Antônio Martins é um frio e cínico crítico teatral. Observador não somente de peças, mas também de pessoas, tem seu universo transformado quando conhece Inês, que não possui uma perna e cuja personalidade é oposta à do crítico. Inês desperta uma paixão incontrolável em Antônio. Porém, a jovem mantém uma relação dúbia com o pintor José Torres Campana, famoso por seus quadros eróticos que têm como modelo o próprio artista e a jovem. Com um ciúme doentio, Antônio entra em uma espiral de ansiedade, perturbação e ilusão.
“Crime Delicado”, de Beto Brant, é um retrato não somente da diversidade da vida, mas de contradições que nos levam a sofrer: ambigüidade de sentimentos, visões pré-concebidas sobre o ser humano e insensibilidade frente a situações novas. A última seqüência do filme nos traz o único caminho para a vida, ou seja, a libertação das muletas e a confrontação do que somos realmente.
A princípio, a palavra grega sophrosyne pode ser traduzida para o português como reflexão, meditação ou introspecção. Os antigos gregos, porém, utilizavam esta expressão em um sentido mais profundo. Sophrosyne não se reduzia a um simples pensar sobre coisas, fenômenos ou situações, mas em um exercitar a razão em busca de um equilíbrio de todo o ser, em busca da utilização correta de todas as forças existentes na alma humana. Os gregos procuravam alcançar o controle ideal sobre seus afetos, paixões, inclinações, enfim, sobre todas as forças que surgiam em seu interior.
O controle, aqui, não significava de forma alguma uma espécie de repressão, poda ou censura dos impulsos naturais, como se estes fossem um mal em si. As paixões, os afetos, as inclinações humanas eram compreendidas como manifestações interiores de tudo o que há de mais natural no ser humano. Em uma expressão moderna, as paixões, afetos, instintos e inclinações são forças, a princípio obscuras, que no ser humano se encontram e do inconsciente afloram para uma realidade consciente.
Estas manifestações são então julgadas pela razão consciente e ao se manifestarem em um mundo moral não são indiferentes aos valores. Elas, porém, são, a princípio, moralmente indiferentes, ou seja, estão fora dos padrões do bem e do mal. Estas forças interiores formam, construindo ou destruindo, um fortíssimo material tanto em intensidade como em conteúdo, um mundo interior tão rico, interessante e fantástico como o mundo exterior.
Paralelamente a esta visão sobre a natureza humana, desenvolveu-se desde a Antigüidade uma concepção negativa do homem e com ela teorias moralistas que pregam o quanto são más, perigosas e destrutivas as nossas forças instintivas. Deste medo diante do “animal” que existe em seu interior, o homem desenvolveu práticas ascéticas de poda e destruição de suas paixões. A ascese como caminho de purificação e aproximação de Deus foi absorvida pelo Cristianismo inicialmente nos mosteiros se generalizando na Idade Média como prática do verdadeiro cristão.
Uma triste moral marcou, então, o continente europeu cristão com uma visão negativa do mundo e do homem distanciando-se da mensagem otimista e libertadora de Jesus Cristo. O ser humano era compreendido como escravo de uma natureza pecaminosa possuindo como único caminho de salvação o sofrimento e a privação de todo o prazer existente na vida. Muitas pessoas, com um medo consciente ou inconsciente de sua própria natureza, acabam, mesmo nos dias de hoje, se refugiando em uma religiosidade rígida e castradora criando para si um Deus que condena a própria natureza que criou.
Estas pessoas trilham, na verdade, um caminho de frustração e não chegam compreender a mensagem de Jesus Cristo. Com a influência destas visões negativas sobre o mundo e o ser humano, por muito tempo deixou-se de compreender que os afetos e todo o prazer que a natureza humana busca pertencem à raiz da vida emocional, a impulsos da alma, materiais que, na verdade, mantém a vida humana e a base do seu desenvolvimento em busca da plenitude. Ao simplesmente reprimirmos nossos desejos e nossa força interior, acabamos por anular nossa própria vida. Aqui está a pobreza ética da ascese.
Do nada, ou seja, da anulação de nossa personalidade não podemos desenvolver nenhum valor. Para toda construção interior o mundo dos afetos é o terreno fértil e promissor. Tudo que possuímos em nosso ser constitui-se em um material que podemos trabalhar e moldar para a nossa felicidade e harmonia com os outros e com o mundo. Muito mais úteis do que a repressão e a obediência cega às normas moralistas são o conhecimento de nosso ser que nunca é igual ao dos outros e a sabedoria de interagirmos com todos os sentimentos utilizando-os positivamente para a realização do sentido da vida.