Economia & Negócios

Mercado de trabalho valoriza mulheres

Por Gabriel Ottoboni | Com Redação
| Tempo de leitura: 5 min

Gestora de recursos humanos, a psicóloga Karina Gobbi, 32 anos, faz parte de um universo que não pára de crescer. Cerca de 80% dos colaboradores da empresa de alimentação coletiva onde ela trabalha são mulheres. “A mulher está tomando conta do mercado de trabalho”, diz. “Por lidar diretamente com clientes, as mulheres têm mais sensibilidade e jogo de cintura”, avalia Karina. Elas também ocupam posição de destaque em cargos gerenciais no estabelecimento. “A maioria dos currículos que recebemos é de mulheres”, conclui.

O exemplo dela é apenas um entre muitos. Estudo encomendado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) ao Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), denominado “Anuário do Trabalho na Micro e Pequena Empresa”, aponta que as mulheres brasileiras têm cada vez mais conquistado seu espaço no mercado de trabalho formal, principalmente em três grandes setores da economia: comércio, serviços e indústria. A única área que apresentou decréscimo foi a da construção civil.

O estudo do Dieese mostra que, entre os anos de 2002 e 2006, o setor da indústria é o que apresenta maior representatividade nessa conquista, onde a participação feminina passou de 31% para 32,9%. Por outro lado, houve diminuição de postos de trabalho ocupados por homens, embora ainda ocupem a maioria das vagas nos quatro setores pesquisados.

O conhecimento e a dedicação ao trabalho fizeram com que as mulheres ganhassem espaço na indústria. A opinião é do empresário José Luiz Miranda Simonelli, titular do Departamento de Ação Regional (Depar) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) em Bauru. Embora observe que o crescimento do número de mulheres seja pequeno, ele afirma que a maior participação feminina ocorreu em virtude da automatização do setor.

“Antigamente a questão da força física era muito importante. Atualmente, toda a indústria, com a revolução tecnológica, não exige que a força física tenha um papel determinante”, completa.

Para os próximos anos, ele afirma que a tendência é de crescimento mais acelerado. “Àmedida em que o País evolui tecnologicamente e incorpora indústrias de tecnologia, começarão a abrir postos (de trabalho) para as mulheres”, explica. Simonelli aplica a mesma teoria à área da construção - único setor onde a participação feminina caiu, e ainda assim, apenas 0,5 ponto percentual (de 8% para 7,5% em participação no setor). “A presença delas nessa área é pequena por conta disso (força física). O mercado da construção civil é resistente a novas tecnologias”, define.

Comércio

Já a participação feminina no comércio passou de 41,5% para 43,1%, segundo o estudo. De acordo com o presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), Benedito Luiz da Silva, a realidade na cidade também é de avanço na participação feminina. Uma pesquisa realizada em dezembro de 2006 na Zona Sul de Bauru revelou a existência de 420 empresas. No ano passado, o levantamento foi repetido e o número de empresas quase dobrou, chegando a 800 - com exceção do setor de serviços. “Constatamos que 60% dessas pequenas empresas eram tocadas por mulheres”.

Ele explica que a participação da população no mercado de trabalho formal vem aumentando significativamente, porém, com maior incidência para o sexo feminino. “Hoje é comum ter mulheres em lojas de material de construção fazendo vendas. O mesmo se aplica a postos de combustíveis, onde a maioria dos frentistas é de mulheres. Eram profissões essencialmente masculinas”, destaca.

Outro detalhe importante para esse dado é a maior capacidade de adaptação e aprendizado. “Noto quando fazemos cursos de capacitação do comércio na Associação Comercial que até 90% da freqüência é feminina. A mulher é mais dedicada e tem maior facilidade de se adequar às empresas”.

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Serviços

De 2002 a 2006 (período da pesquisa do Dieese), a participação das mulheres no setor de serviços cresceu de 48,1% para 49,3%. Assim como foi observado nos anos anteriores, a construção é a única área em que o número de mulheres apresenta decréscimo, passando de 8% (23.510.88) em 2002 para 7,5% (22.863.75) em 2006. No entanto, são essas poucas mulheres presentes neste setor que recebem os maiores salários. Em 2006 elas recebiam, em média, 12,5% mais do que os homens.

Ainda na pequena empresa, o emprego feminino cresceu mais que o masculino, com participação subindo de 36,1% para 37,4%. O comércio foi o que apresentou maior ampliação da participação feminina, passando de 36,2% para 38,1%.

Por outro lado, a participação do homem vem registrando queda contínua em todos os setores. No comércio, a redução foi de 58,5% para 56,9%; no setor de serviços, de 51,9% para 50,7%, e na indústria, de 69% para 67,1%. A construção foi o único setor que registrou crescimento na participação masculina: de 92% para 95%.

Jair Wágner de Souza Manfrinato, vice-diretor do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) em Bauru, destaca que as mulheres ocupam cada vez mais cargos de “primeiro escalão”. E elas vão além. “Analisando o número de pessoas físicas que entraram no mercado de ações nos últimos quatro anos, a quantidade de mulheres é quatro vezes maior do que a de homens”, compara.

Já de acordo com Milton Debiasi, gerente regional do Sebrae em Bauru, as mulheres possuem características pouco observadas nos homens. “Elas são mais centradas, observadoras. Uma tarefa repassada a uma mulher tem retorno mais rápido. O ideal seria o equilíbrio, mas elas estão ocupando cada vez mais espaço”.

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Metodologia

Com base nos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2006, foram utilizadas informações de 6.073.056 micro, pequenas, médias e grandes empresas formais para a pesquisa do Dieese. Dessas, 2.241.071 declararam ter empregados, sendo 97,5% delas (2.184.934) micro e pequenas empresas (MPE) e 2,5% (56.137) médias e grandes empresas.

No que se refere à mão-de-obra, as MPEs pesquisadas empregam 13.248.527 pessoas. Já as médias e grandes empresas, 12.827.677. O dado confirma que as micro e pequenas são responsáveis pela maior parte dos empregos formais no País.

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