Com mais da metade dos anos vividos dedicados à educação, Ana Maria de Carvalho Guedes, 60 anos, tem como grande paixão o seu trabalho. Foi por meio da sua profissão, exercida até hoje, que a professora considera ter se tornado uma pessoa independente e realizada.
Cheia de simpatia e determinação, Ana Maria conta sua trajetória, fala do seu amor pela profissão e da sua relação com os milhares de alunos que já receberam seus ensinamentos. “Eu gosto muito do que eu faço, não quero parar”, declara a professora que, apesar de aposentada, dedica-se à preparação de pessoas para concursos públicos e vestibulares.
Além de ter sido professora de diversas escolas públicas e particulares de Bauru, Ana atuou também em cargos ligados à cultura e educação. Foi a primeira coordenadora da Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes, instalada em 1990. “Foi uma das experiências mais maravilhosas da minha vida”, recorda.
É com alegria também que Ana Maria lembra os tempos de adolescência, dos típicos bailes dos anos dourados e fala do seu engajamento político e amor pela cidade que adotou de coração. Nascida em Tupã (SP), a professora veio para Bauru com apenas 6 anos, quando o pai foi convocado para trabalhar na contadoria da Noroeste do Brasil.
Depois de uma vida de realizações, o que a professora quer mesmo é continuar dedicando-se ao ensino, à família e aos amigos, suas outras paixões. Acompanhe, a seguir, os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Como nasceu o seu interesse pela profissão de educadora?
Ana Maria de Carvalho Guedes - Todo o ginásio eu estudei no Colégio São José e logo na 5.ª série, eu tinha muito interesse por latim, português e inglês e já falei para os meus pais que iria ser professora. Na verdade, eu praticamente defini a minha carreira, o que seria a minha profissão, aos 11 anos. É bom lembrar disso porque eu fico muito feliz por ter tido a oportunidade de trabalhar com a profissão que eu escolhi realmente. E é um privilégio trabalhar no que se gosta. Se todos tivessem essa sorte, com certeza, as pessoas seriam mais felizes e, consequentemente, o mundo também.
JC - São quantos anos de profissão?
Ana Maria - São 33 trabalhando diretamente dentro de salas de aula. Comecei em 1969, quando eu estava no 3.º ano do curso de letras. Eu fui trabalhar em uma escola em Pirajuí. Lá, eu dei aula até 1973 e, depois, vim para Bauru, onde trabalhei em várias escolas públicas e particulares. Me aposentei em 1995, mas continuei dando aulas até 2002. Hoje, eu trabalho preparando alunos para concursos públicos e vestibulares.
JC - O que significa o seu trabalho para a senhora?
Ana Maria - É uma dedicação que faz muito bem para mim e para as pessoas com quem eu convivo. Eu sou uma pessoas bastante realizada com o que eu faço. Adoro shopping, e quem não gosta? Mas só de vez em quando. Estou em um momento em que quero me dedicar à família e continuar investindo na minha profissão.
JC - Parece que não pretende parar com as aulas tão cedo, então?
Ana Maria - Não. Eu gosto muito do que eu faço, não quero parar. É um trabalho com efeitos bilateriais e é por isso que eu não deixo a profissão. Você está ensinando e aprendendo o tempo todo. Você se relaciona com pessoas com intuito de promovê-las. Você acompanha o desenvolvimento, a conquista e o sucesso das pessoas.
JC - É isso que a senhora considera a maior gratificação do seu trabalho?
Ana Maria - Com certeza. Eu trabalho com o conhecimento e, para mim, é a melhor coisa que existe no mundo. Faz com que eu viva permanentemente estudando e acompanhando o crescimento das pessoas. Eu pude acompanhar gerações. No início do ano 2000, eu já estava dando aula para os filhos de ex-alunos. Ver um aluno que começou com você em uma universidade, com o mestrado em mãos, nada disso tem preço.
JC - A senhora trabalhou mais com crianças ou adolescentes?
Ana Maria - Comecei com criança, depois optei pelos adolescentes. Eu gosto muito da juventude; com eles, você aprende todo dia. A adolescência é uma fase em que as pessoas estão buscando a amizade, o diálogo e as dificuldades que eles têm, eles querem contar. E o professor é uma das pessoas mais procuradas para isso. É um período não apenas de trabalhar com o conhecimento, mas também com as emoções. E de modo geral, sempre tive uma relação ótima com todos os alunos.
JC - O que destacaria dessa trajetória?
Ana Maria - Durante a minha vida, eu ocupei vários cargos públicos de confiança na área de educação e cultura, mas eu sempre tive o meu emprego, fruto de quatro concursos públicos. Trabalhei em projetos de língua portuguesa, com assuntos comunitários, fui delegada regional de Cultura. E em 1990, eu pude participar diretamente de uma grande conquista de Bauru, que foi a instalação da Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes. E eu fui coordenadora da oficina desde a inauguração até o final de 1994.
JC - Como foi essa experiência?
Ana Maria - Foi uma das experiências mais maravilhosas da minha vida. O trabalho na oficina possuía duas vertentes: formação e difusão. Eram oficinas de formação em diversas áreas da cultura, pelas quais passaram muitas pessoas. E para a difusão de cultura tínhamos convidados para apresentações musicais. Era uma luta árdua em busca de patrocínio, mas valia a pena. Tivemos muitos nomes que vieram e gostaram de Bauru, como Claudete Soares, Alaíde Costa, Tom Zé e mais uma infinidade de músicos. A bossa nova foi bem prestigiada.
