Gastronomia

Crus

Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 6 min

À primeira vista, sim, está cru. Mas antes que os apreciadores não habituados a esse tipo de prato demonstrem reprovação, vale recorrer ao ponto de vista do antropólogo Claude Lévi-Strauss: as noções de cru e cozido, entre outras, são determinadas culturalmente.

Ou seja, um alimento pode ser considerado cru por uma cultura e por outra, não. Um steak tartare, por exemplo, não passou por nenhum processo de cocção com calor. Mas a carne foi manipulada, condimentada e moldada pelo chef Erick Jacquin e certamente se distancia de um naco que acabou de ser trinchado do boi.

A origem desse clássico europeu remonta aos povos tártaros (que armazenavam a carne das caças já evisceradas sob as selas de seus cavalos e as consumiam à noite, cruas e temperadas).

A tradição francesa foi a difusora do bitki, prato de carne bovina introduzido no país pelos russos no século 17 e rebatizado como boeuf tartare.

O prato ganhou o mundo como steak tartare. Mas o fato de dispensar o fogo não torna o steak tartare um prato assim tão simples. Há procedimentos e técnicas, a começar da escolha da carne.

Steak tartare

Uma peça de filé mignon (700g), muito bem limpo e fresco, é o melhor. O indicado é moê-la em lâmina grossa, instantes antes de ir para a mesa. Uma dica é trabalhar sempre com a carne sobre gelo. “Preserva o frescor”, diz Jacquin.

Use uma vasilha dentro de outra com gelo, uma espécie de banho-maria invertido. Todos os condimentos devem ser colocados juntos, misturados de uma só vez, e rápido. Não se devem fazer correções de tempero.

Adaptação: “A receita leva óleo e gema de ovo. Coloco maionese que eu mesmo preparo (3 colheres) e que nada mais é do que ovo e óleo.”

Os condimentos: cebola (80 g), pepino tipo cornichon (60 g), alcaparra (60 g), catchup (3 colh.), mostarda de Dijon (2 col.), tabasco, molho inglês, ciboulette, sal e pimenta branca moída.

Obrigatório: batata frita à francesa (bem quente) e servir na hora. Para acompanhar, salada verde de folhas variadas - mache, alfaces crespa, lisa, mimosa, americana, rúcula...

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Dicas preciosas

Quando o prato pede o uso de carne crua, algumas regras devem ser respeitadas: as carnes escolhidas precisam ser sempre bem frescas. Os cortes devem ser magros e muito bem limpos.

Retire gorduras e nervos; para o steak tartare, há dois estilos: moer com lâmina grossa ou picar na ponta da faca. A segunda opção é para quem gosta mais da textura e do sabor da carne crua.

Use filé mignon ou patinho. O carpaccio original é feito com contrafilé cortado na faca. Salvatore Loi, chef do Fasano, em São Paulo, usa filé mignon e dois estilos de corte: o tradicional, na faca, e o milimétrico, na máquina de cortar frios.

Para quibes, use preferencialmente o patinho, ensina a família Moussa, da Casa Libano, também em São Paulo. Em kaftas, prefira o miolo do coxão mole ou a alcatra.

Em sushis, os cortes devem ter cerca de 5mm de espessura. Em sashimis, 3mm, explica Shin Koike, chef do Aizomê.

• Serviço

Restaurante Fasano. Tel.: (11) 3062-4000/3896-4000. Casa Líbano Tel: (11) 3313-0289. Restaurante Aizomê Tel.: (11) 3251-5157.

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Carpaccio de carne-de-sol

Ingredientes

6 fatias de carne-de-sol, fatiadas bem fininhas

Folhas de rúcula a gosto

1 tomate cortado em cubos

1 cebola cortada em finas fatias

1 a 2 colheres (sopa) de vinagre

Óleo de oliva a gosto

Sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto

Preparo

Distribua a rúcula no fundo do prato e coloque as fatias de carne-de-sol por cima. Numa tigela, misture o tomate, com a cebola, o vinagre e óleo de oliva. Tempere com sal, pimenta e deixe curtir um pouco. Derrame esse molho sobre a carne, decore ainda com algumas folhas de rúcula e sirva.

Kafta

Ingredientes

2,125 kg de carne moída duas vezes

2 xícaras de salsa fresca picada

½ xícara de hortelã fresco picada

1 cebola grande picada

1 colher (chá) de tempero sírio ou ¼ de colher (chá) de cada: canela em pó, cravo em pó e noz moscada ralada

1 colher (chá) de sal

½ colher (chá) de pimenta do reino a gosto

Preparo

No processador, pique a cebola bem fina. Adicione a salsa e hortelã até obter uma mistura homogênea, não líquida. Coloque a carne numa tigela e acrescente os ingredientes restantes, misturando bem. Coloque a tigela na geladeira, coberta. Deixe os espetinhos de molho na água por umas duas horas ou mais. Molde bolas do tamanho de um ovo com a mistura da kafta. Distribua-as por igual nos espetinhos.

Coma cru ou assado.

Charutinhos de carpaccio

Ingredientes

120 g de lagarto bem limpo, sem gordura, cortado em lâminas finas como para carpaccio

18 folhas de rúcula, lavadas e escorridas

Para o molho

Suco coado de um limão

½ xícara de chá de óleo de oliva

¼ de xícara de chá de aceto balsâmico

Sal e pimenta-do-reino moída a gosto

Preparo

Enrole as folhas de rúcula com as fatias de carne e apare as extremidades com uma faca afiada. Reserve refrigerado.

Numa vasilha, junto e suco de limão, o sal e a pimenta. Adicione o óleo de oliva aos poucos, batendo bem com um garfo, até encorpar. Depois de bem homogeneizado, acrescente aos poucos o aceto balsâmico, batendo sempre, até que se misture ao molho.

Sushi passo a passo

Ingredientes

Arroz de sushi

Gengibre (gari)

350 g de filé de atum

350 g de filé de peixe branco

1 pacote de kani-kama

2 pepinos (tipo japonês)

6 folhas de alga marinha (yaki-nori)

a lata pequena de raiz-forte (wasabi) em pó dissolvida em água ou 1 tubo pequeno de pasta

Preparo

Abra a esteira, cubra com a folha de acelga e espalhe o arroz por cima. Deixe 2 cm de alga na extremidade sem o arroz.

Passe um pouco de wasabi no centro, ao longo do arroz. Sobre o risco verde do wasabi coloque o recheio (atum, salmão, camarão fervido, etc)

Com a folha e o arroz bem grudados nesta extremidade da esteira, comece a enrolar, sempre molhando os dedos na água. O jeitinho japonês ensinado pelo restaurante Sea House, de São Paulo, é levantar a esteira com os polegares e segurar o recheio com os outros dedos.

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Reação química

Para quem ainda insiste que cru é cru, cozido é cozido (admitindo no máximo o malpassado e o bem passado), uma boa justificativa para encarar os prazeres da carne crua é saber que, na preparação dos pratos, os ácidos desses temperos todos, ainda que levemente, iniciam uma reação química de cozimento, o mesmo princípio do que ocorre nas marinadas.

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