Ser

Casada, solteira, separada...

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 5 min

Caminho trilhado

O movimento feminista teve sua origem na Europa Ocidental e se concretizou a partir do século XVIII, tangido pelas dificuldades e opressão feminina de longos séculos, pulsionado pela oferta e solicitação do mercado para mão-de-obra, preferencialmente mais barata, informa a psicóloga Marilene Krom.

De acordo com ela, este movimento desenvolveu-se por séculos e garantiu à mulher maior conscientização de seus direitos, um trabalho mais igualitário e um convívio social mais justo e pacífico, graças ao advento das leis trabalhistas. Mas a luta continua e é longa.

Atualmente, o movimento feminista tem como bandeiras principais, no Brasil, o combate à violência doméstica e à discriminação no trabalho. “Também se dá importância ao estudo de gênero e da contribuição, até hoje um tanto esquecida, das mulheres nos diversos movimentos históricos e culturais do País. A legalização do aborto (que atualmente só é permitido em condições excepcionais) e a adoção de estilos de vida independente são metas de alguns grupos”, acrescenta Krom.

De acordo com ela, as raízes do feminismo no Brasil estão no movimento pelos direitos políticos, ainda no século 19.

“Mas, infelizmente, isso não se estende para o mundo todo. falamos do mundo ocidental. em outras regiões ainda existe a violência institucionalizada, o sexismo contra a mulher desde a segregação à mutilação sexual, em suas várias formas de perversidade. Há um longo caminho para todas as sociedades, para que elas considerem os seres humanos sem rótulos, mas dignos de respeito e consideração em sua humanidade”, conclui.

Crise na masculinidade

Feminino e masculino se polarizam. Logo, se um sofre alteração, o outro não tem como fugir dela. Com as transformações da mulher, o homem também está numa fase histórica de repensar seu papel. A crise na masculinidade é constatada por vários estudiosos, comenta Marilene Krom, doutora em psicologia clínica.

“Ele está revendo sua participação na sociedade e buscando ampliar seu papel. No entanto, devido às pressões da sociedade, que cobra dele a manutenção do lugar tradicional, e à dificuldade da maior aceitação das novidades, o que se percebe é que o homem muda aos poucos. Com certeza houve, está havendo e continuarão ocorrendo mudanças no perfil masculino”, informa a professora universitária.

De acordo com ela, estudiosos da questão de gênero apontam que o século 21 será o período de mudanças para o homem e também de sua libertação do modelo antigo. ‘Eles estão descobrindo o papel do afeto, a importância do exercício da paternidade haja vista a crescente solicitação de guarda compartilhada, o cuidado com a subjetividade visível no número acentuado de homens que procuram a ajuda psicoterápica”, conclui.

Sax e futebol também são coisas de mulher

A bancária Roseli Cotrin rompeu alguns estigmas femininos. Admite a qualquer um o apreço por futebol e, atualmente, se dedica a sua mais recente paixão: o saxofone. Consciente das pressões impostas à mulher, não se curva às exigências do padrão estético pregado hoje em dia.

“A gente contesta algumas regras, mas não todas. Para levar o dia-a-dia também temos de nos adaptar. Sofremos muito ao contestar tudo. Até por acomodação”, comenta. Ela também não esconde, pelo contrário, seus atributos maternos. Apesar do companheiro Leandro ser elogiado enquanto marido, pai e também nas rodas familiares de música, é ela quem está à frente da educação das crianças.

Típica mãezona, é principalmente no colo de Roseli que Luíza e João recebem conforto assim que algum vírus oportunista lhes causa desconforto físico. Segundo ela, sua preocupação com a saúde dos filhos é bem compreendida no trabalho, onde não percebe preconceito. No entanto, ele está bem ali, em tradições familiares. “Quando a criança nasce, é a sogra, por exemplo, quem é chamada. Normalmente, uma mulher. Isso acaba até afastando o pai dessa relação, que poderia ser outra. A necessidade faz o sapo pular”, conclui.

“Nuvenzinha” sobre a modernidade

Moderna até no visual, Déborah Costa Bosco Duarte já se habituou ao glamour das passarelas do São Paulo Fashion Week. Graças à empresária, os maiores nomes da moda brasileira ganharam um novo apreciador e crítico. Eduardo, o marido dela, vai aos desfiles, embora seja dentista. “Ele se envolveu mais com a minha profissão do que eu com a dele. Como tenho loja, ele me dá muito apoio porque um mês é diferente do outro”, comenta Déborah.

Eduardo ainda é fundamental na rotina dos filhos Sofia e Otávio. Se ela leva ao balé, futebol e inglês, é ele quem vai buscá-los. No sábado, enquanto Déborah atende às clientes, é o dentista quem fica com a prole. “É uma questão de postura. Meus filhos já estão acostumados, cresceram assim, se adaptaram desde pequenos. Estou confortável”, diz. No entanto, não nega as pressões a que estão submetidas as mulheres.“A gente se cobra. Às vezes, acho que tenho que chegar em casa e preparar o jantar”, conclui. Eis a “nuvenzinha” sobre a modernidade.

Racionalidade admitida

Seja qual for o período do dia, a farmacêutica e professora Daniela Barbosa Nicolielo está debruçada sobre o trabalho. Tanta dedicação só é possível graças à colaboração do marido Juliano, com quem divide as responsabilidades na educação de Isadora e Lorena. Habituada às exigências profissionais, ela admite que ainda hoje a mulher precisa lançar mão da racionalidade masculina, pelo menos durante o expediente.

“Como assume um papel que antigamente era do homem, ela ainda incorpora essa máscara. Não pode se emocionar muito, demonstrar tanta sensibilidade”, diz. Por conta da situação, na opinião dela, muitas profissionais têm dificuldade em conciliar feminilidade com trabalho. Normalmente, as características típicas da mulher se restringem ao aspecto estético. Daniela, por exemplo, não descuida de cabelo e unha.

O cuidado, atualmente, é mais cobrado pelo mercado do que pelo próprio companheiro.

Lutadora e feminina

A dentista Renata Aleixo assumiu sozinha os cuidados de Marina Martin. Não sucumbiu ao casamento, apesar da gravidez. O pai de sua filha é presente, mas cabe à ela a condução da rotina diária, levada com esforço e, por que não, beleza. Numa casa habitada só por mulheres, conciliar dedicação e cuidados pessoais é algo transmitido já no berço.

“Dentro da minha área profissional, tento estudar, crescer. Me especializei. Não sou de ficar parada. Poderia ter optado por ficar em casa, cuidando só dela, mas não sou assim”, comenta. Também não é de sua natureza descuidar do próprio corpo. Bate cartão no salão de beleza semanalmente. Ainda arruma tempo para drenagem e massagem. Marina trilha o mesmo caminho. É responsável e feminina.

Comentários

Comentários