Política

Governo promete reduzir lucro bancário

Por Nélson Gonçalves | Enviado especial a Brasília
| Tempo de leitura: 12 min

Presidente da República critica posição do sistema financeiro de represar crédito mesmo com enorme bonança de lucros nas operações e informa que vai apresentar, ainda neste trimestre, medidas para combater o spread bancário no País. Lula também conta, em tom bem humorado, que reza para que as ações de Barack Obama nos EUA dêem certo e rapidamente, para desafogar os efeitos da crise sobre o mundo.

Sobre o mar de rosas vivido pelos banqueiros, setor que seu governo não enfrentou desde a primeira gestão, Luiz Inácio Lula da Silva conta que constituiu força-tarefa de ministros só para estudar medidas contra o nível do spread, prometendo atacar o problema com medidas específicas:

APJ - O senhor acha possível estender o socorro do BNDES para outros pólos produtivos, o pólo têxtil, calçadista, aeronáutico? Existe crítica do socorro ao setor automobilístico.-

Lula -- Deixe-me falar uma coisa: o setor automotivo, por uma razão. A indústria automobilística tem uma participação de 24,5% no PIB industrial brasileiro. Não é apenas a fábrica que produz o carro, é a loja que vende, é o mecânico, é o borracheiro, é o posto de gasolina. Então, quando nós atendemos a indústria automobilística, nós tomamos três decisões importantes: primeiro, garantir que a indústria automobilística continuasse produzindo, e para isso era preciso resolver o problema de crédito para vender o carro, porque os bancos pequenos pararam de financiar carros. Nós tomamos a decisão de comprar a Nossa Caixa, em São Paulo, e tomamos a decisão de comprar metade do Banco Votorantim exatamente para que a gente, através do Banco do Brasil, possa manter a carteira de carros em dia e possa, inclusive, financiar carro usado. Você sabe que a classe média brasileira, sobretudo a classe média média e a classe média baixa, se não vender o carrinho do ano passado, não compra o carrinho do ano que vem. Então, é preciso que tenha financiamento. O Banco Votorantim era um banco que tinha uma carteira de R$ 90 bilhões de financiamento de carro usado. Na hora que ele para, parou o mercado de carro usado. Então, nós entramos exatamente para garantir. Ao mesmo tempo, nós tomamos uma decisão de capital de giro para a pequena e média empresa brasileira. Vocês sabem que nós já disponibilizamos mais de R$ 100 bilhões do compulsório para fazer o crédito fluir. E, ao mesmo tempo, nós agora acabamos, com uma medida do Banco Central, de disponibilizar US$ 36 bilhões para garantir o financiamento de empresas brasileiras que têm dívida em dólar, para garantir os créditos da Petrobras e de outras empresas que têm projetos em dólar, para construir coisas no Brasil. Nós tivemos um problema que ainda não conseguimos resolver. Como 30% de todo o crédito no mercado interno era crédito feito em dólar, grandes empresas que tomavam dinheiro em dólar, como a Petrobras, por exemplo, na hora que seca o mercado de dólar, esses 30% vêm para dentro do Brasil. Então, aconteceu o seguinte: você tem mais gente procurando empréstimo. Os bancos, além de ficarem mais seletivos, começaram a cobrar uma taxa de spread muito maior. Eu constituí um grupo de trabalho entre o Tesouro e o Banco Central, o prazo vence amanhã (quinta-feira), certamente eles vão pedir mais uns dias para mim, que nós precisamos resolver o problema do spread bancário no Brasil. Não é possível que num momento de crise como esse, em vez de as pessoas fazerem fluir mais dinheiro na praça, para o povo poder consumir mais, as pessoas se retranquem, não é possível. Então, isso nós estamos vendo com muito carinho, porque esse eu acho que é o grande problema. O segundo problema é que eu estou, vocês nem imaginam o quanto eu rezo para o Obama. Eu estou rezando para o Obama mais do que rezei para mim. (risos) Por quê? Porque como a economia americana tem uma incidência na economia do mundo inteiro, e alguns parceiros nossos dependem muito dos Estados Unidos, como a China, por exemplo, nós queremos que a economia americana se recupere logo, para que a economia vá voltando à normalidade. O mundo inteiro pode se recuperar, mas se os americanos não se recuperarem nós teremos problema, afinal de contas o buraco é lá. O chamado “buraco negro”, que todo mundo fica procurando, está exatamente na economia americana. Hoje se fala que o rombo talvez seja de US$ 4 trilhões. É uma quantia tão grande que a minha cabeça não consegue imaginar o que significam US$ 4 trilhões. Então, eu estou torcendo para o Obama acertar. Estou torcendo para o Obama não é nem resolver o problema logo, mas se estancar. E qual é o grande problema nos Estados Unidos? É, primeiro, restabelecer a confiança na sociedade. E, junto com o restabelecimento da confiança, resolver o problema da dívida das pessoas. Imaginem o que aconteceu nos Estados Unidos: eu comprei uma casa por R$ 300 mil, o mercado valorizou essa casa para 600 mil. Lá, o hábito de crédito é de que eu poderia tomar emprestado a diferença entre o valor real e o valor de mercado. Eu tomei mais US$ 300 mil emprestado e aí a minha casa não vale nem 600 e nem 300, vale 200. Ou seja, eu estou pendurado numa dívida por conta de um patrimônio que eu tinha e que não tenho mais esse patrimônio. Então, ou resolve esse negócio ou não resolve mais nada. Então, eu penso que essa é a preocupação do presidente Obama, e eu acho que ele sabe que tem que tomar medidas rápidas para que a gente não veja as coisas piorarem.

