Política

Leme aposta na pesquisa de caderneta

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 10 min

Um candidato humilde, de linguagem simples: popular, do gênero que entrou “na chuva sabendo que ia se molhar”, que não faz cerimônia para atirar em adversários, mas que também torce o nariz quando é indagado sobre suas verdadeiras intenções políticas na participação da disputa municipal deste ano. Este é o candidato José Leme (PHS), cujo ingresso na disputa contraria o próprio comando estadual do partido e cujos indicadores de intenção de voto apontam para o abismo da última colocação, conforme a mais recente pesquisa eleitoral (Ibope/TV TEM).

E se o assunto é pesquisa, que o posiciona com 100% de queda – saindo de 1% para 0% entre as medições de agosto e setembro – José Leme tem logo uma tirada: “não acredito em pesquisas”, “só acredito na pesquisa da rua e estou crescendo”, diz o candidato com linguagem mais popular da disputa neste ano, daqueles que acreditam que o dedo polegar estendido no corpo-a-corpo (sinal de positivo) significa compromisso de voto.

Popular ou folclórico, engajado ou a serviço de terceiros, o candidato José Leme cumpre na edição de hoje, democraticamente, seu espaço na série individual de entrevistas com os candidatos a prefeito:

Jornal Cidade – Como o senhor enfrenta a dificuldade na captação de recursos de campanha, situação que se acentua com baixos indicadores eleitorais?

José Leme – A dificuldade nesta eleição, está sendo uma das grandes dificuldades. E isso é tanto comigo, como com os demais candidatos. O problema maior é que, com a mudança da lei, deu uma fechada no cerco e as empresas não gostam de aparecer, mesmo sendo legal a doação. Mas devido esse fechamento na lei e aos muitos escândalos, muito abuso de poder econômico, os empresários se chocaram e afastou. E existe uma falta de interesse político dos empresários pelo que ele vê na cidade, pelo que não acontece. Ele não vê melhorias, não vê nada e passa a se desinteressar um pouco na política.

JC – Que peso o senhor dá para esse distanciamento do empresariado em relação à política?

Leme – O problema é que os empresários esperam, por exemplo, vamos citar o Distrito Industrial II, e no um também e no três, empregam vamos supor, 1.500 empregados e às vezes precisam de um asfalto que passe na frente da fábrica dele. Eles precisam de um pouco mais de incentivo. Se eles dão emprego para a população, eles têm de ter um pouco mais de carinho, de atenção. Isso é para qualquer prefeito.

JC – A esta altura, a menos de 30 dias do primeiro turno da eleição, o senhor está na pesquisa muito longe de ir para um eventual segundo turno. Como assimila isso?

Leme – Tenho visto assim uma repercussão muito forte do meu nome, embora eu sinto, às vezes, o eleitor. Eu não acredito em pesquisas e nunca acreditei, nem quando alguns amigos estiveram, ai na região, na frente de pesquisa, e acabaram perdendo a eleição. Eu tive casos ai em outras cidades que às vezes parentes meus perderam a eleição e estavam na frente. Perdeu nos dois, três, últimos dias também de chegar a eleição. Pesquisa é momento e ainda tem mais uns 20 dias para trabalhar em cima. Ás vezes, pelo desgaste de uma administração, que é o caso da atual, passa-se para a cabeça do eleitor um interesse de mudança. Isso é a primeira coisa. E segundo que em uma boa conversa com o eleitor, onde se trata a palavra convencimento, do corpo-a-corpo, que é o mais necessário para uma campanha, ai você convence as famílias, dentro das casas, nas portas de fábricas, onde você faz o contato direto.

JC – Mas como é possível reverter um resultado onde você aparece como último nas intenções de voto?

