Carlos Alberto Ricieli, quando jovem, foi o boto mais famoso do cinema nacional. Capaz de engravidar mocinhas delicadas que se encantavam com seu canto e porte, avantajado para os padrões da época. Hoje, com a conscientização e a preocupação com o meio ambiente começando nos bancos escolares, quem vai à Amazônia quer mais é interagir com a fauna e a flora.
Preservar o que a natureza nos oferece, de graça. Muito diferente do que ocorria num passado não tão distante, quando os dóceis e amáveis animais eram sacrificados, pela ignorância. Como a lenda dizia que o boto engravidava as mulheres em noites de lua cheia e que acabava com os cardumes, os homens não perdoavam. Era a chacina promovida sob a bandeira de “limpar a honra da família”, sem necessidade de um olhar mais atento a quem era, na verdade, o pai da criança.
Além desse fator “moral”, matava-se os botos porque dele tudo se aproveitava. Até mesmo os genitais, que eram usados para fazer magia negra e os olhos, transformados em amuleto da sorte. Por conta dessa prática desastrosa, os botos quase desapareceram da região.
Mas como sempre há uma luz no final do túnel, organizações foram criadas, como a dirigida por Marilda Medeiros, moradora de Novo Airão, que com as filhas adolescentes faz tudo pela preservação da espécie.
Elas vivem numa casa flutuante sobre o rio Negro, na entrada da cidade conhecida como “paraíso do ecoturismo”. Donas do Restaurante Boto Cor-de-Rosa, parada de vários barcos e navios em roteiros pela floresta, elas fiscalizam a ação dos visitantes, permitindo até que alimentem os botos com postas de peixe que elas mesmo fornecem.
Todos ficam maravilhados com a docilidade e a coloração dos animais e com o trabalho da família que toca o projeto “O Encanto Vem das Águas”, cujo objetivo é preservar os animais. “Trabalhamos também em cima da lenda, mas de forma positiva”, explica.
“Para ter turismo, tem de ter atrativo. E para ter atrativo tem que ter preservação”, prega. O projeto já tem mais de uma década e já preservou mais de uma dúzia de botos, chamados de “filhos” por Marilda, que conseguiu apoio dos pescadores locais.
“Antes, se um boto ficasse enroscado na malhadeira (rede usada para pesca), morria li mesmo. Agora, os pescadores rasgam a rede e deixam o bicho viver”, conta.