JC - Duas questões sintomáticas: primeiro, os agricultores financiaram as safras com valor elevado das commodities no ano passado. A maior preocupação agora é que vão desempenhar a sua produção na safra com um valor muito inferior. E um outro dado, essa é uma preocupação nacional: 75% dos fertilizantes são importados. Como o senhor vê essas preocupações?-

Lula – -Vejo, primeiro, é importante lembrar que no ano passado o dólar também estava mais baixo. Então, hoje o aumento do dólar é um ganho adicional para os nossos exportadores de commodities. Nós temos um problema com fertilizantes, sério. E por isso nós tomamos a decisão, dentro do governo, de que nós vamos construir fábricas de fertilizantes no Brasil. Ou seja, a indústria petroquímica brasileira e a Petrobras têm a obrigação de resolver esse problema para nós. Nós já conversamos com a Petrobras, já conversamos com o setor e vamos começar a produzir, sobretudo a matéria. O fertilizante hidrogenado, que é a uréia, que precisa de gás. E estamos tentando fazer parcerias com países como o Peru, que tem muito gás, para que a gente possa produzir aqui na América do Sul fertilizantes para atender ao mercado e a gente não ficar importando da Ucrânia, da Rússia e da China. Então, esse é um problema que nós temos. Normalmente, as trades que são as responsáveis pela venda de fertilizantes vendem caro na época da produção e depois não barateiam, ou seja, mesmo o preço caindo elas não baixam o preço. Por isso que a gente não pode ficar dependendo de uma coisa tão importante, como fertilizantes. Nós vamos ter que produzir aqui o potássio, vamos ter que produzir a uréia. Nós temos algumas minas importantes. Nós tínhamos uma mina na Amazônia que a Petrobras tinha vendido, nós fizemos a Petrobras desfazer a venda, porque não tem sentido vender uma mina de fertilizantes no coração da Amazônia.

JC – A Petrobras vendia o barril a US$ 160 no ano passado, quando teve aumento no diesel. Agora o barril está a 40, 50 dólares, e eles não tiraram essa margem Presidente. A Petrobras está querendo fazer caixa com a diferença de cotação?-

Lula - -Vamos atentar bem, porque as pessoas costumam chorar demais. A Petrobras, quando nós discutimos o plano de investimento da Petrobras, em que imaginou investir US$ 112 bilhões até 2010, e agora passou a um novo programa de US$ 174 bilhões até 2013, o preço do petróleo do primeiro programa da Petrobras de US$ 112 bilhões era calculado em US$ 35 o barril. Portanto, obviamente que para a Petrobras ou para uma empresa de petróleo qualquer, se o petróleo chegasse a 200, seria ótimo. A verdade é que, nos cálculos deles, se o preço estiver a US$ 40, eles estão ganhando dinheiro. Eu acho que o petróleo não volta mais a US$ 150, mas também pode não ficar em 40, pode voltar a subir, a 50, 60, o que é um preço extremamente razoável. E nós, o Brasil tem em mente que a partir do mês de abril nós vamos começar a explorar o poço de Tupi, durante uns 10 meses, 1 ano, nós vamos explorar em fase experimental para ir adequando novas tecnologias. Eu espero que o Brasil entre no mercado dos países exportadores não de petróleo, eu quero que o Brasil exporte derivados. Daí porque nós tomamos a decisão de fazer três novas refinarias: uma no Rio Grande do Norte, uma no Ceará e uma no Maranhão, fora a de Pernambuco que está sendo feita em parceria com a Venezuela. O Brasil há 20 anos não fazia uma refinaria neste país. Nós vamos fazer para quê? Para a gente exportar óleo diesel de qualidade e exportar gasolina de qualidade.