Leme – Eu vou dar uma virada agora, eu sinto, eu não estou fazendo uma pesquisa particular porque não tenho condições financeiras. Se eu pudesse eu contrataria por exemplo o Gallup, o Data Folha, para ter uma pesquisa real, uma pesquisa verdadeira. Agora com a relação ao sentimento do eleitor, eu percebo, quando eu paro o carro em um cruzamento, às vezes tem em ponto de ônibus, onde as pessoas querem me cumprimentar, as pessoas fazem sinal de positivo e esse gesto para mim é sinal de alerta que as pessoas estão querendo e acreditando em mim.

JC – Mas isso pode ser só um cumprimento, por reconhecer o senhor da campanha na TV?

Leme – Não, porque o segredo de um eleitor não é só falar um oi, mas é o positivo. Na língua do bauruense, o segredo é o positivo. Quando a pessoa cumprimenta só e não faz o positivo, ai você percebe que a pessoa te cumprimentou só porque você é o candidato. Mas se a pessoa faz assim para você (fez o gesto de positivo com a mão) é conta comigo. É um meio também de eu entender. Eu vou triplicar minha votação, eu estou sentindo, estou fazendo casa por casa. Eu sei que estou em desvantagem na campanha, tenho meu trabalho, tento fazer meu trabalho em dois dias por semana e assim que sobra um tempo, agora eu vou ficar até à noite até altas horas, eu vou até altas horas. A repercussão eu estou sentindo, já está crescendo. Eu tenho levado uma caderneta comigo no bolso, aliás eu carrego a caderneta. Eu vou conversando com o eleitor e vou perguntando quantas pessoas tem na casa. Ah, eu tenho cinco pessoas, sete pessoas. Eu faço essa sondagem, ai eu sinto, porque eu mesmo estou fazendo a pesquisa e o maior interessado sou eu. Eu simplesmente não sinto em pesquisa.

JC – Mas a caderneta é uma pesquisa sua então?

Leme – É pesquisa pessoal, vamos falar assim. Eu acredito nessa e da seguinte forma. Eu passei a acreditar da seguinte forma: quando eu chego em um bairro, eu pergunto assim quantas pessoas você tem na casa. Ai eu já pergunto, o senhor está comigo ou não está? A pessoa diz, olha você deixa o santinho que eu vou votar para o senhor, vou votar, o senhor é o único candidato da mudança, estou vendo a proposta na televisão. Eu estou sentindo assim. Num total de cinco eleitores, três eleitores naquela casa votam em mim, quando demonstram, nos meus olhos, olha me deixa o santinho que eu vou votar. Quando eu entro em uma roda eu também converso, abraço, tomo café. Eu anoto na caderneta. Então eu faço outro estilo de campanha.

JC – O senhor bate na tecla que é o candidato da mudança, mas quem defende esta bandeira política é a Márcia Camargo, do PSOL?

Leme – Tudo bem, mas quem soltou essas primeiras frases foi eu. Ela copiou. Mas tudo bem, ela pode usar. Eu sou de mudança contrária à situação que Bauru vive hoje. Eu sou o candidato da mudança, está no meu primeiro programa. Depois que eu soltei na televisão, todos copiaram. Cada candidato tem seu perfil e fala direto nos olhos do eleitor. Eu eu soltei primeiro, o povo que vai julgar se eu mereço o voto ou não, se eu sou mesmo da mudança. Na prática eu entendo que eu sou. Agora, com relação ao programa meu, ele é totalmente diferente dos demais programas. E o meu programa não tem desvantagem em relação aos demais também.

JC – Exceto no tempo, onde seu programa fica muito em desvantagem?

Leme – Eu tenho um tempo menor, mas na hora que eu falo no vídeo, na televisão, eu passo para as pessoas um pouco de revolta, de seriedade com relação às convicções que eu também tenho. Não tanto quanto candidato, mas também como eleitor. Desabafo, é tristeza ver a cidade praticamente abandonada, de uma forma que não poderia estar dessa forma. O prefeito também deveria levantar de madrugada, atender a população, conversar com a população nos bairros, correr os bairros todos os dias. Eu acho que isso ai seria obrigação.

JC – Como o senhor faria se fosse o prefeito?

