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Em Bauru, homem faz esposa voltar a sorrir

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

O porteiro de edifícios João Ferreira da Silva tem 53 anos e é natural do Rio Grande do Norte. Por muito tempo, ele nunca havia ouvido falar em Bauru, não fosse pelo fato de ter morado em uma rua da capital potiguar que levava o nome da “Cidade Sem Limites”.

João resolveu mudar-se para Bauru porque desejava ver a esposa, Maria das Dores, sorrindo sem preocupações. “Ela tinha fissura labiopalatal e tinha muita vergonha da própria aparência”, conta o porteiro.

Maria era tão complexada por conta do problema que tinha medo de sair às ruas sem a companhia do marido. “Quando eu olhava para ela, não enxergava a fissura - via apenas a mulher que eu amava. Mas lá em Natal, não é comum encontrar gente com essa deficiência e as pessoas estranhavam demais”, afirma João.

“Certo dia, estávamos fazendo compras no Centro da cidade, quando um garotinho passou por nós e falou: ‘Olha lá, mãe, que mulher estranha!’. Minha esposa começou a chorar e eu fiquei de cabeça baixa, pensando naquilo tudo. Às vezes, eu chegava em casa e percebia que ela estava calada, triste. ‘O que foi, mulher? Alguém mexeu com você?’, eu perguntava. ‘Não é nada’, ela respondia. ‘É coisa minha, que você não pode resolver.’”

Certa manhã, enquanto descansava depois de almoçar, João conta que começou a rezar. “Eu só queria que Deus me mostrasse um médico ou um hospital que pudesse fazer minha mulher sorrir (pois, como ela não tinha dentes na parte de cima da boca, costumava levar as mãos à frente dos lábios sempre que desajava rir), mesmo que tivesse de viajar até o Japão”, conta.

Naquele mesmo dia, a esposa teve de ir até uma loja para pagar uma prestação. “Nisso, uma mulher chegou até ela e puxou assunto. Perguntou se ela conhecia Bauru e comentou a respeito do trabalho do Centrinho (Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo). Decidi, então, que ela iria fazer tratamento naquele lugar”, conta João.

Com ajuda da desconhecida, eles conseguiram iniciar o tratamento de Maria. “Ela operou o palato, o nariz e os lábios. O único problema é que ela não tinha o osso do maxilar superior, por isso não era possível implantar os dentes nela”, diz João.

O médico teria dito ao casal que até seria possível realizar uma cirurgia para implante do osso que faltava, mas havia grandes chances do procedimento fracassar. “Pelo que ele nos falou, havia 99% de possibilidade de haver rejeição”, conta.

O especialista frisou também que, caso o procedimento apresentasse algum tipo de problema, só seria possível solucionar se Maria morasse em Bauru. “Então, venho morar aqui”, disse João ao médico. Ele precisou de três dias e muita conversa para convencer a mulher a aceitar a mudança.

Na cara e na coragem, João deixou que Maria voltasse para Natal e ficou em Bauru procurando emprego e um lugar para a família morar. “Passei muito aperto até as coisas se ajeitarem”, afirma. Maria realizou o implante em 1999 e a cirurgia foi um sucesso. “Minha maior recompensa foi poder vê-la sorrindo novamente”, finaliza ele.

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Altruísmo: gestos desinteressados, mas repletos de intenções

Gestos desinteressados, que visam o bem do próximo e que, ao mesmo tempo, têm motivações egocêntricas. Assim poderiam ser definidos os atos de sacrifício. “Por um lado, a pessoa altruísta se esvazia de si mesma em prol da coletividade; por outro, busca algum tipo satisfação pessoal, por mais nobre que possa ser”, afirma o filósofo Cláudio Badaró, professor do Departamento de Ciências Humanas da Universidade do Sagrado Coração (USC).

De acordo com Badaró, isso se aplicaria, inclusive, aos grandes nomes da história que se tornaram famosos por realizar gestos de doação. “Quando Jesus morreu na cruz, por exemplo, não fez isso de maneira desinteressada. A intenção dele era resgatar a humanidade do pecado”, compara.

Analisada a partir da dimensão primeira do homem, os gestos altruístas teriam como objetivo a perpetuação do grupo. “Buscamos, sempre, um meio de preservar a espécie”, diz Badaró.

O publicitário Rafael Canelada, que cursa pós-graduação em antropologia social pela USC, lembra que os gestos de doação costumam ser valorizados pela sociedade. “A pessoa passa a ser bem vista pelos seus pares, quando faz alguma demonstração de sacrifício em favor do grupo”, diz.

Segundo especialistas, porém, nem todos os gestos de doação podem ser considerados nobres. “De certa forma, o piloto kamikaze que se atira sobre um bombardeio inimigo ou o terrorista árabe que realiza um atentado em nome da fé realizam gestos de doação, mas isso não quer dizer que sejam altruístas. Existem valores universais que devem ser respeitados - e alguém que não preza a dignidade da vida humana não pode ser considerado nobre”, pondera Badaró.

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