JC - É o seu estilo de música preferido?
Ana Maria - Eu amo toda a MPB. A minha juventude foi muito rica. Eu falo que igual a juventude dos anos 60 não vai existir mais, me desculpem vocês, jovens (risos). Nós tivemos bossa nova, tropicália, vimos o surgimento de Elvis, dos Beatles. Presenciamos momentos políticos pesados, no qual surgiram nossas maiores expressões como Chico (Buarque), Caetano (Veloso), (Gilberto) Gil. Nós tivemos tudo, quase que não deixamos nada para ninguém!
JC - E você freqüentava os típicos bailes da época? Foi uma dama dos anos dourados?
Ana Maria - Eu participava de todos. Em Bauru, na década de 60, havia dois clubes que promoviam bailes memoráveis - o Clube dos Bancários e o Bauru Tênis Clube. Eram os clubes que faziam os bailes dos anos dourados mesmo. Foi a época dos grandes bailes e dos grandes carnavais. E eu, desde 63, já namorava meu marido. A gente pôde ter uma juventude muito romântica e usufruímos muito esse período.
JC - E como eram esses bailes?
Ana Maria - Eram glamourosos. E eu tive uma grande sorte, porque minha mãe era costureira, bordava e enfeitava todos os meus vestidos e da minha irmã, Lourdinha. A cada baile, era um vestido novo, sempre longos e muito bonitos. Era a época do cabelo com muito laquê e o vestido com muito bordado. Eu lembro muito de uma senhora, a dona Antônia Sampaio, que era uma grande companheira minha e das minhas amigas. Ela levava um monte de meninas para os bailes e ficava esperando a gente para voltar, porque tínhamos que retornar para casa a pé, depois das festas. Ela é uma pessoas que marcou as nossas idas e vindas dos bailes. O cinema também era o grande lazer da época. O Cine São Paulo, localizado no Centro de Bauru, era o “point”. A sessão das 20h então, era concorridíssima. Lembro que nós tínhamos que chegar às 18h para ficar em uma fila imensa, que virava a esquina, para conseguir um lugar. Foram anos de muita curtição, colegas e namoros.
JC - E hoje, o que a senhora gosta de fazer no tempo livre?
Ana Maria - Ainda adoro cinema. Eu falo que eu não fico quase que um dia sem ver um filme. Além de hobby, é vício. Mas costumo dizer que eu tenho três partes e divido meu tempo entre elas: meu trabalho, minhas netas e meu marido com os amigos. No final de semana, é dia do meu marido e eu sairmos juntos com os nossos amigos. Nós temos um grupo de amigos que não abrimos mão e saímos todos para tomar um chopp, bater papo e isso faz muito bem. Eu acho que o cultivo de amizades, principalmente nessa idade, é fundamental. Ninguém pode reclamar de monotonia e rotina.
JC - Voltando a sua adolescência, é desse período que já vem também o seu lado como militante política?
Ana Maria - Sim, o período de regime político duro propiciou bastante esse engajamento político. Desde a década de 70, eu e meu marido, apesar de termos divergências como todo casal, temos um grande privilégio: a identidade cultural e política. Nós sempre militamos, na época éramos pelo PMDB, e é muito bom, por exemplo, quando vemos imagens do comício das “Diretas Já”, lembrar que estivemos lá, que participamos desse tipo de luta.
JC - E hoje, qual a sua relação com a política?
Ana Maria - Atualmente, eu estou filiada ao PV. Mas eu acredito que a identidade e os ideais não estão dentro de uma redoma. Nós encontramos pessoas com os mesmos anseios nos mais diversos partidos.
JC - Os seus anseios, quais são?
Ana Maria - Que o meu trabalho sempre represente uma contribuição. Como é difícil pensar em uma dimensão macro, temos que pensar, pelo menos, no espaço em que atuamos, seja no trabalho, na família, na amizade, procurando manter relações de lealdade de solidariedade.
JC - E o que a desagrada na política?
Ana Maria - Eu acho que nunca se deve negar as várias contribuições de cada pessoa que passa pelo poder. Anular as contribuições passadas e, principalmente, as que deram novo impulso à cidade, é o que mais me desagrada. Eu acho muita ingratidão, é não ter capacidade de enxergar as coisas que foram feitas. Para mim, essas pessoas que não querem enxergar, talvez, não tenham sido educadas para isso, ou muitas vezes, é má-fé mesmo. Não digo que essas pessoas deveriam ter apanhado de cinto, mas uns tapinhas na bunda, elas mereciam!
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Perfil
• Nome: Ana Maria de Carvalho Guedes
• Idade: 60 anos
• Local de nascimento: Tupã (SP)
• Marido: José Antônio Guedes
• Filhas: Daniela, Gustavo e Cristina
• Hobby: Cinema
• Livro de cabeceira: “São Bernardo”, de Graciliano Ramos
• Filme preferido: “O Carteiro e o Poeta”
• Estilo musical predileto: MPB
• Time: Corinthians
• Para quem dá nota 10: Para as pessoas justas
• Para quem dá nota 0: Para aqueles que buscam ocultar a verdade