certo que para orientar a quadrilha é preciso habilidade. Neuza Maria de Carvalho Barbosa, a Neuzinha, herdou do pai a alegria e dom de animar as pessoas nas festas juninas.

Sem deixar a tradição de lado, Neuzinha conta que sempre inclui algo novo nas coreografias que coordena. “O povo gosta e assim não fica aquela quadrilha maçante”, conta ela, que é instrutora de esporte no Serviço Social do Comércio (Sesc).

Em todas as festas organizadas na entidade, ela é quem é responsável por organizar e cantar a quadrilha. Neuzinha também organiza a quadrilha em outras entidades. “A alegria e a disposição que herdei dos meus pais me habilitam sempre para essas festas”, afirma.

Depois de cantar a quadrilha durante os quatro dias de festa no Sesc, Neuzinha, já quase sem voz, se diz preparada para participar de outras festas que deverão acontecer até o final do mês. A orientadora oficial de quadrilha do Sesc conta que inclui durante a quadrilha coreografias como a pipoca, quando todos os participantes começam a pular sem parar e quando se diz “a ponte caiu” todos caem ao chão. “Eu gosto de brincar com o público presente nessas festas”, conta.

Já o casamento caipira é uma representação mais tradicional nas festas de São Pedro. Dependendo da região, a representação também é chamada de o casamento na roça. O enlace se desenvolve em meio às fugas do noivo, às indecisões da noiva e ameaças por parte dos pais, vigário e o delegado. Os principais personagens da representação são: a noiva grávida, o noivo, o delegado, o padre, pais e padrinhos.

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Dança de catira

Festa junina é folclore. O som da sanfona, as quadrilhas, a música sertaneja e as apresentações de catira cabem dentro desse contexto. O grupo Caçula de Catira de Bauru leva a tradição do sapateado às festas juninas há 50 anos.

De acordo com João Carneiro, a história começou quando o grupo venceu um festival de catira realizado na cidade e de lá para cá foram diversas apresentações em Bauru e por todo o Estado. “O segredo do catira está na bota do catireiro, enquanto a dupla sertaneja canta o catira paulista a gente dança”, explica Carneiro.

A dupla Irmãos Domingues é que toca e canta nas apresentações do grupo Caçula, tendo sido os percursores do grupo. Eles seguem o estilo difundido pela dupla raiz Viera e Vierinha.

“A gente ensaia sempre. Somos oito catireiros profissionais e mais sete alunos e a gente se apresenta em Bauru, região e todo o Estado. A gente se apresenta sempre uniformizado, com calça, camisa, lenço e a bota”, completa.

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