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O dia que abalou o mundo


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Os desabamentos das Torres Gêmeas de 110 andares, em Nova York, em conseqüência dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, destruíram mais cinco grandes edifícios vizinhos e soterraram quatro estações do metrô. Outros 25 prédios do Distrito Financeiro de Manhattan foram seriamente danificados e contabilizadas mais de 3 mil mortes. Bem em frente ao World Trade Center, do outro lado da rua, ficou intacta a pequena capela episcopal dedicada a São Paulo, inaugurada em 1776 na presença de George Washington. Durante a tragédia serviu de refúgio a muitas pessoas. Durante oito meses seguintes foi o quartel general de centenas de voluntários que ali comiam, dormiam e eram massageados para continuar na dura lida de remoção dos entulhos a procura de corpos ou o que tenha sobrado deles.

Evito chamar de “milagre” a salvação da capela episcopal, porque a Igreja Cristã Ortodoxa de São Nicolau não teve a mesma sorte. Mário Quintana dizia que “o Destino é o acaso atacado de mania de grandeza”. É a explicação que encontro. Mesmo assim senti estranhas sensações quando entrei na St. Paul´s Chapel na semana passada, como é chamado o templo de estilo gótico-inglês (georgiano). Começa a mexer com a gente o pequeno cemitério no adro da igreja, constituído de sepulturas do século 18, a maioria de ex-combatentes da revolução contra os ingleses, que garantiu a Independência dos Estados Unidos. É estranho um cemitério na Wall Street, centro financeiro do mundo e ícone do sucesso do capitalismo como sistema econômico-político. Talvez esteja aí o motivo dos terroristas escolherem as Torres Gêmeas. Dois aviões seqüestrados foram dirigidos para impactar os prédios, em nome de Alá. No mesmo dia outras duas aeronaves participaram da terrível trama com alvos diferentes. Uma mergulhou contra o Pentágono, na Virgínia, e outra, provavelmente destinada à Casa Branca caiu na Pensilvânia, porque os passageiros decidiram enfrentar os terroristas a bordo, segundo vítimas chegaram a relatar a familiares, em ligações por celulares.

Volto à St. Paul´s Chapel, local onde os heróis da pátria, mesmo mortos, tiveram a oportunidade de servir ao país novamente. Os túmulos desgastados por 200 anos de chuva, vento, sol e neve serviram ao descanso e suporte do ferramental dos voluntários durante os trabalhos de emergência. Nos bancos da igreja foram apoiadas as macas das primeiras vítimas socorridas. A igreja virou um museu improvisado de lembranças de pessoas reduzidas a cinzas pelos 80 mil litros de combustível dos aviões. Vitrines guardam uniformes empoeirados de alguns dos 265 bombeiros que morreram no desabamento. Desenhos feitos pelas crianças para expressar sentimentos sobre a catástrofe revelam o otimismo próprio dos inocentes – bandeiras americanas, sol brilhante e bonecos sorridentes se repetem, como se elas acreditassem que o mundo pudesse ressurgir ainda melhor, depois da tragédia. Junto ao muro foi erguida uma cruz com vigas retorcidas de aço, resgatadas do monturo. É duro resistir à emoção.

O mundo mudou, desde 11 de setembro de 2001. Infelizmente não para melhor, como idealizaram as crianças. Novos sistemas rígidos de segurança foram implantados em todo o mundo. Até os sapatos passam pelo raio x nos aeroportos. Milhares de imigrantes ilegais foram deportados. Novas leis permitem invasões de privacidade como escuta telefônica e espionagem eletrônica, em nome da segurança do país. O Afeganistão foi o primeiro a ser invadido por ser o berço do Taliban e provável refúgio de Osama Bin Laden, o grande suspeito. A Guerra do Iraque ainda foi conseqüência, embora nunca tenham achado as tais armas de “extermínio em massa” de Sadam Hussein. As empresas aéreas perderam 60% dos passageiros nos dois primeiros anos. A Disneyworld ficou vazia durante muitos meses. Grandes anunciantes como a Nike e a Coca Cola suspenderam a publicidade em período equivalente. Quando a Bolsa de Nova York reabriu, no dia 17 de setembro, a queda das cotações foi de mais de 7%, índice pior do que o registrado na Depressão. A queda do moral do povo americano foi muito pior do que no evento Pearl Harbour.

O mais curioso foi o “baby boom” registrado nove meses depois dos atentados. Os casais novaiorquinos não saiam mais de casa e se cansaram de ver televisão. Gestantes tiveram que ser enviadas para estados vizinhos para darem à luz, porque as maternidades de Nova York não suportaram a demanda de bebês. Os sociólogos sintetizaram a análise da síndrome em duas palavrinhas: “terror sex”.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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