Existe um roteiro infalível para o turista não misturar 1.500 anos de história. Tudo começa no Centro de Interpretação da História no Castelo de la Concepción, sob uma das cinco colinas da cidade. O acesso é feito por um elevador panorâmico de 45 metros de altura.
O castelo é a chave para se conhecer os aspectos mais importantes da história e da evolução da cidade ao longo dos séculos. Depois, o visitante pode escolher um dos itinerários temáticos, de acordo com a preferência e tempo disponível.
Se a decisão recair na “Cartagena Milenária”, o turista vai para o Centro de Interpretação da Muralha Púnica. Lá, ele vai ter uma aula no cenário de muitas batalhas. Com um pouco de imaginação pode até ouvir o som da fúria dos enfrentamentos.
Aníbal, o dos elefantes, venceu os romanos em várias batalhas na Itália, mas cometeu o erro de não marchar sobre Roma. Fincou posição no norte da Bota, sentado nos louros da vitória. Até que Cipião, o Africano, reorganizou as legiões romanas e acabou derrotando e expulsando Aníbal.
Continuou a perseguição além mar, até a Península Ibérica. Nesse território venceu novamente o que restou do exército de Aníbal. As Muralhas Púnicas foram insuficientes para proteger a cidade do assédio das tropas de Cipião.
Cartagena passou, então, a pertencer aos romanos, que assim cortaram a fonte principal da riqueza e poder de Cartago no Mediterrâneo. A sede do império cartaginês era do outro lado do mar, onde hoje é a Tunísia.
Na Terceira Guerra Púnica (146 a.C.), outro Cipião, o Emiliano, deu o golpe de misericórdia em Cartago e mandou jogar sal no solo “para que ali nada mais crescesse”. Seguiu o conselho de Catão, depois de ver frustradas duas tentativas de Roma de viver em paz com os cartagineses: “Cartago precisa ser destruída” (delenda est Cartago).
Queda do Império
Cartagena viveu no período de Augusto, no fim do último século antes de Cristo e início da nossa era, sua época de maior esplendor, refletidas em magníficas construções de mármore. Tinha um estatuto jurídico privilegiado, só comparável ao da própria Roma.
No ocaso do Império Romano, vieram os bizantinos, os vândalos, os visigodos e, a partir do ano 713, os árabes, quando Abdelaziz vence o exército hispano-visigodo de Teodomiro em Cartagena. No Monte de la Concepción ainda se vê construções islâmicas no local que foi mesquita e fortaleza. Uma torre erguida pelos árabes, onde se acendiam fogueiras no topo, era o farol (Linterna) da cidade e um dos vestígios que revelam a presença desse povo.
As tropas castelhanas conquistaram a cidade em 1245. Cartagena voltou a viver anos de prosperidade no reinado de Alfonso X, o Sábio. No século 18 foi designada capital do Departamento Marítimo do Mediterrâneo por Carlos III. Tornou-se base das galeras da Espanha. Uma grande muralha, perfeitamente conservada, foi mandada construir pelo rei para proteger a cidade e as instalações do porto.
Os arqueólogos continuam escavando o solo de Cartagena e descobrindo vestígios de antigas etapas de prosperidade, e também reflexos de crises e transtornos que precederam a cidade que hoje conhecemos. São segredos de uma história ciosamente guardada e que só nas últimas décadas a arqueologia começou a desvendar.
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Moderna
No Centro de Interpretação da História, no Castelo de la Concepción, outro dos itinerários que podemos eleger é o da Cartagena Moderna, onde encontramos vestígios de tempos mais recentes, como igrejas barrocas e edifícios modernistas.
O porto, com o seu calçadão à beira-mar, o submarino de Isaac Peral, o primeiro a projetar e construir esse tipo de embarcação do jeito das que hoje conhecemos nos dias atuais. A Muralha do Mar, o Parque das Artilharias, o Arsenal Militar, castelos e baterias de costas podem ser visitadas em excursões por lanchas turísticas.
Também existe um ônibus turístico com paradas nos lugares chaves que se deve visitar. Com uma única tarifa o turista pode desembarcar para conhecer cada patrimônio histórico e depois reembarcar.
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A cripta da ermida de São José
Como parte do conjunto conservado do Centro de Interpretação da Muralha Púnica, o turista visita a cripta da ermida de São José. São duas construções separadas por quase 2 mil anos e que nada têm a ver entre si.
No final do século 17, as confrarias de São José e de São João Nepomuceno construíram a cripta para enterro dos seus membros que pagavam para custear as sepulturas. As paredes dos nichos que guardavam os restos mortais eram decoradas com pinturas inspiradas na dança da morte da época medieval, lembrando a fugacidade da vida e a vitória da morte sobre os poderes temporais. Impressiona a figura de um esqueleto que pisa uma bandeira com a coroa real e a tiara pontifícia.
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Teatro romano de César Augusto
Na encosta da colina do morro de Concepción, dominando a cidade e o porto, os romanos construíram seu teatro nos finais do século I antes de Cristo. Foi quando Cartagena recebeu o status de colônia imperial e César Augusto começou um processo de monumentalização dos espaços públicos nas províncias para fazer o seu marketing pessoal.
Em forma de anfiteatro, o local foi o marco arquitetônico apropriado para a difusão das idéias políticas e religiosas do imperador. Ele estabeleceu as formas tradicionais do culto romano: culto de Marte, de Vênus e outros deuses.
As pregações políticas de Augusto tinham uma fachada republicana naquela época, como ainda praticado por muitos políticos brasileiros. O habilidoso Augusto preferia vencer pela diplomacia e uma boa conversa do que pela força das armas.
Do ponto de vista estrutural, o teatro impressiona pelo seu projeto arquitetônico e as técnicas de engenharia urbana adiantadíssimas para a época - quase 1.000 anos passados. As galerias abóbodas, o palco de 16 metros de boca e a fachada monumental devam uma visão do esplendor romano a todos aqueles que chagavam na cidade pelo mar.
E não menos embasbacados ficavam os espectadores que, desde o interior contemplavam a rica ornamentação em mármore branco filigranado. Havia até um fosso para a orquestra e três filas de assentos de honra.
A capacidade do teatro era para mais de 6 mil espectadores, grande até para os dias de hoje. Os espetáculos atraíam visitantes de toda a Península Ibérica, da Itália, da Sicília e da África, do outro lado do Mediterrâneo.
Todos os assistentes ocupavam lugares pré-definidos de acordo com sua posição jurídica e status social. Os mais humildes - a “galera” - logicamente ficavam na galeria dos fundos - pelo menos também tinham acesso à cultura.
Augusto não deixou descendentes diretos. Os filhos do seu enteado Tibério, os jovens príncipes Caius e Lucius, foram os patronos da obra. Houve um incêndio no final do século 2 e o teatro nunca recuperou seu antigo fausto. A construção que sobrou serviu de mercado público e, durante a ocupação bizantina no século 6, surgiu um bairro comercial no mesmo lugar.
Hoje, depois de 20 anos de trabalhos arqueológicos ininterruptos, a recuperação do teatro romano de Cartagena é uma realidade. Ressurgiram muitos dos elementos que o compunham, como os passeios que conduziam à Porta da Cidade e às áreas ajardinadas.
O Museu do Teatro, aberto a visitas, abriga as principais peças ornamentais das ruínas. O acervo conta como foi a época e como viviam os cartagineses. A instituição complementa a oferta cultural desse denso passado histórico.