Leme – Acho que o prefeito tem por obrigação, saindo da segunda-feira, quando eu vou atender o pessoal na prefeitura, das 8 horas às 10 da noite, na terça-feira você já não acha eu na prefeitura, você vai achar eu no meio das obras, e eu acompanhando. E depois que o secretário pegar o perfil, ai eu vou deixar o secretário tocar a parte de obras. Se eu sentir que ele está dando conta do recado, eu dou uma acalmada. Se não entrou no eixo é mandado embora imediatamente. Por isso que eu já vou escolher um secretário no perfil do prefeito de Agudos, que é o Carlos Octaviani. Se caso ele aceitar o convite, ele é o secretário de Obras. E eu tenho certeza que com ele eu fico tranqüilo. Ele pega pesado na área de trabalho, não tem sábado, não tem domingo, é meu estilo.

JC – O senhor fala na TV no plural: vou asfaltar todos os bairros. Mas a população sabe que isso é impossível.

Leme – Dá para fazer todos os bairros. Vou explicar. Primeiro ponto, vou abrir licitação, vou primeiro fazer a terraplanagem, vou comprar máquinas, reformar máquinas. Quando você faz a terraplanagem, você vai cortar 50% o serviço de massa asfáltica, ou seja, o asfalto. Vamos supor, eu vou fazer uma licitação por exemplo no bairro Pousada da Esperança. Vamos supor que ali é o lugar que tem mais pepino. Vamos fazer primeiro a terraplanagem nas ruas onde não vai poder jogar o asfalto na hora. Então faz a parte do esgoto, deixou o esgoto em ordem, você vem com a terraplanagem e já vem com o asfalto. De que forma: se a prefeitura der suporte, e a usina der suporte, vamos fazer pela prefeitura. Se eu perceber que a usina está quebrando muito e eu não tenho dinheiro para investir na usina, no momento, eu vou fazer uma licitação pequena e vou fechar aquele setor. E eu vou buscar dinheiro no governo federal. Vou buscar dinheiro federal com o Abelardo Camarinha, que é meu amigo e vai trazer dinheiro.

JC – Se o Camarinha trouxer tanto recurso assim para Bauru vai perder o reduto em Marília?

Leme – Não, mas ele já disse pra mim que pretende ajudar Bauru, porque Bauru já foi ajudado e deputado de Bauru já ajudou Marília. Há muitos anos.

JC – Não encaixa Leme. A quantidade de asfalto a fazer é tão grande que não há como levar asfalto a todos os bairros?

Leme – Encaixa. É porque os prefeitos têm desperdício em vários setores. Tem assessor de mais, tem aluguel de mais. Tem desperdício com gasolina, tem desperdício com despesas, por exemplo, compra de computador, e não está vindo nada o extra. Do extra que virá do governo federal dá para fazer. E eu vou comprar maquinário. Vou comprar pé de carneiro, vou comprar rolo compressor, vou comprar caminhões, tratores, retroescavadeiras, motoniveladoras, tudo para poder fazer a base. Se a base tiver forte, o asfalto tem mais tempo de garantia.

JC – O senhor criou um problema político e jurídico em seu programa: fazer asfalto em todos os bairros, de graça, e conceder 30% de desconto no IPTU para a periferia. Como fará isso?

Leme – Eu vou levar o projeto para a Câmara e eles vão ter de aprovar. É isso que o povo quer, que os vereadores decidam isso. O povo não quer pagar o asfalto.

JC – José Leme. Querer é uma coisa, realizar com base na lei é outra. Não há espaço legal para dar desconto de IPTU só para quem mora em alguns bairros?

Leme – Eu prometo o asfalto de graça e acho que não é errado fazer se a Câmara aprovar. E eu vou buscar recursos em Brasília (DF). Tudo bem, eu não posso dar desconto de IPTU só para a periferia, mas pelo menos eles vão gostar disso. Se for inconstitucional eu faço emenda e dou 30% de desconto para todos.

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