Geral

Desmobilização reflete na política

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Houve um tempo em que as pessoas sonhavam que, por meio de sua participação política, poderiam mudar o País para melhor. Sufocados por um regime que tolhia direitos básicos do cidadão (a liberdade de se expressar e se manifestar, em especial), os brasileiros enxergaram na redemocratização pelas vias institucionais uma chance de transformar as estruturas da sociedade. O longo processo de retomada da democracia remonta ao início dos anos 70, com o desmantelamento da luta armada contra o regime militar instaurado com o golpe de 1964.

O bauruense Darcy Rodrigues, que foi companheiro de quartel de Carlos Lamarca e participou da “Guerrilha do Araguaia”, acredita que o fracasso da luta armada esteja relacionado à falta de capacidade das lideranças de esquerda de dialogar com as massas.

“Naquela época, havia condições objetivas (arrocho salarial, privação das liberdades civis) para que o regime fosse derrotado, mas não existiam as condições subjetivas para tanto. Nós, enquanto lideranças, não fomos capazes de criar um instrumento político de educação das massas”, avalia ele.

Desarticulada também no Congresso, a oposição ao regime - representada pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) - resolveu lançar candidato à sucessão presidencial de 1973. Ulisses Guimarães, anticandidato, passou a percorrer o País denunciando as mazelas praticadas pela ditadura.

Mesmo derrotada, a oposição conseguiu se fortalecer, graças, também à abertura iniciada pelo presidente Ernesto Geisel, que permitiu uma certa liberdade aos órgãos de imprensa, além do acesso da oposição à TV no período das eleições.

Com isso, o MDB conseguiu se sair vitorioso na disputa contra o partido do governo, a Aliança Renovadora Nacional (Arena) - na época, o regime era bipartidário -, principalmente em Estados chaves, como São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O sucesso da oposição nas eleições daquele ano deixou o regime preocupado.

A reação viria nas eleições seguintes, com medidas como o “Pacotão de abril de 77”, que impunha limitações à propaganda eleitoral, ou o adiamento do pleito municipal de 1980.

“A intenção dos militares era fazer com que as eleições para prefeito coincidissem com a disputa para governador e senador, em 1982. Acreditavam, dessa forma, que iriam ‘municipalizar’ a campanha, sobretudo nos grotões do País, onde eram mais fortes”, diz o ex-deputado Antônio Tidei de Lima.

O que ocorreu, na verdade, foi a “federalização” das eleições municipais. “Os temas nacionais acabaram dominando a disputa”, conta Tidei. Na época, conta ele, questões como asfalto, buracos nas ruas, azuizinhos e viadutos inacabados quase não apareciam nas discussões políticas das cidades. “O que predominavam eram as grandes questões de fundo ideológico e filosófico”, afirma o ex-deputado.

Já no final dos anos 70, os movimentos sociais ganhavam força no Brasil. Em Bauru, os primeiros sinais de resistência institucional ao regime surgiram no Legislativo Municipal com o Movimento Contra a Carestia (MCC), encabeçado pelo então presidente da Câmara, Édison Bastos Gasparini, e os líderes sindicais José Mariano Neto e Domingos Araújo, com reuniões organizadas no salão da Paróquia de Santo Antônio da Bela Vista.

Pouco depois, entrariam em ação os movimentos estudantil e pela anistia e volta dos exilados políticos (que se daria em 1979). “Naquela época”, garante Antônio Pedroso Júnior, o “Chinelo”, “a gente conseguia encher um ônibus com militantes e levar para Brasília para protestar, em menos de dois minutos.”

Com a vitória da oposição das principais capitais do País nas eleições de 1982, estava aberto o caminho para a campanha pelas eleições diretas para presidente. Iniciado no ano de 1983, o “Movimento Diretas Já!” reuniu milhões de pessoas em comícios realizados ao redor do País.

Mesmo “derrotada” (se é que o termo pode ser usado), a campanha pelas diretas ajudou a enfraquecer ainda mais o governo militar, bem como a fortalecer as bases do democracia que começava a nascer. Em 1985, a oposição ao regime finalmente conseguiu chegar ao poder, pela via indireta, com a chapa formada por Tancredo Neves (que faleceria horas depois de assumir a presidência) e José Sarney. “A Constituição de 88 foi como que uma espécie de coroação desse processo de redemocratização”, avalia Tidei.

____________________

Acomodação

O ex-vereador Milton Dota, que presidia a Câmara Municipal de Bauru na época em que a Constituição foi aprovada, acredita que ocorreu um refluxo na participação política dos brasileiros. “Hoje a população se acomodou. As pessoas agem como se todos os problemas do Brasil tivessem se resolvido”, pensa.

Isaías Daibem, que à época também era vereador naquele período, atribui esse desinteresse ao desmantelamento dos grandes referenciais ideológicos que existiram até os anos 80. “Depois da queda do Muro de Berlim (ocorrida em 1989), falar em socialismo se tornou quase que uma coisa vergonhosa. A sociedade está despolitizada. Basta olharmos as eleições deste ano.

Nenhum candidato a prefeito debateu, por exemplo, o Estatuto das Cidades (aprovado em 2001), que é uma matéria da Constituição de 88 que já se encontra regulamentada. Ninguém, até agora, se interessou em discutir uma concepção de cidade para Bauru”, analisa.

Comentários

Comentários