Passadas as alegrias, divertimento e descanso proporcionados pelas férias e carnaval, inicia-se hoje, Quarta-feira de Cinzas, o tempo favorável (cf. 2Cor 6,2) da Quaresma e, juntamente com ela, a Campanha da Fraternidade de 2009, com o tema “Fraternidade e segurança pública” e o lema “A paz é fruto da justiça”. A campanha tem por objetivo sensibilizar os cristãos e a sociedade em geral para este atual, relevante e complexo tema que a todos aflige: a violência. Não apenas sensibilizar, mas aprofundar a discussão e oferecer propostas plausíveis que, conectadas com outras iniciativas e projetos já em curso, contribuam concretamente para a diminuição dos índices de violência e gradativamente consigam devolver aos cidadãos a abalada sensação de se sentir seguro. Se a paz é fruto da justiça e da reconciliação podemos inferir que, de certo modo, estamos todos implicados neste tema e, muitas vezes, somos contem-poraneamente vítimas e autores da violência. Aqui cabe recordar a oportuna frase de Dostoievsky: “Somos todos culpados de tudo e de todos perante todos, e eu mais do que os outros”.
Passemos agora a Quaresma, tempo de graça, revisão de vida e conversão (mudança de mentalidade) que a Igreja anualmente nos oferece. Anselm Grün define a Quaresma como “faxina anual do corpo e da alma”. Trata-se, segundo ele, “de purificação, de uma limpeza geral da nossa casa, pensando em tudo o que podemos doar ou jogar fora”. Penso que esta casa seja a nossa vida interior, o ethos que define o nosso modo de ser e agir, que necessita de revisão anual e quotidiana. A Quaresma é um treino, um exercício que nos introduz nesta corajosa aventura de entrar em contato consigo mesmo, avaliando como se dá a nossa relação com Deus, com o próximo e com as coisas e bens. É um caminho que exige a virtude moral da fortaleza, com a qual se pode reconhecer e acolher com sinceridade os próprios limites, feridas e sombras e pedir a Deus a força para superá-los de modo gradativo e constante.
O convite para a faxina geral é uma ocasião para reorganizar a nossa casa, transformando-a num ambiente saudável, acolhedor e gerador de contentamento. Esta é a proposta de Cristo: entrar com Ele no deserto, enfrentar as tentações e renascer para uma vida nova, mais leve, simplificada e feliz. Isso implica cuidar do nosso ser, curar as feridas abertas, transformando-as em cicatrizes, com as quais poderemos conviver saudavelmente, sem bloqueios ou paralisação. Se “o agir segue o ser”, melhorando o nosso ser interior, certamente melhoraremos o nosso agir. Portanto, um profícuo tempo de faxina a todos e todas!
O autor, padre Luiz Antonio Lopes Ricci, é pároco da paróquia de São Cristóvão e professor de teologia moral na Faculdade João Paulo II, em Marília