Economia & Negócios

Pão francês terá gostinho de mandioca

Gabriel Ottoboni
| Tempo de leitura: 3 min

Há séculos fabricado a partir da farinha de trigo, o brasileiro acostumado a consumir o tradicional pãozinho francês terá que se acostumar com um novo ingrediente em sua composição. O Senado aprovou projeto de lei que incentiva a cadeia produtiva da mandioca no Brasil, obrigando prefeituras e governos estaduais e federal a exigir que seus fornecedores de biscoitos, pães e massas misturem algum derivado de mandioca à farinha de trigo, como farinha refinada de raspa e fécula/amido.

Futuramente, a medida poderá ser estendida às panificadoras, fazendo com que a novidade chegue a um público bem maior. Assim que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionar a lei, os cerca de 5.500 funcionários da Prefeitura Municipal de Bauru e todos os outros servidores públicos vão experimentar a nova fórmula do pão francês. Por ora, é opcional a padarias e confeitarias.

Os moinhos que realizarem a mistura vão receber incentivos fiscais. O objetivo da lei é reduzir a dependência do Brasil da importação do trigo. Atualmente, o País importa cerca de 75% da farinha de trigo utilizada no mercado interno. Grande parte vem da Argentina, porém, recentes impasses entre produtores locais e o governo daquele país, que exigia impostos para a exportação da matéria-prima, fizeram com que o pão ficasse mais caro pela falta da matéria-prima. A solução foi buscar o produto nos Estados Unidos e Canadá.

Características

De acordo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), pesquisas indicam que a substituição da farinha de trigo por fécula de mandioca, na proporção de 10% a 15%, dependendo da qualidade da farinha de trigo usada, praticamente não afeta as características de cor, sabor e textura da casca e miolo do pão. O projeto prevê que a farinha de trigo e seus produtos transformados vendidos aos governos tenham no mínimo 3% de derivados de mandioca no primeiro ano de vigência da nova lei. A partir do segundo ano, a farinha deverá receber 6% dos derivados e, a partir do terceiro ano, 10% do produto.

Ainda de acordo com o órgão, os limites máximos de substituição recomendados para outros produtos panificados são os seguintes: 15% de fécula de mandioca para pães de fôrma e doces; 20% para biscoitos tipo Maria, maisena, recheados e waifer; 30% para biscoitos tipo “shortbread”; 40% para biscoitos amanteigados e até 20% para macarrão e discos de pizza.

Presidente do Sindicato dos Panificadores de Bauru e Região, Evaristo Rodriguez Gonzales criticou o projeto. “Daqui a pouco, irão misturar babaçu no pão”, ironiza.” O sindicalista defende o fortalecimento da produção de trigo no Brasil com o intuito de diminuir a dependência externa.

“Se soubesse que seria melhor adicionar o produto (amido de mandioca) ao pão, seria o primeiro a vender, o governo não precisaria obrigar”, analisa Gonzales, para quem a medida vai alterar a qualidade do produto. “Em pequena quantidade, feita em laboratório, você até consegue aproximar (o gosto). Mas quando produz em grande quantidade, não há esse controle de qualidade.” Ele afirma que a tonelada da mandioca, inclusive, é mais cara que a do trigo.

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Economia

A Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca (Abam) acredita que o incremento do amido de mandioca no pão contribuirá para a economia com a redução das importações de trigo. “A diferença entre o preço da tonelada da mandioca e da farinha de trigo chega a 30%”, afirma José Eduardo Pasquini, vice-presidente da Abam e presidente da Câmara Setorial Nacional da Cadeia Produtiva de Mandioca e Derivados. Ele acredita que a economia com a nova medida será em torno de R$ 100 milhões. Para ele, a qualidade do pão após a adição da fécula de mandioca é visível. “É o produto mais nobre da mandioca”.

Segundo maior produtor mundial de mandioca, perdendo apenas para Nigéria, o Brasil possui aproximadamente 2 milhões de hectares voltados ao plantio dessa cultura. Os Estados que mais produzem a raiz são Bahia, Pará e Paraná. Este último responde por 65% da produção total da fécula de mandioca. “Isso trará mais empregos para o setor”, acredita Pasquini.

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