Cultura

Osesp leva música erudita ao Interior

Por Adriano Pereira | Da APJ especial para o JC
| Tempo de leitura: 6 min

Com o objetivo de extrapolar as fronteiras da Sala São Paulo, a Fundação Osesp, em parceria com o Sesc dá início nesta semana ao projeto “Osesp Itinerante”, que levará a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo para 12 cidades do Interior paulista, incluindo Bauru, para um total de 54 concertos, entre apresentações de câmara e espetáculos regidos pelo maestro John Neschling.

Diretor artístico e regente titular da orquestra desde 1997, Neschling foi o responsável por colocar a Osesp em um cenário nunca imaginado pela música erudita tocada no Brasil. A orquestra saiu do restaurante onde ensaiava e do Cine Copan – um local onde os músicos se apertavam para poderem tocar – e chegou à Sala São Paulo, um espaço idealizado pelo maestro, e conquistado por ele.

Com esse projeto, a orquestra sai para se apresentar com condições que o maestro considera idéias: Uma grande equipe de som, músicos, técnicos, montadores, motoristas, engenheiros de som, produtores e outros profissionais em um evento que o maestro apelidou de uma “operação de guerra”.

Mesmo com o recente anúncio feito por Neschling, de que não irá renovar seu contrato com a Secretaria do Estado da Cultura, o projeto conta com a presença do seu criador em todas as etapas. Em 2010, Neschling deixará a Osesp. Numa tarde fria da capital paulista, um maestro sorridente – que até tocou piano — ao lado da sua mulher, a escritora Patrícia Melo, recebeu a Associação Paulista de Jornais para uma conversa sobre o novo projeto. Seu sorriso é volátil. Quando o assunto é sua saída, o semblante de Neschling muda e soa como a 9ª Sinfonia de Beethoven. Mas também mostra um profissional que se dedica e preza pela excelência.

Associação Paulista de Jornais- O projeto da Osesp Itinerante é um desejo antigo? Quando nasceu?

John Neschling- Muito antigo. Sempre tive a noção de que era importantíssimo a orquestra viajar para o Interior. Por diversas razões. Primeiro porque gosto de fazer concertos para públicos diferentes. Segundo, porque sempre achei que era importante a gente tocar para os contribuintes do Estado de São Paulo que pagam pela Osesp, evidentemente, e que merecem ouvir a orquestra e que não podem vir todas as semanas à Sala São Paulo. E terceiro porque é sempre importante criar um público novo, pessoas que não conhecem música sinfônica, que vai se interessar e começar a exigir uma orquestra em sua cidade. Sempre quis fazer isso, desde o início. Este ano é que deu certo.

APJ- O projeto prevê oficinas, palestras e aulas, além dos concertos. Isso também foi uma exigência sua?

Neschling- Pois é. É mais do que um concerto só. É uma residência da orquestra em certas cidades, vamos levar oficinas de música, falar com alunos, fazer palestras, uma série de concertos de câmara, vamos levar o coro. É mais do que um concerto circunstancial, tocou e acabou. Queremos deixar raízes nessas cidades, fazer com que as pessoas se informem, se interessem sobre o estudo da música, sobre o mercado profissional.

APJ- Sua palestra durante o projeto abordará quais assuntos?

Neschling- Vou abordar o que significa o estudo da música, para que serve esse estudo, quais são as possibilidades que o músico tem na carreira e o que fazer nas cidades para criar ambientes propícios para eventos culturais, evidentemente ligados à música. Mas também são apenas 50 minutos.

APJ- O senhor acredita que a música erudita precisa se aproximar mais do público no Brasil?

