O Brasil mantém há 14 anos a maior taxa de juros real do mundo. Não há uma explicação razoável para este fato. As justificativas que ouço e leio por todo esse tempo não são nada convincentes. Na próxima quarta-feira o Conselho de Política Monetária se reúne para mais uma decisão sobre a taxa Selic. No verdadeiro cabo-de-guerra permanente entre Banco Central e Fazenda, discute-se, ainda, se a taxa deve subir mais, o que é um perfeito absurdo. Parece algo incompreensível a discussão desse fenômeno que não tem a ver com a estrutura econômica do Brasil de hoje. Na realidade, a origem do problema está no erro de política monetária cometido há quinze anos, quando começamos a financiar a dívida externa com papéis de prazos muito curtos, vencidos quase todos os dias. Um erro de política que não corrigimos e que foi capaz de produzir uma espécie de “milagre ao reverso”, a manutenção da maior taxa de juros real do mundo pelo período mais longo da história de nossa economia.
Todas as explicações que os economistas dão para este fato não mudam a história: há um erro de política monetária e ponto final. O Banco Central se defende da acusação de continuar com uma política demasiadamente agressiva em matéria de juros argumentando que se trata de uma atitude tempestiva para impedir a inflação produzida pelo excesso da demanda interna. Ele tem razão de se preocupar com a inflação planetária, como todos nós, mas há profundas divergências sobre o diagnóstico.
Em primeiro lugar, as demonstrações apresentadas sobre os efeitos do “excesso de demanda” são muito tênues. Estão fora do contexto, na realidade.Os dados do comportamento do consumo no mercado interno mostram que não houve, nem há, um excesso de demanda que justifique a defesa dramática da elevação dos juros por parte do Banco Central. Em segundo lugar, esta foi uma inflação importada do resto do planeta. Os preços subiram lá fora e é evidente que sobre eles não temos comando. Houve aqui uma valorização do Real de forma que esses preços foram internalizados em condições até mesmo suaves.
Não há divergência sobre o fato que temos um sistema bastante razoável de metas de inflação e que o Banco Central tem mesmo que ser autônomo. Ele é uma agência independente e afinal fará o que quiser, porque tem o mandato para fazê-lo. Não vejo impedimento, porém, de que haja uma discussão mais séria sobre o fato que não só temos a mais alta taxa de juros do mundo como fomos o país que mais subiu os juros desde que apareceram os sinais dessa inflação planetária.
Estou hoje convencido que o Banco Central exagerou. Uma coisa é certa: se o Copom, em lugar de ter aumentado em 175 pontos o juro nesses últimos meses, tivesse feito um aumento de apenas 75 pontos, o resultado seria rigorosamente o mesmo em matéria de inflação. O problema fiscal, contudo, teria sido melhor resolvido e haveria uma enorme economia de dispêndio de juros por parte do Tesouro.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br