Saddam... que dentes grandes você tem!? No Iraque havia um tirano no poder, como tantos outros que povoaram e ainda povoam muitos países por esse planeta afora. Seja em nome da ordem, da fé ou, pasmem, das liberdades, esses malucos censuram, oprimem e matam. Que orelhas grandes, Saddam... Esses déspotas são facilmente identificados e encontrados aos montes através da História. Mas, e quando não parecem o que realmente são?
Dependendo do lado que se encontram neste explosivo jogo de quem pode mais, aqueles que dão as cartas podem facilmente passar-se por laboriosas ovelhas, devotadas ao mais puro bem-estar do rebanho. A cena de glória torna-se cada vez mais patética quando o camuflado crupiê, cuja lã esgarçada já não lhe serve mais de disfarce, ainda insiste em afirmar: Eu sou uma ovelha! Apresentar a fraude pode ser um risco. Um risco que muitos governos não admitem assumir e, pior, poucos jornalistas ousaram correr quando um país soberano, mesmo sob um regime ditatorial, foi injustamente invadido numa mistura de interesse comercial, prepotência cultural e vingança pessoal.
A imprensa, ao contrario do Vietnã, um outro fiasco, com honrosas exceções, portou-se como um soldado no front. Fotos higienizadas e textos esterilizados colocaram a verdade em coma. Ao acordar, os norte-americanos parecem dar as respostas nas urnas. O opressor poderoso, porém democrático, na sua simbologia do voto, tira o bronco truculento e coloca um cara legal; um boa praça que gosta das pessoas e do mundo. E, assim, vira-se a página, rebuscada e mal escrita. Esquecer a besteira feita no Iraque, para muitos pode ser tão simples quanto trocar um canal de tv. Para os iraquianos, não será tão fácil. Muitas dores, cicatrizes e irreparáveis lamentos ficarão nas mentes e corpos de homens, mulheres e crianças daquele país, mesmo que acalmados por algum big-lanche feliz.
Uma explosão aqui, um atentado ali, e mais e mais mortes de inocentes, já não surtem efeito. Como, então, extravasar tamanha mágoa? Embora não recomendado pelos manuais de imprensa, e pelo visto de repercussão na mídia, os sapatos do jornalista Muntadar al-Zeidi parecem ter falado muito mais do que mil palavras... e bombas.
O autor, Luís Victorelli, é jornalista - e-mail: lvbauru@gmail.com