Economia & Negócios

Intenção de compra de bem durável é a menor em 3 anos

Alessandra Saraiva e Luciana Xavier
| Tempo de leitura: 5 min

As intenções de compras de bens duráveis para os próximos seis meses registraram em fevereiro o pior nível desde setembro de 2005, quando foi iniciada a Sondagem das Expectativas do Consumidor, da Fundação Getulio Vargas (FGV). Para o coordenador do Núcleo de Pesquisas e Análises Econômicas da fundação, Aloisio Campelo, essa cautela do consumidor é originada da piora na avaliação sobre a situação econômica atual, e principalmente nas expectativas ruins para a economia, nos próximos seis meses.

“Para o consumidor, o ambiente econômico continua piorando. A economia brasileira até o momento não deu sinais de melhora”, afirmou Campelo.

Ontem, a FGV anunciou o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) de fevereiro, feito com base em cinco quesitos da sondagem, e que mostrou queda de 1,4% em relação a janeiro na série com ajuste sazonal.

De acordo com Campelo, as respostas do consumidor para o levantamento de fevereiro se mostraram piores do que as apuradas no último trimestre do ano passado, período em que a crise financeira se agravou no mundo inteiro.

Segundo o economista, a queda acumulada do ICC de setembro de 2005, data de seu início, até fevereiro de 2009 é de 17,44% - sendo que, somente de setembro de 2008 até fevereiro desse ano, a queda acumulada é de 13,4%. Em fevereiro, todas as faixas de renda apresentaram recuos nos ICCs, com destaque para as famílias pesquisadas com renda até R$ 2.100,00 (-2,5%) e com renda acima de R$ 9.600,00 (-2,8%). “Tanto os mais ricos quanto os mais pobres registraram queda na confiança”, disse.

Mas o que realmente influenciou a trajetória negativa do indicador como um todo, em fevereiro, foram as expectativas ruins quanto ao andamento da economia no futuro. Campelo explicou que as intenções de compras de duráveis são diretamente influenciadas por esse quesito. Isso porque esse tipo de compra quase sempre envolve financiamentos com prazos longos, visto que o preço do produto é de maior valor agregado.

O economista admitiu que a sinalização de menor intenção de compras de duráveis é uma péssima notícia para a indústria, que aguarda sinais de recuperação na demanda do mercado interno.

“Realmente para a indústria, de uma maneira geral, tirando casos extremos com características específicas, como o setor automotivo por exemplo, os resultados não são nada animadores”, afirmou.

A avaliação sobre o futuro das finanças familiares também piorou, de janeiro para fevereiro. No período, subiu de 6,4% para 7,5% a parcela dos consumidores entrevistados que acreditam que a situação financeira familiar ficará pior nos próximos seis meses. Porém, os resultados negativos foram acompanhados de um dado em trajetória oposta: na sondagem do consumidor, houve leve melhora na avaliação do brasileiro quanto ao andamento do mercado de trabalho.

Subiu de 3% para 3,5% o porcentual de consumidores entrevistados que classificam como fácil a busca por emprego, atualmente.

Percepção

Para o economista-chefe do banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal, a piora da confiança do consumidor no Brasil já se percebe no comércio. “Já se vê a queda da confiança em alguns setores, especialmente os ligados ao crédito. Acho que, talvez, quando a gente olha o comércio como um todo, os dados não são muito ruins. Mas o que a gente vê é uma migração de bens de maior valor para artigos mais baratos”, explicou.

Segundo ele, ainda há inércia forte no comércio e só nos próximos meses ficará mais claro o impacto da crise no consumo brasileiro. Leal disse que a pergunta que ainda está sem resposta é saber até que ponto o aumento do salário mínimo poderá manter o consumo em alta. “O grande momento de ver a cara da crise para o consumo é março. Então, os dados que saem a partir de abril darão essa indicação e poderemos ter números um pouco mais feios com relação a consumo”, disse.

Leal disse que tanto os dados sobre confiança do consumidor, quanto os números mais recentes de inflação e os últimos dados sobre desemprego do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) reforçam a aposta de mais um corte de 1 ponto porcentual da Selic em março, para 11,75%. “Os dados de desemprego do Caged vieram muito ruins. E os dados de inflação também reforçam a tendência de o Copom repetir corte de 1 ponto porcentual”, ressaltou.

Em janeiro, o Caged registrou uma perda líquida de 101.748 vagas de trabalho formal. O resultado negativo foi o primeiro para um mês de janeiro desde 1999, quando foram fechadas 41.211 vagas.

Leal estima que após março, o Copom poderá reduzir a Selic em 0,75 ponto percentual em abril e junho, levando a taxa para 10,25%, patamar em que pode ficar até o final do ano. No entanto, ele não descarta mais cortes, caso as medidas adotadas pelo governo para liberar mais crédito não mostrem efeito.

O economista disse que ainda que a taxa chegue a 9,5% o Brasil continua sendo muito atrativo para o investidor estrangeiro e que assim que a confiança começar a ser restabelecida globalmente, o Brasil deverá ser o primeiro destino para investimentos. Segundo ele, conforme a aversão a risco diminuir, o investidor não procurará fazer caixa, e sim obter rentabilidade.

“Concordo com o Delfim Netto de que o Brasil vai continuar sendo o último peru disponível no mundo. Todos estão com o dedo no gatilho esperando para entrar no Brasil”, disse.

Apesar dessa perspectiva otimista de retorno de investimentos, Leal reconhece que não há prazo para que isso ocorra, pois antes de mais nada é preciso que o investidor tenha certeza de que a crise chegou ao fundo do poço. “Isso é difícil dizer, pois esta crise está vindo em ondas”.

Leal acredita que mesmo que o Brasil escape de ter dois trimestres consecutivos de PIB negativo, “a sensação já é de uma recessão”. Ele projeta que o PIB de 2009 ficará em 1,5% este ano. Para o câmbio, a projeção é de que o dólar ficar entre R$ 2,30 e R$ 2,40 este ano. “Não vejo grandes oscilações. Não vejo grandes problemas de fluxo em 2009, mas a gente não vai ter mais a folga de fluxo dos últimos dois anos.”

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