Há algum tempo, parei o carro num sinaleiro no Centro da cidade. Triste, absolutamente alheio aos acontecimentos, percebi que alguém batera no vidro. Assustado, naquele instante, voltei para a realidade. Virei para a janela e vi um homem com olhar intenso e lágrimas caindo, pedindo-me para que baixasse o vidro. Abaixei-o, não sei dizer se por respeito, ou piedade, mas na certeza de que me pediria algo, pois se tratava de um “mendigo”. Então ele me disse: “Fique calmo! Não vou lhe pedir nada, apenas preciso lhe dizer para ficar tranqüilo, e que tudo vai melhorar na sua vida, vá com Deus!”. Só deu tempo de eu agradecer com um muito obrigado! O sinal abrira.
Aquela atitude penetrou na minha essência como algo absolutamente intrigante, sob dois aspectos: ao baixar o vidro, percebi que não havia lágrimas, e que a força daquela atitude despertou em mim algo que eu mesmo desconhecia sentir. A partir desse momento, busquei incessantemente o sentido para a minha existência, “procurando por Deus”, carregando na memória a força daquela atitude, cujo reflexo já havia enraizado na minha existência. Com força renovada, convidei-me a conhecer diversos “Templos”, das mais variadas crenças, respeitando todos os limites da razão, emoção e reflexão, sem me deixar enganar. Percebi que as pessoas que os freqüentam, independentemente de condição financeira, em sua grande maioria, são inconscientemente infelizes, e perderam, diante dos obstáculos impostos pela própria sociedade, a capacidade de interpretar o verdadeiro significado da essência da vida, tornando-se facilmente manipuláveis, diante da óbvia fragilidade emocional em que se encontram.
Nesse estágio, as pessoas tendem a ouvir somente aquilo que lhes interessam, desprezando, sumariamente, o que mais necessitam, fruto da interpretação equivocada dos valores: felicidade, respeito, amizade, humildade, honestidade, educação e, até mesmo, religiosidade; cujos “Templos”, em sua grande maioria, vincula-os à barganha comercial, como um “contrato de salvação individual”. Aprendi, nessa trajetória do autoconhecimento crítico, que a condição de ser “mendigo” não está relacionada à falta de acúmulo de riquezas, mas, sim, à falta de capacidade individual de transformar a vida de outrem. E que a força daquela atitude, envolvida por solidariedade, por mais simples que se possa apresentar, abre as portas do verdadeiro “Templo”, nas profundezas individuais de cada eu interior. Pois é potencialmente forte para mudar a vida de outras pessoas, e assim sucessivamente, como uma “corrente solidária” em busca pela conquista da “salvação social”. Só assim encontraremos Deus.
Essa é a função do verdadeiro intérprete de Deus, que se encontra dentro de qualquer um de nós, cuja essência da Vida deve ser representada por atos, contínuos, envolvidos por solidariedade; não pela Sofística, método de persuasão, adotado por falsos intérpretes, que se amparam por belas palavras contidas em inflamáveis discursos. Quanto às lágrimas, considerando-se que, naquele momento, encontrava-me entristecido. Hoje entendo, com absoluta convicção, que eram as minhas que refletiam no vidro, sobrepondo-se à imagem daquele rosto, cujo olhar, intenso de solidariedade, e palavras jamais os esquecerei.
O autor, Newton Martins Pina, é cientista jurídico do Biodireito Universal – newpina@ig.com.br