Neschling- A música clássica, em qualquer lugar do mundo, onde há oferta. as pessoas vão assistir. Mas nas cidades menores você nem sempre tem essa oportunidade. Não é que tem que chegar mais perto, é simplesmente oferecer. É democrático você oferecer para todos um pouco de todas as linguagens. Muitas dessas cidades têm conservatórios, têm orquestras próprias, mas eu acho que é um incentivo levar a Osesp para esses locais. Para que as pessoas tenham contato com os músicos com as pessoas da orquestra. Não que a gente ache que não há nada no Interior, que estamos indo para um deserto. Ao contrário, estamos percebendo agora que o interesse é muito maior de que imaginávamos, porque todos nossos seminários, oficinas e palestras têm mais gente do que esperávamos. Isso só nos confirma que a idéia que tivemos é boa e que teremos resultado nessa itinerância, e na do ano que vem também. Não queremos que isso seja único.

APJ- Como serão divididas as atividades durante o projeto?

Neschling- Nossa orquestra tem 120 músicos. Daria para fazer dois concertos ao mesmo tempo. Só quando os concertos forem em áreas abertas, públicas, é que vamos completos. Na abertura em São José dos Campos, teremos 100 músicos tocando. Sem contar com o coro, que são mais 70 artistas.

APJ- Quais são os resultados esperados durante a realização da Osesp Itinerante?

Neschling- Eu não acho que em dois ou três dias nós formaremos músicos. Acho que conseguiremos informar esse público. Não queremos ter “master classes”, queremos o contato com o público. Aqueles que já tocam um instrumento, os que querem tocar, quem quer conhecer os instrumentos, saber o que é uma orquestra. É uma espécie de balcão de informações que estamos criando. Evidentemente que se uma pessoa tocar melhor terá uma aula melhor, mas quem não toca nada também terá essa informação. Por exemplo, um curso de apreciação musical. São seis horas de aula, e é difícil alguém aprender tudo em tão pouco tempo. Mas vamos preparar as pessoas para ouvirem os concertos da Osesp.

APJ- O projeto coloca essa erudição em disponibilidade.

Neschling- É um projeto democrático. E serve também para mostrar onde gastamos nosso dinheiro.

APJ- O que fez a Osesp ser o que é hoje?

Neschling- A qualidade, a honestidade, a seriedade, a caráter, a dignidade, disciplina, hierarquia e trabalho, muito trabalho.

APJ- O que representa tudo isso que construiu?

Neschling- A coisa mais importante da minha vida. Criei um projeto que veio do nada, e hoje é um dos projetos de ponta de música clássica no mundo inteiro. Orgulho enorme. Os músicos da Osesp têm orgulho de tocar aqui, são dignificados por isso, são respeitados por isso.

APJ- Existem outras orquestras no Brasil com o mesmo nível de excelência da Osesp?

Neschling- Acho que não. Tem orquestras que estão tentando, mas não dá para comparar com a Osesp. Nenhuma delas.

APJ- Qual a sua porcentagem de responsabilidade nisso tudo?

Neschling- Até hoje, ainda é enorme. Os projetos foram todos bolados por mim, o trabalho é dirigido artisticamente por mim, em todos os sentidos, a academia, então a responsabilidade é enorme. Mas o importante é ter reconhecimento. Ganhamos muitos prêmios, mas não trabalhamos para isso. Os prêmios são conseqüências do nosso trabalho.

APJ- Quanto tempo é necessário para que uma orquestra do nível da Osesp passe por uma transição como a que vai sofrer em 2010 com sua saída?

Neschling- Pode demorar cinco, dez, 20 anos. Depende do trabalho, dos músicos, das transposições. Mas quanto mais tempo melhor. Mas isso não é comigo, não sei como isso vai funcionar.

APJ- Olhando tudo isso que construiu desde 1997, não dá um “aperto” deixar a Osesp?

Neschling- Eu não quero falar sobre esse assunto.

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Em Bauru

Concerto da Osesp 11 de julho, 20h - (Parque Vitória Régia)

Quarteto de cordas 9 de julho, 18h -(Sesc)

Quinteto de sopros 9 de julho, 20h - (Teatro Municipal)

Quinteto de metais 10 de julho, 20h - (Teatro Municipal)

Concerto do coro de câmara da Osesp 10 de julho, 18h - (Paróquia de Santa Terezinha)

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