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JC e Vidágua fazem ‘expedição’ à floresta

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 5 min

Uma jóia redescoberta. Assim pode ser definida a floresta urbana do Parque Água Comprida. Depois que o Jornal da Cidade deu início às discussões sobre o projeto para a construção de um conjunto de prédios em parte da área ocupada atualmente pela mata, a população de Bauru despertou para a importância da preservação daquele espaço. Afinal de contas, como diz o ambientalista e prefeito eleito Rodrigo Agostinho, trata-se do último grande fragmento florestal dentro da área urbana.

Desde então, o JC recebeu e ainda recebe dezenas de cartas de moradores pedindo que a mata seja preservada. Com o tempo, aquele remanescente de cerrado com mata atlântica está desaparecendo. Desde meados da década passada, a floresta que havia em torno do câmpus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) foi diminuindo e restaram apenas alguns fragmentos. O maior deles é o do Parque Água Comprida, que corre o risco de ter seu tamanho reduzido em 60%, caso o empreendimento imobiliário seja, de fato, concretizado.

Diante do risco iminente de desmatamento do pouco que ainda resta da floresta urbana, uma equipe do JC se embrenhou na mata para conhecer a diversidade da fauna e da flora presente naquele espaço de mais de 60 hectares, que equivale a cerca de 60 campos de futebol. Acompanhada pela secretária-executiva do Instituto Ambiental Vidágua, Ivy Wiens, e pelo biólogo Jonas Rangel, a equipe do JC percorreu a mata por mais de uma hora na semana passada.

Durante a “expedição”, passamos por áreas degradadas, por entulhos de construção depositados irregularmente, por erosões gigantes, pelo córrego Água Comprida quase totalmente assoreado, por espécies vegetais protegidas por lei federal, por um campo de futebol abandonado e por ruínas que mostram que a presença humana foi intensa naquela área num passado não muito distante.

No início da caminhada pela mata, seguimos por trilhas largas (algumas usadas por veículos de grande porte, como carros e caminhões) e estreitas. Da metade até o fim da “expedição”, a caminhada foi por dentro da mata fechada, onde a presença do sol é algo bastante incomum. Apesar da vegetação densa, não encontramos animais peçonhentos pelo caminho, nem mesmo os inofensivos, como sagüis, quatis, tatus, veados catingueiros e tamanduás-mirins, entre outros, que habitam a floresta. Isso frustrou um pouco o passeio.

Somente os pássaros resolveram dar o ar da graça, mas estavam tão ariscos que mal dava para ver a que tipo de espécies pertenciam. Iam e vinham com tamanha rapidez que mais pareciam aqueles seres que transitam pelo Centro da cidade e dão a impressão de estarem sempre atrasados para algum compromisso.

De acordo com o biólogo Jonas Rangel, do Vidágua, a floresta tem uma importância fundamental especialmente para as aves, pois funciona como um local de reprodução e de alimentação. Além disso, é uma área que fica entre o Jardim Botânico e o Horto Florestal, ou seja, os três formam uma espécie de corredor ecológico, essencial para a sobrevivência de qualquer animal.

“Quando discutimos o Plano Diretor foi falado justamente isso. Sobre a importância de se preservar o corredor que existe entre esses três pontos. É preciso ligar esses fragmentos de alguma forma, inclusive com passagens sob as avenidas, como tem nas rodovias”, lembra Ivy.

Protegidas

Conhecer a diversidade da flora dentro da mata foi mais fácil. Afinal de contas, plantas não andam. Assim, foi possível ver que a floresta urbana do Parque Água Comprida serve de abrigo para espécies protegidas por lei federal, como o pequi, de onde são extraídos vários produtos como o azeite, o arroz e o licor de pequi. Tem também a sucupira preta, espécie comum nas regiões intermediárias entre Mata Atlântica e Cerrado, como é o caso da floresta urbana de Bauru. Sua madeira é muito apreciada. Nos meses de agosto e setembro apresenta floração roxa azulada.

As bromélias, com seu vermelho vivo, dão um colorido especial ao interior da mata. Segundo Ivy Weins, foi solicitado à Secretaria de Estado do Meio Ambiente que se faça um estudo aprofundado das espécies que existem na floresta de Bauru. “Apesar de Bauru ter muitos biólogos, não temos condições de fazer um estudo detalhado. O Estado tem”, afirma. De acordo com ela, a diversidade não é maior porque a mata está meio isolada, ou seja, com construções por todos os lados.

Quando chegamos ao fim da caminhada de mais de uma hora por dentro da floresta, além de exaustos por ter de vencer a mata fechada, ficamos com o sentimento de que, talvez, aquela tenha sido a primeira e última experiência naquele local. Nos sentimos como umas das últimas testemunhas oculares da vida que há dentro da floresta urbana do Parque Água Comprida. Apesar de sabermos da força dos empreendimentos imobiliários, torcemos para que estejamos enganados.

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“A Terra não nos foi doada por nossos pais, mas emprestada por nossos filhos!”

Diz um antigo provérbio do Quênia para que tratemos bem a Terra, pois ela não nos foi doada pelos nossos pais, e sim emprestada pelos nossos filhos.

Não pude deixar de me lembrar dele nos últimos dias ao ler as notícias do projeto imobiliário que, se vingar, culminará com o desmatamento da floresta urbana na avenida Luiz Edmundo Coube.

A discussão me parece tão descabida que, ao meu ver, nem deveria estar ocorrendo.

Não discuto propriedade, mas os interesses individuais, nesse caso específico, não podem sobrepujar o coletivo. Essa mata é o que restou em Bauru, então me parece óbvio que ela deve ser mantida ainda que o custo seja “alto”, porque caro mesmo é a sua destruição que nos privará de um precioso espaço verde, que ainda abriga pássaros e outros animais, além de plantas nativas, para abrigar prédios de apartamentos. A troca não parece muito boa, aliás, é um horror. Que se utilize para isso os vazios urbanos que ainda existem no município. Que os nossos filhos que nos emprestaram esse pedaço de mata não sejam privados de conhecê-la, admirá-la e de usufruir dela.

Sandra R. F. Sanches - RG 13914802-3

Uma das várias cartas enviadas por leitores do JC sobre a floresta urbana

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