Política

Tuga garante ampla transição ao eleito

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 8 min

Os últimos 100 dias de mandato que estão sendo iniciados pelo prefeito Tuga Angerami serão conduzidos com a confirmação de pagamentos de dívidas e despesas fixas e a abertura da administração municipal para a realização de transição de governo pelo futuro eleito nas urnas. É o que afirmou Tuga Angerami em entrevista concedida ao JC, em seu gabinete, anteontem, no primeiro de seus últimos 100 dias de gestão.

O chefe do Executivo disse que vai garantir transição real, em uma referência às dificuldades que encontrou quando assumiu o governo em 1 de janeiro de 2005. Para Tuga Angerami, é preciso dar condições de que o próximo governante municipal disponha de todas as informações que julgue necessárias para preparar o início da nova gestão já a partir dos primeiros dias de janeiro de 2009.

Na entrevista exclusiva ao JC, o prefeito também falou sobre a fórmula da disputa nas urnas com possibilidade de segundo turno, sobre a propagação do caos da administração municipal no período eleitoral e de sua visão sobre as ações em andamento para concluir seu mandato.

Jornal da Cidade – Qual a expectativa do prefeito em relação aos últimos 100 dias de mandato? O que há para ser feito e a ser preparado?

Tuga Angerami – Do ponto de vista de ações da administração, de linha, não vai haver alteração. Vamos continuar até o final nos esforçando para deixar a área financeira em especial em ordem, com as dívidas negociadas, de perfil alongado. Ainda falta equacionar a questão do DAE e tem a questão do desequilíbrio atuarial. Esta já conversamos com a Câmara, estamos para enviar a proposta de aporte periódico ao Ministério da Previdência para ver como eles se manifestam. Nós vamos continuar exatamente mantendo coerência com o que foi a linha da administração neste tempo. Vamos pagar R$ 18 milhões de precatórios até o final do ano, o que daria para pavimentar 550 quadras de asfalto. Precatórios são decisões judiciais, a maioria de ações de desapropriações do passado, como da área do Sambódromo, e de credores da prefeitura de gestões passadas. São decisões judiciais definitivas, entre alimentares e não alimentares.

JC – Como o senhor vê o eleitor sendo submetido às promessas de campanha sem relação com as contas do passado que precisam ser pagas?

Tuga – Se eu fosse candidato à reeleição, ou se eu tivesse um candidato ligado diretamente a mim disputando a eleição, provavelmente esta discussão se daria. Agora é uma discussão que interessaria hoje muito mais à administração do que àqueles que estão na disputa. Há um reconhecimento dos candidatos de que esta administração tomou como decisão acertar o caixa, pagar as contas que deixaram do passado e deixar as coisas em ordem. Agora que esta decisão cause frustrações de expectativas, eu não sei se os candidatos têm interesse em discutir isso. Talvez quem mais tivesse o desejo de discutir isso fosse eu ou um candidato apoiado por mim. Talvez, depois das eleições, a partir do encerramento, num fechamento de mandato, a gente tenha tempo de dizer. As pessoas e mesmo a imprensa acabam discutindo só a questão financeira.

JC – O que falta discutir?

Tuga - Eu ouço muitos candidatos à vereança, candidatos a prefeito, falar de iluminação. Uma pesquisa apontou que iluminação era prioridade de 1,3% do eleitorado. Eu ouço com uma freqüência muito grande que precisa iluminar a cidade. Só que nós realizamos e não fizemos publicidade. Foram trocados 11 mil focos de luz, em um total de mais de 32 mil existentes. É um terço de tudo o que havia até hoje. E já pagamos R$ 1 milhão para a CPFL instalar pontos novos de iluminação, já tem 2.200 novos pontos pagos. E pagamos duas parcelas da dívida de R$ 10,5 milhões do passado com a CPFL. Até então não se trocava nem lâmpada. Mas não houve publicidade institucional. A comunicação da prefeitura sempre soltou matérias, que são publicadas. Mas a linguagem publicitária não houve, por falta de recursos. Ando muito mais preocupado com as coroas de espinho que eu mesmo possa colocar na cabeça do que as que os outros me põem. Construímos oito Cejas, estamos começando o nono, tem duas escolas Cemi, tem 22 escolas para reformar e ampliar, contratados ou em andamento, e com dinheiro reservado até 2009.

JC – O senhor não concorda com a propagação do caos na eleição?

