Nos anos 1970, presos políticos foram transferidos para a Penitenciária da Ilha Grande, na costa do Rio de Janeiro. Com o passar dos anos, cada vez menos engajados políticos são presos, mas autores de verdadeiros crimes. Assim, tem início uma convivência difícil de dois grupos que possuíam ideais e comportamentos éticos essencialmente diversos.
O belo filme “Quase Dois Irmãos”, de Lúcia Murat, mostra, de uma forma original, o desenvolvimento da mentalidade do País. A passagem de organizações politizadas de esquerda para organizações criminosas como o Comando Vermelho que, mais tarde, passaria a dominar o tráfico de drogas. Entre estas duas visões de mundo bem diferentes estão dois personagens, Miguel, um jovem intelectual de classe média, preso político na Ilha Grande e, hoje, um deputado federal, e Jorge, filho de um sambista que, de pequenos assaltos transformou-se num dos líderes do Comando Vermelho.
Amigos na infância e nem tanto na vida adulta, Miguel e Jorge são duas pessoas que gostariam de ser verdadeiros irmãos, mas que a realidade os forçou a caminhos opostos em busca de sobrevivência. O filme não é somente um retrato das transformações vividas pelo país, mas também da adaptação do homem a um sistema capitalista de Terceiro Mundo.
As necessidades que a natureza nos impõe são, em sua essência, as motivações para todo tipo de comportamento humano. Em outras palavras, a pessoa humana precisa fundamentalmente comer, beber e dormir. Para isso é necessário que esta pessoa humana trabalhe. Este “trabalho” não é algo abstrato, mas uma atividade muito concreta. O trabalho é uma ação que se desenvolverá em uma determinada sociedade e estrutura econômica. Alguém pode ser um escravo na Antigüidade ou um servo na Idade Média; no universo rural do século 19 um colono em alguma fazenda e em uma sociedade capitalista um executivo ou um operário de fábrica.
O ser humano necessita comer, beber e dormir, por isso ele precisa trabalhar em algum sistema econômico no qual, por sorte ou azar, tenha nascido. Desta forma, de um lado a necessidade da natureza e do outro a estrutura econômica são os dois fatores que desenvolverão a personalidade deste ser humano. Nesta dinâmica ele criará outros desejos humanos que não são tão essenciais assim. Todos os desejos humanos são a princípio elásticos e passíveis de diversas formações: amor, locomoção, consumo, o desejo de poder, o prazeres sensuais, etc. Enfim, todos os desejos humanos vão surgindo e se formatando de acordo com as necessidades naturais e os limites socioeconômicos de uma determinada época.
Por exemplo, se sou um padre católico no século 21, para exercer meu ministério e realizar minha vocação, tenho que adaptar meu desejo sexual ao celibato. Se tivesse nascido antes da Idade Média esta adaptação já não seria mais uma exigência. Como também se tivesse nascido em uma família luterana na Europa poderia ser um pastor protestante, mas não precisaria me adaptar a nenhuma exigência em relação ao casamento. Mas mesmo sendo alguém casado no ocidente teria que me adaptar à monogamia. Se tivesse nascido em um dos países árabes não haveria a necessidade de me limitar a uma relação monogâmica, dependendo de minha capacidade econômica. Assim, poderíamos dar inúmeros exemplos viajando de cultura para cultura. Justamente o que chamamos de cultura é o fruto do casamento entre necessidades naturais e sistema socioeconômico.
Apesar da exigência de adaptação do individuo à sociedade na qual ele nasceu não significa que esta pessoa humana, ou juntamente com outras, não queira e não seja capaz de mudar aspectos de sua estrutura socioeconômica que lhe pareça desnecessários ou escravizantes para melhorar a sua qualidade de vida.
Porém, para pensarmos em uma transformação em nosso estilo de vida é necessário, em primeiro lugar, nos questionar até que ponto a adaptação à nossa sociedade nos prejudica em nosso desenvolvimento como pessoas humanas. O que a natureza exige de todos nós é apenas o necessário: comer, beber e dormir. Como nós iremos administrar nossa vida em sociedade para que todos possam ter o necessário para uma vida saudável não é de competência de Deus, do destino ou da natureza, mas sim dos seres humanos. Foram os seres humanos que criaram a estrutura socioeconômica com suas regras e normas. Justamente estes mesmos seres humanos podem discuti-las e transformá-las.
O mais grotesco em tudo isso é que este mesmo sistema socioeconômico é caracterizado, no ocidente, como uma sociedade cristã. Ora, o essencial do cristianismo é o amor ao próximo e também ao inimigo. Amar significa querer bem a todos. Como podemos querer bem a todos e, ao mesmo tempo, nos acostumar com um sistema que não oferece oportunidade de trabalho e, portanto, de suprir o que há de mais básico para todos os seres humanos. Acredito que o maior louvor a Deus não seja ficar dizendo “em nome de Jesus” ou “Amém” para que meus problemas particulares sejam resolvidos, mas coletivamente criarmos uma organização social na qual não somente possamos nos chamar, mas principalmente viver como irmãos e irmãs.