Cultura

Tipografia real publicou primeiro periódico

Liana Carvalho
| Tempo de leitura: 4 min

Usualmente, acredita-se que os primeiros jornais impressos no Brasil eram de alcance restrito, dado o grande número de analfabetos. Grande engano. Como as matérias eram lidas em público nas praças e outros locais de socialização, a imprensa produziu um impacto muito maior. “Era uma leitura oral e coletiva, que ganhava léguas”, conta Juliana Meirelles, mestre em história pela Unicamp.

Ela é autora de um mestrado sobre a imprensa do período entre 1808 e 1821, com foco sobre a Gazeta do Rio de Janeiro, o primeiro periódico jornalístico veiculado no Brasil.

No início, era um jornal oficial e vinculado à tipografia real de Portugal. Seu assunto era a vida da corte: suas alegrias, como as celebrações palacianas, mas também suas tragédias, como as chagas das guerras napoleônicas. O leitor não estava representado no veículo. Não havia fontes populares, como hoje. Mas, ainda assim, era um avanço: a Gazeta ao menos colocava a sociedade diante de si mesma. “Antes, era proibida a circulação de livros, jornais e panfletos”, conta Meirelles.

Mas a imagem composta pelo jornalismo era pouco transparente, já que a censura oficial era notória. Curiosamente, isso estimulava a criticidade. “A sociedade passa a entrar no domínio da crítica da leitura”, analisa. “O leitor sabe que as notícias são censuradas, e pode acreditar ou não. A censura não é escondida nessa sociedade”.

Como hoje, as páginas do jornal representavam um prisma que refratava o universo social. “Informações marítimas, saídas de correio, vendas de livros e periódicos, mapas, vendas de escravos e imóveis, leilões etc eram constantes e delineavam a relação existente entre a imprensa e a sociedade joanina no Rio de Janeiro, no início do século 19”, escreve Meirelles em seu estudo.

Estrangeiros não gostavam do jornal, de acordo com a pesquisa. Para um viajante do período, a Gazeta foi “um pobre papel impresso, sem grandes utilidades”. Sua crítica é ácida. “Por meio dela só se informava ao público, com toda fidelidade, do estado de saúde de todos os príncipes da Europa e, de quando em quando, as suas páginas eram ilustradas com alguns documentos de ofício. A julgar-se do Brasil pelo seu único periódico, devia ser considerado um paraíso terrestre, onde nunca se tinha expressado nenhum queixume”.

O jornal assumia também, novamente como hoje, o papel de oferecer informação com entretenimento. “O enfoque dos artigos científicos propagados pela folha possuía um caráter prático. Na maioria das vezes, as matérias abordavam as utilidades de produtos como o sabão, café, anil, zinco, grãos, contribuindo para a instrução dos leitores em temáticas cujas preocupações faziam parte da sociedade em geral”.

Aos poucos, a expressão dos leitores ganhou as páginas do impresso. “A sociedade passa também a ter um espaço de participação, para colocar seus interesses na arena pública”, aponta Meirelles. Uma seção foi criada para esse fim. Chamava-se “avisos”, mas era apenas de “classificados”, com anúncios pessoais de aulas particulares, venda de escravos, compra e venda de imóveis etc. Eventualmente, um leitor queria “avisar” algo, de fato. Por exemplo: uma vez, uma negociata mal concluída levou o comprador do imóvel a denunciar o vendedor. “Uma senhora fala do problema dela no jornal e dirige esse aviso para o próprio interlocutor, dono do terreno”, conta. “O homem que recebe esse aviso responde, e começa um debate entre sujeitos históricos. Isso faz com que os leitores passem a participar mais ativamente da vida cotidiana e a conhecer problemas antes restritos à vida particular”.

O próprio perfil do jornalista era bem diferente. Era menos um profissional de apuração, e mais um selecionador. A seção noticiosa incluía reproduções de artigos escolhidos de jornais europeus e cartas de militares e políticos de relevância no período. O conceito de notícia de tal seção era peculiar. Ali, cabiam informações burocráticas, como o balancete financeiro da Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro.

Com o tempo, o jornal evoluiu. As leituras coletivas e em voz alta deram lugar a um novo espaço público no qual as leituras individuais e os constantes debates passaram a fazer parte da sociedade. “Tanto o comércio e consumo de livros quanto o enraizamento da imprensa na cidade, sobretudo quando destinada à participação do leitor na seção dos avisos, foram fundamentais para constituição de um público leitor ativo que expressaria, ao final do período, suas potencialidades de leitura crítica da realidade também na esfera política”, indica a pesquisa de Meirelles.

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