Tuga – Eu ouvi isso muito e ouvi da própria mídia. Durante muito tempo houve a amplificação do caos. Quando nós chegamos não havia nem caminhão de lixo, ela era caótica, mas hoje não é. O Samu tinha quatro ambulâncias e funcionavam três, hoje temos 11 e compramos mais três para o atendimento social na saúde. O Samu ficava em lugar precário, agora tem uma sede nova, com sistema de comunicação até com registro das conversas se necessário, se houve ou não o atendimento e porque. Na coleta do lixo tem regularidade hoje. Agora se você sair em uma região e encontrar sacos de lixo fora do dia da coleta programada então encontra, Mas aí é questão da população, lamentavelmente. Infelizmente muitos não limpam nem a frente da própria casa. Nós também não jogamos nas costas da sociedade a manutenção da sociedade. Instalamos a rede de CRAS e repassamos recursos para os programas conveniados. Contratamos 352 novos professores neste governo e mais de 400 profissionais na saúde. Quem pauta muito os candidatos é a mídia.

JC – Como o senhor fará a transição de governo?

Tuga - Quero disponibilizar uma equipe e um espaço na Prefeitura se for necessário para unificar dados para realizar a transição. Mas quero colocar os secretários disponíveis para informar o tempo todo, até o final do mandato, o próximo prefeito, sobre o que existe, qual a realidade, quais os problemas a serem enfrentados, o que há disponível, o que não há. Não quero que listem que tem tantos caminhões na Secretaria de Obras e depois o prefeito eleito assume e vai ver que tem alguns com motor fundido. Vou colocar na lista só os que rodam e se são precários ou são novos. Não vou colocar sucata na lista.

JC – O que o senhor pretende com isso?

Tuga – Não quero que quem assuma passe pela situação que nós passamos de abrir armários e só cair esqueletos (dívidas, contratos não solucionados, etc). Agora, hoje, mesmo no processo eleitoral, eu peço aos secretários que passem as informações à assessoria de comunicação e isso chega aos veículos que pedirem. Agora, cada secretário é livre também para discutir a realidade com o veículo ou o jornalista que o procurar. É democratizar o acesso à informação. Se o secretário, como pessoa, como cidadão, for convidado para participar de reunião deste ou daquele candidato, ele é livre para fazê-lo. Ele não vai como secretário, mas tem o direito de participar. Agora, concluiu a eleição eu não vou dar dados só no papel, quero que a equipe do prefeito eleito possa ver, checar, verificar, levantar tudo o que achar necessário. O próximo prefeito terá condições de ter uma fotografia real da prefeitura. É uma forma de eu colaborar para que assuma em janeiro de 2009 em condições de governar de fato.

JC – Qual seu ponto de vista em relação a Bauru ter ou não segundo turno?

Tuga – Eu estava junto com o Célio Parisi quando comentei sobre isso. Minha opinião é que o sistema de segundo turno é muito bom para as cidades e para Bauru também. Porque no primeiro turno a população tem chance de excluir aqueles que a maioria entende que não seria o mais adequado no momento para a cidade. No segundo turno, a população tem chances de cotejar os dois melhores indicados e aí poder explorar em maior profundidade o que ele pensa, o que pretende, que informações e planos o candidato tem. Como conseqüência disso, quem for eleito tem maior legitimidade para exercer o que conversou com a população. O sistema de segundo turno é bom. Mas não quer dizer que tem de haver segundo turno. Se alguém obtiver votos no primeiro turno acima da soma de seus concorrentes, isso significaria que a população o legitima já nesta etapa. Mas com um turno só e um número grande de candidatos é mais difícil alcançar essa legitimidade na primeira etapa. No embate a dois, no segundo turno, aprofunda esse debate.

JC – A prefeitura está perdendo profissionais para o mercado e têm dificuldades de atrair profissinais na área da Saúde. Qual a saída?

Tuga – O maior gargalo na área da saúde é contratar profissionais, não falo só de médicos, mas de profissionais. Há um problema que terá de ser enfrentado com articulação dos servidores e tomara que eles não o façam de forma desarticulada, com cada segmento profissional tentando resolver o seu problema: rediscutir o reequilíbrio, em relação ao mercado da defasagem de vencimentos e de profissionais em categorias onde se exige formação superior, especialidades, como jurídico, engenharia, arquitetura, psiquiatria, psicologia, tantos outros, e há enorme dificuldade de preencher os quadros. Vamos ser francos, não estou pretendendo acender uma bomba para o sucessor. Até porque o sucessor vai ter ainda muita dificuldade de administrar. Agora, o que vivemos na área da saúde também acontece na área da engenharia, na área do jurídico e outros. Se precisar de profissionais e abrir concurso vai haver dificuldades. Estamos perdendo profissionais. Não adequamos porque em 2007 é que conseguimos terminar as finanças no zero a zero, sem déficit, depois de anos das contas municipais no vermelho. Este ano não é período de fazer adequações deste gênero, primeiro pelo temor da crise econômica desencadeada em especial pelos EUA, não dava para saber dos reflexos. E depois por causa das próprias restrições da lei eleitoral.

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