JC - Não é justa a chiadeira do diesel em função de estar bem mais barato o preço do petróleo? -

Lula -- Mas as pessoas têm que lembrar que nós aumentamos muito menos o combustível. Eu vou dar um exemplo para vocês: o gás de cozinha, a Petrobras não aumentou desde que eu tomei posse. Ele aumenta na distribuidora, mas o preço que a Petrobras vende não aumentou desde que eu tomei posse. Você vai analisar que os combustíveis subiram muito menos do que qualquer coisa. Obviamente que se o preço continua estável, fica parado nos 40, e a gente constatar que é possível mexer, não tenha dúvida de que nós mexeremos. O que é importante é que a gente primeiro tenha noção do que vai acontecer com o preço do petróleo. Não é o Brasil que determina o preço. O mundo desenvolvido, na verdade, é que determina o preço. Ele chegou a US$ 150/barril no ano passado porque o mercado futuro determinou um preço. Por isso, parte dessa quebradeira se deve à especulação do mercado futuro, e eu acho que no Brasil, eu aprendi uma coisa. Eu, quando era mais novo, eu tinha muito aquele negócio de achar que era tudo ou nada. Você vai ficando velho, o cabelo vai ficando branco, e você percebe que entre o tudo ou nada tem uma quantidade enorme de degraus para você pisar até encontrar um ponto de equilíbrio. E hoje eu sou muito mais um equilibrista do que um defensor da tese do tudo ou nada. Eu sempre tento procurar o ponto de equilíbrio. Eu, nas minhas decisões econômicas, não ouço apenas uma pessoa, ouço muitas pessoas. Nas minhas decisões políticas, eu não ouço apenas uma pessoa porque, senão, vem uma pessoa para te fazer a cabeça, conta apenas o que ele está pensando e você não ouve o outro lado, a tendência é você tomar uma decisão precipitada. Então, eu sempre prefiro ouvir duas, três pessoas sobre o mesmo assunto para poder formar o meu juízo.

JC - Só para aproveitar a situação da Petrobras, se o dólar estabilizar nesse patamar, o senhor mesmo reconhece que é uma questão de mercado e que não deve voltar aos valores do ano passado, a situação de investimento, pensando para o horizonte, em relação ao pré-sal, tende a ser mais ponderada?-

Lula - Não. Nós não tiraremos um centavo. E todo o preço da Petrobras é calculado em dólar. Então, anote aí: o investimento da Petrobras é de US$ 174 bilhões até 2013. Qual foi a briga que eu tive com a Petrobras? Ela queria mudar a programação dela para 2017. Eu disse para eles: primeiro, eu não sei se vou estar vivo em 2017; segundo, em 2011 eu já não sou o presidente da República, então a decisão é agora. E por que agora? Porque é exatamente nesse momento da crise que eu quero que a Petrobras contribua para a geração de empregos, por isso que eu quero fazer as refinarias. Se você começar ainda este ano a fazer terraplanagem, até você tirar licença-prévia, arrumar um terreno com os governadores e começar o processo de construção, leva dois anos. Então, precisa começar agora. Nós não mudaremos. Aliás, eu vou lhe dizer uma coisa: eu pedi para que o presidente do BNDES me trouxesse os 100 maiores projetos de investimentos da iniciativa privada no Brasil. Até agora nenhum desistiu. Vocês estão percebendo o dinheiro que tem no BNDES. Ou seja, o BNDES pode emprestar no ano que vem, se quiser, R$ 168 bilhões, o que jamais foi imaginado o BNDES investir na vida. Eu acho que nós vivemos um momento em que a única coisa que falta é a gente não permitir que as pessoas percam a confiança. Quando eu fui para a televisão, no dia 22 de dezembro de 2008, fazer publicidade para o povo comprar – não sei se vocês compraram alguma coisa – é porque a economia tem uma lógica. Aliás, eu vi o Obama dizer a mesma coisa em um pronunciamento. Ou seja, se as pessoas ficarem com medo, se você não comprar o sapato que você quer comprar, a meia que você quer comprar, a gravata que você quer comprar, se todo mundo pensar em parar de comprar, aí a economia para. É o momento de cada um perceber a contribuição que dá para o crescimento da economia. Na hora que tem fartura de produtos, na hora que tem fartura de dinheiro, é fácil. Agora, no momento em que o crédito desaparece, mas as pessoas ainda estão recebendo o seu salário, é importante que as pessoas imaginem o seguinte: bom, se eu parar a minha atividade de comprar alguma coisa e colocar o dinheiro embaixo do colchão, aí eu vou contribuir para quê? Para a economia ficar atrofiada.

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