Ele recebera o nome de Bento em homenagem ao personagem homônimo do livro “Dom Casmurro” e, com este nome, o jovem engenheiro acaba encarnando o destino da personagem. A própria amiga de infância Ana é apelidada por ele de Capitu. Bento e Ana separaram-se quando a família do menino mudou-se para São Paulo. Já adulto, Bento reencontra a sua Capitu e dali renasce o romance da infância. “Dom”, filme de Moacyr Góes, é uma interessante readaptação do romance de Machado de Assis que expõe diversos aspectos da relação humana, ressaltando um em especial: o diálogo.
Toda nossa convivência social está baseada na comunicação. Desde a esfera mais íntima até a estrutura social depende da forma como nos comunicamos. Aliás, em nenhuma outra época vivemos como hoje, com tamanha intensidade, o fenômeno da comunicação. Nos encontramos em um universo globalizado no qual os meios de comunicação de massa se tornaram o chamado “quarto poder” (se não for o primeiro). O jornal, o rádio, a televisão, os celulares, a Internet formam uma verdadeira teia de informações, manipulação e discussão social.
O mais contraditório, porém, é que justamente neste universo comunicativo, o ser humano presta menos atenção ao significado de um dos instrumentos básicos da comunicação: a palavra. Segundo os antigos gregos, o ser humano se difere dos outros animais porque possui o que chamavam de Logos. Neste nosso início de século 21, se faz urgente a recuperação da consciência desta antiga expressão. Na Grécia dos filósofos, Logos significava, em sua essência, a palavra pensada e falada que corresponde a uma experiência concreta.
O ser humano possui o Logos quando compreende o que a palavra verdadeiramente expressa sobre a realidade. Nós não podemos ser somente animais falantes, mas principalmente animais que compreendem o que falam e principalmente o que ouvem. Hoje, a tendência é a informação rápida, a interação nos meios de comunicação de massa entre veículos, como rádio e televisão, e ouvintes ou telespectadores, como também os diálogos no espaço virtual. Todo este contexto comunicativo é ótimo, mas não se pode esquecer do essencial: se sabemos realmente o que estamos dizendo ou ouvindo.
Em outras palavras, na sociedade de hoje presenciamos a existência de muitos “tagarelas”, pessoas que falam muito, mas quase não dizem nada. O inverso também é verdadeiro, nosso universo comunicativo é formado por uma grande quantidade de pessoas que ouvem muito, mas pensam muito pouco sobre as informações que recebem. Atingir o que os gregos chamavam de Logos é perceber a diferença entre a retórica e a filosofia.
A retórica é a forma pela qual se pode agir sobre os outros mediante o discurso. A filosofia é a busca constante de compreensão das palavras e da realidade tentando encontrar os valores que desejamos conservar e aqueles que dispensamos para alcançar um bem-estar, seja individual ou social. Com a retórica posso me fazer ouvir, tenho condições de aparecer e de ter sucesso em um mundo comunicativo. Mas ela será vazia se não domino o conteúdo que desejo transmitir. Uma retórica vazia só funciona se os ouvintes, telespectadores, leitores, enfim, aqueles que recebem a mensagem não possuem a capacidade de refletir sobre o conteúdo transmitido, ou seja, se as pessoas são incapazes de filosofar.
Hoje, são utilizadas palavras, como amizade, Constituição, amor, Bíblia, paixão, Deus, corrupção, solidariedade, governo, sem se aprofundar em seus significados ou, pelo menos, tentar esclarecer, sem contradições, qual o significado que estou dando a estas palavras. Enquanto a retórica possui a tendência de “vender” uma idéia muito bem empacotada para presente, a filosofia está mais ligada a uma “ética da palavra”, ou seja, àquilo que os antigos gregos chamavam e “parrhesía”. Parrhesía é a abertura do coração, é a necessidade de nada esconder um do outro e falar francamente buscando esclarecer, purificar, o conteúdo do que falamos ou discutimos.
Se as pessoas permanecem na superficialidade da retórica, na forma de como se comunicam, correm um grande risco de permanecerem em uma estética vazia. Desta forma, um candidato pode chegar à presidência prometendo que, em seu governo, nenhum brasileiro ficará sem café da manhã, almoço e jantar; vou me iludir querendo me completar como pessoa através de uma outra vivendo um grande amor em minha vida; vou pertencer a uma religião acreditando que Deus protege e privilegia seus eleitos deixando a maioria da humanidade à deriva; vou continuar a pagar meus impostos sem compreender a razão de pagá-los e, por conseqüência, nem exigir o seu retorno à comunidade e, finalmente, vou continuar a pensar que política é para os políticos e eles, ao invés de serem bem pagos para prestar um serviço, são simplesmente autoridades.
Sem a busca da compreensão da palavra e a utilização desta através do diálogo, corremos o risco de, em qualquer relação seja a mais íntima, a mais pública, criar o silêncio da ignorância.
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