“O que é ser normal?”. Com esse questionamento, o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, professor do Departamento de Ciências Humanas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, critica a intervenção da ciência na tentativa de controlar os comportamentos considerados compulsivos.
Ele explica que a idéia da normalidade foi construída historicamente e remonta à Grécia Antiga, época em que já se defendia a constituição de uma sociedade de contingência, ou seja, uma ideologia cujo objetivo seria conter anseios e, com isso, criar padrões de comportamento e manter a ordem social. “Controlar os desejos é a forma mais fácil de controlar o indivíduo. Se ele fica fora de controle, a coisa mais fácil é dizer que ele está doente e, portanto, não é responsável pelo que faz e alguém pode intervir”, analisa.
Se essa forma de controle se estendeu até os dias atuais, por outro lado, o mundo pós-moderno impôs um ritmo frenético de vida, de incentivo ao consumo e competitividade, em que se sobressaem aqueles que têm e podem mais. “Nós vivemos em uma sociedade pautada pelo mercado, que instiga o consumo de uma tal maneira que o indivíduo se divide entre obedecer àquela cultura da contingência ou responder aos anseios estimulados por esse mercado”, pontua o antropólogo.
Por isso, para ele, o sofrimento causado pelos comportamentos ditos compulsivos não está no ato em si, mas na culpa que a sociedade se encarregou de impingir àqueles que cometem excessos. Ciente da polêmica e da reação negativa que sua opinião pode causar, ele provoca: “Se eu sou dono da minha vida, não é meu direito morrer de tanto comer fast-food, por exemplo, se eu quiser?”, indaga ele, que confessa ter sido vítima de preconceito quando decidiu colecionar livros.
Em casa, ele chegou a guardar mais de 30 mil volumes. Por uma obra rara, de 1908, teve a ousadia de pagar “o valor de um Fusquinha”, como ele mesmo diz. “As pessoas diziam que eu deveria guardar dinheiro para comprar uma casa, mas era aquilo que me dava prazer.”
Até mesmo nas atitudes mais extremadas, Bertolli vê uma forma de “decisão consciente” e não um tipo de comportamento compulsivo diagnosticável pela psiquiatria. Para ilustrar tal opinião, ele se refere a um episódio ocorrido há alguns anos, na universidade em que trabalha.
“Uma vez, um aluno da Unesp sumiu e se trancou em um apartamento com a namorada. Eles ficavam deitados o dia todo juntos, não saíam da cama nem para ir ao banheiro, nada. Era uma idéia de viver aquela paixão radicalmente, até morrer”, relembra.
A trajetória mórbida dos jovens foi interrompida através de intervenção judicial, por mais que não estivessem prejudicando terceiros. “Isso mostra como as pessoas não têm direito sobre suas próprias vidas. Não são donas dos seus destinos”, acrescenta.
“Por isso, para não serem condenadas pela sociedade, as pessoas tem de criar uma performance, uma fantasia de pessoa equilibrada. Tudo precisa ser em doses reduzidas: o amor, o desejo, o medo, a fome, a luxúria e assim por diante”, finaliza.